Rádio Criança
Profissão de parteira poderá ser regulamentada ( 03' 13" )
14/03/2005 - 16h50
Tereza Bordalo mora no Amapá, é parteira há 40 anos. Começou a partejar ainda menina e já perdeu a conta das crianças que ajudou a nascer. Ela conta que as parteiras espalhadas pelas regiões mais distantes do Brasil, onde não chegam médicos ou enfermeiros, tem um papel muito maior na comunidade em que vivem do que simplesmente ajudar no parto das mulheres. E por esse trabalho, elas nada recebem.
"Elas são a referência das comunidades. Elas trabalham na arte de partejar e ainda servem de orientadoras para as famílias, quando às vezes há alguma desavença. Não é só o parto, elas ensinam algum medicamento com ervas medicinais, e tudo isso sem nada receber, só muito obrigado".
Pois a profissão de parteira pode ser regularizada. O projeto que estabelece a profissão (2354/03), de autoria da deputada Janete Capiberibe, do PSB do Amapá, já está na pauta da Comissão de Seguridade Social e Família. Se aprovado, vai dar a cerca de 60 mil parteiras, concentradas principalmente nas regiões norte e nordeste, mais do que o muito obrigado. Elas irão receber capacitação para atenderem melhor às gestantes, como o uso de material esterilizado, e serão remuneradas pelos serviços de saúde que praticam. Janete Capiberibe explica a importância do projeto.
"A importância dele ser aprovado é exatamente garantir a vida, diminuindo a mortalidade da mãe e da criança através de informações que existem e podem chegar a elas através dos governos organizados, das prefeituras".
As parteiras são mulheres simples, que vivem na floresta e em locais de difícil acesso, onde o atendimento médico não chega. Quando não conseguem chegar a pé, elas vão de canoa, no lombo de burros ou de bicicletas. Parte delas já recebeu algum tipo de treinamento médico. Em vários estados do Norte, parcerias entre o governo local e as organizações das parteiras introduziram cuidados que melhoraram as condições de higiene durante o parto. O médico de família Rodrigo Pinheiro trabalha na comunidade de Mocinha Magalhães, no Acre, e destaca a importância das parteiras no sistema de saúde.
"Em várias regiões do Acre não se conta com médico ou enfermeira. Essas parteiras já vem fazendo parto há muito tempo, adquiriram uma experiência muito boa e elas ajudam o sistema de saúde local".
Rodrigo disse que a técnica e os cuidados médicos são importantes no momento de um parto, mas que o contato humano também é fundamental.
"Valorizar a parteira tradicional é valorizar a cultura popular. Se a gente valoriza o conhecimento popular a gente aproxima os profissionais de saúde da população e torna o atendimento mais humanizado."
Se aprovado na Comissão de Seguridade Social, o projeto que regulamenta a profissão de parteira só precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça.
De Brasília, Daniele Lessa