Reportagem Especial
Álcool e outras drogas - O consumo começa cada vez mais cedo (06'41'')
30/11/2009 - 00h00
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Álcool e outras drogas - O consumo começa cada vez mais cedo (06'41'')
O consumo abusivo de álcool no Brasil demonstra tendência de crescimento. É o que apontou a pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, realizada no ano passado, pelo Ministério da Saúde, com 54 mil pessoas residentes nas capitais dos estados e no Distrito Federal.
Em 2008, 19% dos entrevistados declararam ter consumido álcool de forma abusiva em algum tipo de situação nos últimos 30 dias. Em 2007, foram 17,5%, e em 2006, o primeiro ano da pesquisa, 16,1%. Os resultados mostram ainda que consumo é mais frequente nas faixas etárias mais jovens.
A psiquiatra e pesquisadora da USP, Camila Magalhães Silveira, explica que o álcool é o principal responsável pelos anos vividos com algum tipo de incapacitação e a principal causa de doenças no mundo. O padrão de consumo de álcool do brasileiro, segundo ela, é um dos mais preocupantes. É o chamado "beber pesado episódico", ou seja, quatro ou mais doses em uma única ocasião. Ela alerta para os riscos desse consumo.
"Porque esse padrão nosso de beber está relacionado a brigas, sexo desprotegido, acidentes de trânsito, doenças agudas como infarto, gastrites, uma série de comportamentos anti-sociais na família, na escola e no trabalho e o aumento da mortalidade por todas essas causas. Então, quanto mais precoce a idade de início do uso do álcool na vida, antes as pessoas vão beber o álcool mais pesadamente e antes elas vão se tornar mais dependentes do álcool"
O "beber pesado episódico" é padrão de consumo de álcool de um em cada quatro jovens no país. Dados da Sociedade Brasileira de Psiquiatria mostram que 21% dos meninos entre 14 e 17 anos e 12% das meninas beberam de forma abusiva no último ano. Estudos científicos em psiquiatria demonstram ainda que o álcool é a porta de entrada dos jovens para outras drogas.
O psiquiatra Marco Antonio Bessa, secretário do departamento de dependência química da entidade, avalia que o consumo de álcool entre os adolescentes tem relação direta com a publicidade de bebidas.
"Houve uma mudança de padrão de bebida entre as mulheres, entre as meninas e isso é um fator extremamente grave porque sempre tivemos historicamente os homens bebendo mais que as mulheres e as mulheres quase bebendo nada e hoje em dia as meninas bebem muito, bebem pesado, inclusive porque houve uma estratégia da indústria de álcool do mundo de criar uma bebeida específica para o paladar feminino/jovem que foram as bebidas "ice" e a isso se relaciona um outro ponto extremamente importante que o "beber pesado episódico" está relacionado à publicidade, então, é necessário que a Câmara Federal e o governo federal tenham coragem de enfrentar o lobby poderosíssimo da indústria de álcool. É um absurdo que um país como o Brasil permita que se faça propaganda de bebida, de cerveja, a qualquer hora do dia ou da noite e dirigida especificamente ao público jovem"
A proibição da publicidade de bebidas é uma das recomendações da Organização Mundial da Saúde para combater o problema. Na Câmara, está em discussão um projeto de lei (2733/08), do Poder Executivo, que proíbe rádios e TVs de veicularem, das 6 da manhã às nove da noite, propaganda de bebidas, como cervejas, champanhe, vinho e as bebidas "ice".
Deputados da Comissão de Seguridade Social e Família querem retomar esse debate e destacam a aprovação pelo Congresso da chamada Lei Seca (Lei 11.705/08), que reduziu a zero a tolerância para a direção após a ingestão de álcool. No primeiro ano de vigência da lei, de acordo com o Ministério da Saúde, o número de mortes por acidentes no trânsito caiu 22.5%.
Apesar dos avanços, o problema continua. No ano passado, 31% dos entrevistados em pesquisa do Ministério da Saúde disseram que dirigem mesmo depois de beber um pouco. A diretora de Articulação e Coordenação de Políticas sobre Drogas da Secretaria Nacional Antidrogas, Carla D´albosco, explica que esses dados é que vão orientar as políticas de prevenção e combate às drogas do governo.
"É preciso conhecer com embasamento científico para poder depois pautar as ações. Não adianta combater um determinado tipo de droga se de repente as pesquisas demonstram que existe outra droga que é mais problemática. Por exemplo, todas as nossas pesquisas demonstram que o álcool é um problema bastante em envidência, no Brasil, não só entre adultos, mas entre adolescentes também, então essa é uma temática que tem que estar incluída em qualquer discussão sobre drogas, por isso a gente sempre inclui o álcool como um tema específico"
Até o final do ano que vem, o governo vai investir mais de R$ 117 milhões na ampliação do acesso às ações de prevenção e tratamento do uso nocivo de álcool e outras drogas na rede de atenção e saúde mental do SUS. Trata-se de um plano emergencial que busca alcançar, principalmente, crianças, adolescentes e jovens por meio das ações de prevenção, promoção e tratamento dos riscos e danos associados ao consumo prejudicial de substâncias químicas.
As políticas do governo para lidar com o consumo de drogas serão abordadas na reportagem especial de amanhã.
De Brasília, Geórgia Moraes