Reportagem Especial
Moradores de rua - Quem são eles? (5'15'')
21/05/2010 - 00h00
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Moradores de rua - Quem são eles? (5'15'')
O cenário nas grandes cidades nem chama mais a atenção: moradores de ruas vistos aqui e ali, dormindo no chão, debaixo de viadutos, trabalhando nos estacionamentos ou recolhendo lixo reciclável. Mas quem são essas pessoas? Homens e mulheres anônimos, muitas vezes alheios à realidade, vivendo um mundo próprio de devaneios e desproteção social.
Começamos procurando o que muitos descreviam como sombra, espectro, até mesmo assombração. Dona Joana Barbosa de Souza, idade não declarada, cabelos longos e brancos, vestes sempre claras, na medida do possível que a vida na rua permite, anda sempre sozinha de um lado para outro nas imediações do setor de embaixadas sul e superquadra 206 sul, no Plano Piloto.
Existem muitos moradores de ruas na capital do país, com vários perfis, mas a mulher de branco desperta a curiosidade de quem cruza com a figura que carrega livros, dorme embaixo das árvores e, aos poucos com quem conversa, demonstra uma cultura e passado bem diferentes da atual realidade dela.
Joana Barbosa de Souza, como faz questão de ser chamada, mistura ficção com o factual, mas não perde a elegância para se descrever como migrante ou andarilha e não moradora das ruas.
"Eu sou migrante, eu migrei de uma cidade para outra com recursos. Não vim aqui a toa, eu vim em função de escola, de trabalho. Eu estudava música, estudava piano e vim aqui para Brasília para a escola de música e hoje eu olho para as minhas mãos e vejo completamente comprometidas, carregando peso, por exemplo"
O passado dessa senhora que escreve livros, diz ter a proteção da polícia federal e quer voltar à escola de música, ainda é formado por pedaços de realidade que ela oferece aos poucos que confia: os garçons de um restaurante onde toma um cafezinho todas as tardes.
Antonio Carlos dá uma pausa no trabalho para nos contar que acredita que dona Joana teve uma vida de conforto antes de começar a morar nas ruas.
"Ela só disse que já foi casada e teve uma grande decepção na vida e é por isso que está assim morando na rua. Ela disse que era professora."
A reconstituição do passado de alguém alheio à realidade é difícil de ser feita, mas especialistas em população de rua atestam que muitos casos de moradores são de pessoas que um dia já tiveram, sim, uma estrutura familiar, educacional e econômica.
Uma pesquisa conduzida pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em 2008, identificou 32 mil pessoas em situação de rua em 71 municípios brasileiros, onde 74% dos entrevistados sabem ler e escrever, mais da metade, 51,9%, possuem algum parente residente na cidade onde se encontram e 58,6% dos entrevistados afirmaram ter alguma profissão.
O professor Dario de Souza, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traçou um perfil dos moradores de rua na cidade do Rio e afirma que os mitos são derrubados: não é um grupo de bêbados, loucos e drogados, nem são apenas migrantes rurais.
"Os motivos que levam as pessoas a irem para as ruas estão direta ou indiretamente ligados à condição de vulnerabilidade social. Existe uma parte da população a qual se devota pouca atenção que são as pessoas idosas, que vão aos municípios centrais a procura de atendimento médico público que não encontram nas suas áreas de origem, e acabam não podendo retornar. Então são vulnerabilidades diferente que determinan a ida para a rua, direta ou indiretamente ligadas à pobreza"
Em Brasília, todos os dias em frente a um parque de convivência, o lavador de carros Julio Cesar Fernandes, o Galego, revela que já teve um emprego formal e não admite ser confundido com mendigo.
"Estamos aí né, para o que der e vier. Fui carpinteiro, trabalhador, mexo com gráfica, fazedor de chinelo também, agora eu to aqui, né, trabalhando"
Com a produção de Lena Araújo, Felipe Néri e Lucélia Cristina,
De Brasília, Keila Santana.