Reportagem Especial
Cem anos de educação profissional científica e tecnológica (08'13'')
03/11/2009 - 00h00
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Cem anos de educação profissional científica e tecnológica (08'13'')
A educação profissional no Brasil nasceu há cem anos, a partir da criação, em 1909, de 19 escolas de Aprendizes e Artífices. A ideia do então presidente Nilo Peçanha era prover os trabalhadores de meios de sobrevivência. Por trás dessa missão, havia também um contexto de formação para o trabalho, vista pelas classes dirigentes da Primeira República como uma maneira de conter sinais de uma suposta desordem social.
Mas o desenvolvimento das escolas técnicas federais- mais tarde Centros Federais de Educação Profissional e Tecnológica, Cefets- foi além. De uma origem fortemente ligada ao universo do trabalho, os Cefets também se tornaram um instrumento importante para a produção científica e tecnológica do país.
O diretor-geral do Cefet-Minas Gerais, Flávio Antônio dos Santos, confirma essa vocação. O centro de educação profissional mineiro é um dos 19 originados das escolas criadas por Nilo Peçanha.
"O Cefet-Minas tem uma tradição na produção científica e tecnológica. E essa sua tradição nós temos procurado incrementá-la nos últimos anos, sobretudo porque estamos vivendo uma era em que ciência e tecnologia se desenvolvem em uma velocidade extremamente rápida. A contribuição que o Cefet tem feito se dá não só produção do conhecimento, mas também na formação de recursos humanos. Nossa atuação é no campo das engenharias, educação profissional de nível médio e na pós-graduação. E há um ambiente absolutamente fértil que os alunos se envolvam em trabalho de iniciação científica júnior, no âmbito da educação de nível médio, educação científica na graduação, trabalho de pós-graduação."
O Cefet-Minas Gerais tem mais de 13 mil alunos: 7500 no ensino técnico e 6000 na graduação e pós-graduação. Segundo Flávio Antônio dos Santos, 78% dos estudantes do nível técnico, ao final do estágio intermediado pela escola, saem empregados com carteira assinada.
Em Minas Gerais, o Cefet, além de receber recursos federais, também busca parcerias com o setor privado. A interação com os empresários permitiu um aumento de 40% nas receitas do centro disponíveis para sua manutenção. Entre as áreas com projetos aprovados, estão setores econômicos com forte atuação na região, como mineração, metalurgia e automobilística.
O estímulo à pesquisa integrada às demandas do setor produtivo também é realidade no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco.
Gregory Laborde, de 18 anos, cursa o Ensino Médio técnico na área de Informática no campus de Belo Jardim, no agreste do estado. Bastante satisfeito com o curso, o estudante participa de um núcleo de pesquisa, desenvolvendo projetos em sintonia com as demandas de empresas parceiras do instituto.
"Aqui na escola a gente tem um núcleo de parcerias com escolas particulares da região. Montou um laboratório e treinou e capacitou os professores, tudo dentro do software livre, que o governo federal apoia. Tanto nós, como instituto, tanto eles, como escola, estão colhendo frutos bons dessa parceria.(...) Minha linha de pesquisa é dentro do software livre, dentro da educação, com maneiras de inserir essa tecnologia na educação e fazer trabalhos demonstrativos e levar para comunidade essa tecnologia, para ser cada vez mais difundida, porque é socialmente mais justa e inclusiva."
O gosto pela pesquisa é tanto que Gregory pensa em seguir carreira de pesquisador, de preferência no IFET de Pernambuco. Cursando o segundo ano do Ensino Médio, o aluno aguarda a abertura da graduação em Informática no campus de Belo Jardim. A unidade conta apenas com cursos técnicos em agroindústria, agropecuária, enfermagem e informática e, ainda, com núcleos de pesquisa em ciências exatas, agronegócio, informática e estudos culturais.
A rede federal de ensino tecnológico em Pernambuco é uma das pioneiras no país, iniciando suas atividades em 1910. Hoje, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do estado conta com seis campus.
Apesar de considerada um dos marcos da produção científica brasileira, a educação profissional já passou por períodos de enfraquecimento nesses cem anos de história. De 1909 a 2002, foram construídas 140 escolas técnicas em todo o país. Mas há que se lembrar que uma lei de 1998 interrompeu a criação de novas unidades federais.
A situação começou a mudar em 2005, quando o governo federal conseguiu aprovar uma mudança na legislação. Desde então, o Ministério da Educação entregou mais de 87 novas unidades federais.
Atualmente, a rede tem 215 mil alunos. A expectativa do governo é de que, até 2010, sejam 500 mil.
Os planos de expansão estão alinhados com uma nova proposta de educação profissional, como explica Eliezer Pacheco, secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação.
"Os Institutos federais, que são uma formulação tipicamente nossa, o Brasil parou de copiar modelos estrangeiros, para criar seu próprio modelo. É a única instituição do mundo que atua da educação básica à pós-graduação, mestrado e doutorado, embora voltada sempre para ciências aplicadas. (...) Os institutos nascem profundamente enraizados às matrizes produtivas locais e regionais, assim como as matrizes culturais, com a missão de identificar e diagnosticar problemas para o desenvolvimento dessas regiões e formular políticas tecnológicas e educacionais da educação profissional que possam alavancar esse desenvolvimento."
Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, IFETS, foram criados em dezembro de 2008 para integrar toda a rede de ensino profissional. Ao todo, há 38 IFETS espalhados pelo país, que incorporaram centros federais de educação tecnológica, unidades descentralizadas de ensino, escolas agrotécnicas, escolas técnicas federais e instituições técnicas ligadas a universidades. Os institutos também procuram aliar a educação técnica a cursos superiores de tecnologia e licenciaturas e a núcleos de pesquisa, extensão, mestrado e doutorado.
Segundo o Ministério da Educação, menos de 30% dos jovens de 18 a 24 anos chegam ao ensino superior. Sem perspectivas de ingressar em um curso de graduação, muitos abandonam o ensino médio. Em cursos técnicos, pelo contrário, a evasão é mínima, de acordo com o ministério.
O governo planeja investir, até 2010, mais de R$ 1 bilhão na expansão da educação profissional.
De Brasília, Ana Raquel Macedo