Reportagem Especial
Abuso sexual - Como proteger crianças e adolescentes (06'16")
27/04/2010 - 00h00
-
Abuso sexual - Como proteger crianças e adolescentes (06'16")
No Brasil, 93% dos casos de agressão sexual contra crianças são cometidos por familiares. 90% dos agressores são do sexo masculino, e 80% das vítimas são meninas. Metade das crianças violentadas tem entre dois e cinco anos.
Os dados do Centro de Combate à Violência Infantil mostram que a natureza do crime inibe a denúncia. A criança pequena se sente amedrontada, é ameaçada e aterrorizada por uma pessoa que deveria protegê-la. Teme que, se denunciar o abuso, a família dela se desintegrará. Isso acaba com a auto-estima da criança e inibe ainda mais a vontade de denunciar.
A mãe que vamos ouvir agora teve o filho de dois anos violentado pelo próprio pai. Ela decidiu escrever um livro para contar a história. Para proteger a si mesma e ao filho, ela escreveu sob o pseudônimo de Paula Belmanto, e mudou os nomes e lugares onde o crime ocorreu.
Paula conta como foi difícil para ela entender e acreditar no sofrimento que o bebê de dois anos tentava expressar.
"Eu procurei um advogado, eu procurei uma terapeuta. Eu busquei também fazer um estudo psicológico do Lucas, para ter uma noção exata de que realmente estava acontecendo aquilo que ele tinha colocado, apesar de que a descrição que o Lucas deu dos fatos era uma coisa que não deixava nenhuma margem de dúvida. Mas de qualquer maneira, para eu poder afastar o pai do convívio dele, eu precisava de provas. Então, um estudo psicológico do estado emocional do Lucas naquele momento era um início de prova."
Um ponto importante defendido por todos os especialistas para conseguir proteger a criança de ataques sexuais é criar uma relação de confiança entre a criança e os adultos que convivem com ela.
A relação deve ser de confiança irrestrita. A criança deve ficar à vontade para falar com um ou ambos os pais de qualquer abuso que tenha sofrido, ou situação que ela tenha considerado desagradável, mesmo que tal abuso tenha sido realizado por um parente.
Maria Helena Vilela, do Instituto Kaplan da Sexualidade Humana, explica que a criança deve, além de se sentir acolhida e protegida, ser alertada pelos pais, com carinho e compreensão, de que esse tipo de agressão existe e ela, criança, não deve ficar calada se for vítima.
"É importante que os pais saibam conversar com as crianças sobre sexualidade. E falar com elas de que existe essa possibilidade. E poder encarar isso de perto para poder a criança se sentir segura e poder conversar com eles. É por isso que nós fazemos, então, um trabalho no Instituto Kaplan para ensinar os pais como falar sobre sexualidade com os filhos. -entrevistador: ahhh, entendi: Então, a chave é a confiança da criança com os pais?- É a confiança da criança com os pais. E a certeza que pode conversar sobre essas questões com eles."
O professor Vicente Faleiros, coordenador do CECRIA, ainda aponta outro problema que deve ser resolvido para que as crianças e os adolescentes se sintam seguros em relação à sexualidade: a educação sexual nas escolas é fraca, confusa e cheia de problemas.
"Quais são as deficiências? Em primeiro lugar, é biologizar a educação sexual. Quer dizer, é só colocar o corpo. A diferença da genitália masculina e feminina. Isso é informação. Não é educação. Agora, a outra deficiência é o segredo, é o medo de falar da sexualidade, é colocar a sexualidade só como erotismo."
Paula Belmanto reforça a importância de dialogar abertamente e com carinho e atenção sobre sexualidade com os filhos. Com esse expediente, ela conseguiu ajudar o próprio filho a conseguir superar os traumas do abuso que tinha sofrido.
"Teve um dia que ele me chamou para conversar, perguntou tudo o que ele quis a respeito desse assunto, eu respondi da forma mais sincera, mais direta, mais carinhosa, mais cuidadosa possível. E foi uma conversa difícil. No final, ele mesmo falou que foi uma conversa muito difícil mas que ele se sentia aliviado."
A história do filho de Paula Belmanto termina bem: hoje, o garoto é um adolescente normal, que gosta de futebol e está começando a namorar. Ela conta que, de vez em quando, o filho fica triste e ainda sente a necessidade de uma figura paterna, mas que a terapia o tem ajudado também nessas horas.
De Brasília, Bruno Angrisano