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Especial Saúde Bucal - Brasil ainda é um país de banguelas? - ( 06' 57" )

28/10/2005 - 00h00

  • Especial Saúde Bucal - Brasil ainda é um país de banguelas? - ( 06' 57" )

No ano de 1500, quando os navios portugueses chegaram ao Brasil, os índios se assustaram com aqueles homens diferentes que usavam roupas estranhas. E parte do susto pode se explicar pela aparência doente de alguns marinheiros. Com a boca tomada pelo escorbuto, doença comum nas grandes viagens pelo mar e causada pela falta de vitamina C, muitos navegantes ficavam com os gengivas sangrando e os dentes moles.

E tudo indica que esse início determinou a sorte do brasileiro em relação a saúde dos seus dentes. Ainda nos tempos coloniais, uma das primeiras riquezas exploradas no Brasil foi a cana-de-açúcar. O professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Paulo Capel, explica que os canaviais foram determinantes para que as cáries se espalhassem pelo mundo.

"!E foi quando o açúcar se transformou em um produto economicamente acessível em escala global que a cárie assumiu proporções de verdadeira pandemia pelo mundo afora. E isso vai acontecer pelos séculos 16 e 17 com os ciclos de açúcar no Brasil".

As cáries devoravam os dentes dos brasileiros que passavam o dia a mascar um pedaço da doce cana-de-açúcar. Os séculos mudaram e os nossos dentes continuavam a se estragar e a doer. E o remédio era radical: dente doente só podia ser arrancado. O tempo foi passando e a odontologia começou a se desenvolver. E mesmo assim, até os anos cinquenta do século 20, cerca de 98% das crianças tinham cárie. Paulo Capel destaca que esse cenário começou a mudar nos últimos 30 anos, um período em que o Brasil começou a recuperar a saúde dos dentes das crianças.

"O Brasil é um dos países que tem registrado em nível mundial um dos declínios mais expressivos na prevalência de cárie dentária entre as crianças. Isso é um fato detectado pelas pesquisas epidemiológicas realizadas no país e reconhecido mundialmente pelos pesquisadores dessa área, isso é inegável. E isso se deve à continuidade de certas políticas públicas que vêm sendo implementadas no país nos últimos cinqüenta anos e que vêm tendo continuidade".

Uma dessas ações é a fluoretação das águas de abastecimento público, ou seja, colocar flúor na água que bebemos. Esse fato simples causa uma diminuição de até 60% na ocorrência de cáries. Outra medida importante foi a regulamentação do uso de flúor também nas pastas dentais, o que aconteceu em 89. Hoje, quase todas as marcas têm o flúor na sua composição.

TRILHA

Os avanços são inquestionáveis, mas ainda há um longo caminho a percorrer no que diz respeito à saúde bucal. Basta dizer que temos 30 milhões de pessoas desdentadas no Brasil. Os tratamentos são caros, e as filas no serviço público são longas. De acordo com uma pesquisa divulgada em 2004 pelo Ministério da Saúde, aos cinco anos só 40% das crianças estão livres de cáries. Quando chegam aos 18 anos, sobram apenas 10% que nunca tiveram um pontinho preto em algum dente. O presidente da Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva, Fernando Molina, aponta que a evolução da cáries gera uma fato mais grave: a perda precoce de dentes.

"Só 55% dos adolescentes com 18 anos possuem todos os dentes. O que significa dizer que nós atingimos o auge da adolescência, os 18 anos, o início da idade adulta, só com metade dos brasileiros com todos os dentes na boca".

Quando esse adolescente chega à idade adulta, dos 32 dentes que ele deveria ter, 20 já foram atingidos pelas cáries. E desses dentes cariados, 62% já foram extraídos. O resultado final é que 28% dos adultos não têm nenhum dente funcional. Isso significa que eles não conseguem mastigar, e a conseqüência disso é que o brasileiro se alimenta mal por não conseguir triturar alimentos mais duros. Fernando Molina afirma que o Brasil continua sendo um país de banguelas.

"Continuamos com uma população banguela, uma população de tamanduás que não tem dentes. Em pessoas com mais de 64 anos, e estamos avançando no tempo de vida das pessoas - é cada vez maior o número de pessoas idosas - 47% não têm nenhum dente na boca depois dos 64 anos e só 9% apresenta dentição funcional.

O estudo sobre a saúde bucal do brasileiro indicou também que 13% dos adolescentes nunca foi ao dentista. A região Nordeste apresenta o maior número de pessoas que não têm acesso à odontologia, e a região Sul foi a que teve a melhor avaliação. Mas mesmo na região Sul encontramos casos drásticos de assistência dentária equivocada. O responsável pelo serviço odontológico oferecido pelo SESC em Santa Catarina, Douglas Kovaleski, aponta que em alguns municípios do interior do estado, o mais comum é se optar pelo caminho mais prático: extrair os dentes, em vez do tratá-los.

"A gente encontra municípios aqui no estado onde ainda se faz extração de todos os dentes da boca de adolescentes de maneira preventiva. Não sei se você está me entendendo, é aquela coisa de tirar o dente para ele não incomodar. Isso é algo que há tempos atrás, a gente que é dentista já ouviu muito, mas hoje em dia isso acontece em Santa Catarina, no sul maravilha".

Precisamos comemorar os avanços conseguidos nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a luta deve continuar para que todo brasileiro tenha o direito à desfrutar de um sorriso aberto e repleto de saúde.

De Brasília, Daniele Lessa
SM

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