Papo de Futuro
A urgência da educação midiática no Brasil
03/02/2026 - 08h00
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A urgência da educação midiática no Brasil
Sabemos que a tecnologia é uma ferramenta poderosa, que traz oportunidades nunca vistas: amplia horizontes, promove autonomia e pode ser libertadora. Por outro lado, também vicia, gera cansaço, acelera a mente e provoca sensação de desconexão com o real, entre outros sintomas.
O Brasil conta com o trabalho de um instituto que coloca a literacia midiática e digital em primeiro lugar, e que busca não só erradicar o analfabetismo digital, mas também ajudar as crianças — que acessam telas cada vez mais cedo — a pensar criticamente sobre o uso das tecnologias.
Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, explica que não se trata de eliminar totalmente o uso das telas. Segundo ela, quando você aprende a navegar com segurança, consegue eliminar o que faz mal e ficar com o que faz bem. Ela afirma que existem tutoriais, usos positivos e ferramentas que aprofundam o conhecimento. É preciso priorizar aquilo que é importante para nós, especialmente conteúdos gratuitos e de qualidade, que permitam utilizar a internet de forma mais proveitosa, como informa Patrícia Blanco:
“Quando a gente traz a educação digital e midiática para o cidadão, a gente mostra justamente como funcionam, né, esses algoritmos e como funciona, por exemplo, a nossa pegada digital. O que os conteúdos que a gente engaja — e como isso faz com que a gente tenha conteúdos de recomendação — acabam fazendo com que a gente fique ou em bolhas ou num ciclo vicioso de conteúdos que podem não ser os melhores conteúdos para serem acessados. Então, o que que a gente coloca muito claro? Que para você consumir bem um conteúdo, para você poder aproveitar as oportunidades do ambiente digital, você precisa sair das bolhas, você precisa buscar outras vozes, você precisa ter o que a gente chama de uma dieta informacional rica, né? Da mesma forma que a gente tem que ter, numa dieta nutricional, um prato colorido, a gente precisa ter, quando a gente consome, quando a gente acessa um site, quando a gente acessa uma rede social, a gente precisa treinar o algoritmo para que ele possa nos oferecer uma dieta variada, uma dieta informacional variada.”
O ECA Digital também traz responsabilidades compartilhadas em melhorar o ambiente digital e não deixar esse peso apenas para as famílias ou para a sociedade.
O Palavra Aberta apoiou a aprovação do ECA Digital para colocar a criança e o adolescente no centro da atenção. No ECA Digital, a gente tem a responsabilização das plataformas, que acabam levando conteúdos inadequados para os mais vulneráveis. Temos uma lei que vai responsabilizar, sim, as plataformas que não tiverem atitude, como explica Patrícia Blanco
“Nós, no Palavra Aberta, defendemos uma responsabilidade compartilhada entre o poder público, a partir da criação de políticas públicas que tratem da proteção da criança a partir da educação; a gente fala da necessidade de educar o cidadão e a sociedade como um todo para ele se proteger e aproveitar as oportunidades desse ambiente. E o controle parental, como foi aprovado no ECA Digital, é muito importante para que haja um compartilhamento de responsabilidade. Mas também o papel das plataformas e da sociedade civil nessa divisão de tarefas para a proteção de crianças e adolescentes.”
Outra questão importante é o controle do que é publicado na internet essa é uma questão chave entender como o processo de moderação de conteúdo da rede não se confunde com censura, mas sim com proteção às leis e aos cidadãos — inclusive os mais vulneráveis. E as pesquisas demonstram que as crianças são as que mais sofrem, como atesta Patrícia Blanco.
“A liberdade de expressão é um direito fundamental de todo cidadão e todo indivíduo precisa ser exercida com ética e liberdade. A gente vê como um direito humano, mas que precisa ser olhado com responsabilidade. Não é porque eu tenho direito à liberdade de expressão na Constituição que eu posso sair dizendo qualquer coisa, que eu possa disseminar discurso de ódio, calúnia e difamação ou atentar contra a dignidade da pessoa. A liberdade de expressão vem com uma responsabilidade muito grande do cidadão.”
A educação midiática com esse papel: promover a análise crítica do conteúdo, ensinar o uso responsável das ferramentas digitais e fortalecer a autonomia do cidadão para exercer sua liberdade. Educação midiática é o conjunto de habilidades que permite ao cidadão interpretar criticamente informações, compreender como conteúdos são produzidos, identificar manipulações, reconhecer fake news, enquadramentos, discursos de ódio e estratégias persuasivas. Já a educação digital desenvolve competências para usar tecnologias de forma segura, ética e consciente. Envolve entender algoritmos, privacidade, proteção de dados, segurança online, pegada digital e uso saudável das telas.
No mundo digital, educar não é opcional: é condição para proteger, incluir e fortalecer a democracia.
Apresentação: Ana Raquel Macedo e Beth Veloso