Reportagem Especial

A produção científica das universidades brasileiras (09'28'')

03/11/2009 - 00h00

  • A produção científica das universidades brasileiras (09'28'')

No Brasil, a cara da produção científica se confunde um pouco com o jeito e as características das intituições públicas de ensino ou de pesquisa. Isso porque a maioria dos pesquisadores e doutores do país desenvolvem seus trabalhos nos laboratórios e salas das universidades.

Para se ter uma ideia, em 2008, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (Séries Históricas - Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil- CNPq), das 10 instituições com maior número de pesquisadores com doutorado no país, nove eram universidades públicas federais ou estaduais. A outra era a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, também um instituto público. A lista era liderada pela Universidade de São Paulo, seguida pela Universidade Estadual Paulista e a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mas nem sempre foi assim.

Em entrevista recente ao jornal da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, lembra que, em 1950, não havia ambiente de pesquisa nas universidades. O país contava com cerca de duas a três dezenas de cientistas.

Aos poucos, a situação foi mudando, em termos de formação de pesquisadores, investimentos e, consequentemente, produção científica. Hoje os brasileiros são responsáveis por 2,12% da pesquisas mundiais, ocupando a 13ª posição no ranking dos países com mais artigos publicados em revistas científicas de renome internacional.

Em algumas áreas, somos referência, como destacou o ministro Sérgio Rezende, na abertura da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

"O agronegócio é exatamente um deles. A produção agropecuária brasileira aumentou muito nas últimas décadas sem quase aumentar área plantada, exatamente pela tecnologia desenvolvida pela Embrapa. (...) O exemplo da exploração de petróleo em áreas profundas. O sistema Petrobras, as universidades envolvidas têm hoje conhecimento em maior nível possível para explorar petróleo em áreas profundas. Outro exemplo é na área aeronáutica, onde em 1948 foi feito um instituto tecnológico da aeronáutica em São José dos Campos e isso criou as bases para termos uma Embraer produzindo aviões para vender em todo mundo. E na área do agronegócio quero destacar os biocombustíveis.(...) Então, naquelas áreas em que o país começou a investir há 30, 40 anos somos campeões mundiais. Precisamos fazer isso com toda ciência, tecnologia e inovação."

De 2000 a 2008, segundo o ministério, o investimento nacional no setor praticamente triplicou, passando de R$ 15 bilhões para quase R$ 45 bilhões. Do total em 2008, quase R$ 25 bilhões vieram do setor público e R$ 20 bilhões do empresariado.

Com a experiência de quem leciona e orienta pesquisas desde a década de 80, a professora Elvira Maria Saraiva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, confirma que o estímula à produção científica no país tem melhorado nos últimos oito anos. Apesar dos avanços, Elvira, que integra o Departamento de Imunologia do Instituto de Microbiologia, aponta alguns desafios.

"Eu acho que a educação, de uma maneira geral, tem que melhorar em todos os níveis, desde o nível inicial dos estudantes e vir acompanhando até a universidade. Se você fizer um investimento bom em ensino básico, você vai ter um estudante muito melhor na hora em que ele chegar na universidade. Esses programas todos que o governo têm feito de estimular a ciência, de estimular os estudantes com bolsa e o acesso mais fáci, isso melhorou muito. São medidas importantes que vão surtir efeito a longo prazo."

Despertar o gosto pela ciência nos jovens brasileiros é prioridade do Ministério da Ciência e Tecnologia, que tem na expansão do sistema de Ciência e Tecnologia e no apoio aos pesquisadores iniciantes um dos eixos principais do plano criado pelo governo para o incremento da produção científica.

Uma das apostas do ministério é a concessão de bolsas ao estudantes de graduação que participem de projetos de pesquisa. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, Pibic, há mais de 50 anos distribui recursos aos jovens pesquisadores. Atualmente, são 26 mil bolsitas, como Anderson Guimarães Batista Costa.

O estudante, do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi o primeiro colocado no Prêmio Destaque do Ano de Iniciação Científica de 2009, na área de Ciências da Vida. Com um trabalho sobre o protozoário causador da leishmaniose, Anderson quer seguir a carreira científica. Nos seus planos, está o mestrado já no início do ano que vem. O apoio dado pelo Pibic, segundo ele, ajudou na decisão.

"Muito porque tem apoio financeiro e não é só o apoio da bolsa. Tem apoio para o projeto que a gente pode comprar reagente, enfim desenvolver o projeto, equipamentos."

Vistos de uma maneira geral, os números da ciência no Brasil podem mascarar algumas desigualdades ainda presentes na distribuição de pesquisadores por área do conhecimento e também por região do país.

Em 2008, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (Séries Históricas - Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil- CNPq), 83% dos pesquisadores trabalhando com Ciências Exatas e da Terra possuíam título de doutor. Entre os que trabalhavam com Ciências Biológicas, 81% eram doutores. Já na área das Ciências Humanas, o índice era de 57%. Na de Sociais Aplicadas, 53%.

Quanto à distribuição dos recursos, o antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro Otávio Velho avalia que os recursos disponíveis têm aumentado para todas as áreas. O problema, segundo o também vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, é que o modelo de acesso ao dinheiro continua inadequado às Ciências Humanas e Sociais.

"(...) De um lado os recursos parecem ser suficientes e, às vezes, as agências até reclamam de que faltam projetos nas áreas de Ciências Sociais, eles acham que deveria haver mais projetos. Por outro lado, há queixas da parte das instituições de Ciências Sociais da falta de recursos. A impressão é que há uma certa falta de sintonia entre o modelo de ciência que predomina no país e as necessidades das Ciências Sociais."

As distorções também aparecem na distribuição de pesquisadores doutores por região brasileira. Enquanto em 2008, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (Séries Históricas - Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil- CNPq), o Sudeste concentrava 38.500 pesquisadores doutores, o Norte possuía apenas 2.860, o equivalente a 3,9% do total. O Centro-Oeste mantinha 7% do total de pesquisadores doutores. No Sul, o índice era de 20% e, no Nordeste, quase 16%.

Coordenador de extensão do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, Carlos Bueno lamenta que a região amazônica, cujos limites abrangem cerca de 60% do território nacional, mantenha tão poucos pesquisadores com doutorado.

"Nós tivermos, há alguns anos atrás, um pico de contratações de pessoal. E esse pessoal já está com mais de 50 anos de idade. (...) Tem muita gente boa, já quase em final de carreira, e que até hoje não deixou descendente formado para que possa acompanhar linhas extremamente importantes para a região."

Além de investimentos na formação de pesquisadores, a esperança de quem defende mais ciência para a Amazônia está também em atrair os corações e mentes de jovens cientistas. Estudantes como Alzira Miranda de Oliveira, que curso o doutorado em biologia de água doce no Inpa. Formada em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Amazonas, a pesquisadora não pensa em sair da região.

"Aqui, o potencial é enorme. Aqui, há um universo de perguntas a serem feitas, a serem testadas, estudadas, exploradas em diversas áreas. Mais do que isso. A complexidade da Amazônia é um convite para qualquer pessoa, qualquer outro jovem que queira participar da área de pesquisa."

Alzira participa do Centro de Estudos da Adaptação da Biota Aquática da Amazônia, do Inpa. O projeto Adapta tem como foco o mapeamento genético das espécies aquáticas capazes de sobreviver a situações adversas, como rios poluídos por mineração. A pesquisa, que conta com mais de 100 doutores, deve receber R$ 9 milhões, vindos do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Amazonas.

De Brasília, Ana Raquel Macedo

O programa apresenta e aprofunda temas em debate na Câmara

Sábado e domingo às 8h30, 13h e 19h30. E nas edições do programa Câmara é Notícia. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.