Papo de Futuro

EP#70 - Fake news, ódio e violência nas redes sociais: entenda como funciona o viés algorítmico

28/05/2024 -

  • EP#70 - Fake news, ódio e violência nas redes sociais: entenda como funcionam o viés algorítmico

Com a aproximação das eleições, é essencial discutir um tema delicado relacionado às plataformas digitais, incluindo redes sociais, mecanismos de busca e prestadores de serviço na internet. Este ecossistema digital desempenha um papel crucial na formação da opinião pública e no direcionamento de informações.

 Uma pesquisa recente revelou que as interações que temos online tendem a ser influenciadas por direcionamentos políticos ou ideológicos, demonstrando que a tecnologia não é tão neutra quanto se afirma. Este é um ponto crítico, pois a imparcialidade é um valor fundamental nas democracias.

De acordo com a legislação de comunicação, nenhum meio deve priorizar, selecionar ou destacar uma notícia em detrimento de outra, uma vez que isso fere valores constitucionais como o direito à pluralidade e à autonomia do indivíduo. Assim como as emissoras de TV têm a obrigação de ouvir os dois lados em suas programações, como isso se aplica às redes sociais? No entanto, pesquisas indicam que as plataformas digitais, apesar de não produzirem conteúdo, influenciam significativamente o que é visualizado. Por exemplo, o Facebook reconhece que conteúdos que provocam reações extremas são mais propensos a obter cliques, comentários e compartilhamentos. Esses engajamentos não necessariamente beneficiam os usuários, mas sim incentivam outros a produzirem mais conteúdo, gerando um ciclo vicioso de interações intensas.

Os estudos demonstram que os algoritmos são responsáveis pela maior parte do conteúdo que consumimos. Por exemplo, conforme o diretor de produtos do YouTube, Neal Mohan, mais de 70% do tempo que você passa assistindo no enorme site de vídeos do Google, você é atraído pelo serviço de recomendação baseado em I.A., de acordo com notícia publicada no site CNET de 2018.

Conforme publicado no jornal inglês The Guardian, Guillaume Chaslot, ex-engenheiro do Google, coletou vídeos recomendados pelo YouTube a partir de buscas por “Trump” e “Clinton”, entre agosto, outubro e novembro de 2016, coletando 8.052 vídeos e identificando um expressivo viés de recomendação de vídeos contrários a Hillary Clinton e favoráveis a Donald Trump.

Esses resultados foram apresentados no curso 'Plataformas e Democracia: quando o Capital dá o tom e os Algoritmos, o compasso', organizado pelo DiraCom (1), por Alexandre Arns Gonzales, pesquisador colaborador voluntário do Instituto de Ciência Política da UnB e integrante do DiraCom (2).

Um dos aspectos problemáticos é que esses sistemas, além de tendenciosos, não são auditáveis. Ou seja, os pesquisadores Ottoni, West, Almeida e Meira conseguem perceber que existe um viés de recomendação ideológico por parte das plataformas, como o YouTube, da Alphabet, mas o acesso aos dados não é permitido (3). Não é possível saber como o sistema de recomendação do YouTube funcionava no passado, mas eles analisaram o comportamento dos usuários comentando em cada vídeo, explica o pesquisador Alexandre Gonzales.

A constatação que os pesquisadores chegam é que verificaram esse duto de radicalização no YouTube. Porém, devido a uma série de questões sobre a metodologia, o universo de banco de dados e limitações quanto ao funcionamento do sistema algoritmo de recomendação em si, os pesquisadores fazem a ressalva que não podem atribuir um peso exato ao sistema de recomendação do YouTube na radicalização, mas não negam que ele tem um papel a desempenhar.

 Até que ponto essa tendência dos sistemas algorítmicos de recomendação faz parte do modelo de negócio das plataformas, que pode estar favorecendo conteúdos nocivos para gerar mais tempo e maior engajamento dos usuários na rede, em busca da atenção dos usuários?

Uma das principais denúncias contra as plataformas veio de Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook, que esteve na Câmara em depoimento e revelou que o Facebook sabe que conteúdos que suscitam reações extremas têm mais probabilidade de obter cliques, comentários e recompartilhamentos (4). E é interessante porque esses cliques, comentários e compartilhamentos não são, necessariamente, para o benefício dos usuários, mas porque sabem que outras pessoas produzirão mais conteúdo se receberem curtidas, comentários e recompartilhamentos.

A revelação vai muito além. Segundo a ex-diretora da rede Meta, a plataforma mentiu sobre suas estratégias e sistemas de negócio. O pesquisador Alexandre Gonzales destaca os complicadores éticos no padrão de conduta da Meta.

 “O que Frances Haugen apresenta são documentos, pesquisas internas e comunicações internas da própria empresa, que mostram que o Facebook mentiu sobre o papel que tem no incentivo à produção e distribuição de conteúdos desinformativos, nocivos e incitadores da violência. O Facebook também mentiu sobre o impacto que seus serviços têm na saúde mental de jovens e crianças. Os documentos mostram que os próprios pesquisadores e engenheiros da empresa sabem que a eficácia apresentada ao público sobre o sistema algorítmico da empresa no enfrentamento e derrubada desse tipo de conteúdo e contas também é falsa.”

Outra discussão recorrente na mídia é sobre a tendência de privilegiar conteúdos incitadores de violência. O que as pesquisas mostraram sobre isso?

Um relatório interno da Meta, empresa formada pelo Facebook, WhatsApp e Instagram, intitulado "A Viagem de Carol ao QAnon", ilustra como os sistemas de recomendação do Facebook podem conduzir os usuários a conteúdos extremistas. Os pesquisadores da empresa criaram uma conta fictícia e, em apenas dois dias, o Facebook recomendou que ela se juntasse a grupos dedicados ao QAnon. Em uma semana, o feed dessa conta estava repleto de grupos e páginas que violavam as próprias regras da plataforma contra discurso de ódio e desinformação.

Mesmo diante de todas essas informações, em abril de 2020, a direção do Facebook, incluindo Mark Zuckerberg, foi apresentada com uma lista de “intervenções suaves e duras” para reduzir a disseminação de conteúdos nocivos. Uma intervenção “dura” teria sido remover o “Meaningful Social Interactions” (MSI) dos sistemas de recomendação da plataforma. Porém, o CEO da empresa decidiu manter o MSI, expondo os usuários a conteúdos nocivos. Alexandre Gonzales explica que a decisão da plataforma é meramente comercial, visando aumentar o engajamento e fluxo de conteúdo, para aumentar o lucro da empresa.

O pesquisador revela ainda que a Meta declarou que não adota nenhuma métrica específica para mensurar o sucesso de seus esforços de integridade eleitoral em geral, apenas fornece dados sobre remoções de conteúdo, visualizações e cliques em rótulos eleitorais. A solução para o problema dos vieses algorítmicos começa pela regulação das plataformas digitais.

"A regulação hoje é o primeiro passo importante para avançar e ter uma compreensão no debate público do real funcionamento dessas plataformas na moderação de conteúdo e sua relação com produtores e grupos econômicos que têm grande faixa de renda e atuação. Isso deve ser feito através de mecanismos de transparência e exigência de apresentação de relatórios mais detalhados e mais granulados do processo de tomada de decisão que essas empresas fazem."

 Esse tem sido um tema recorrente na Câmara, exceto por meio de propostas de regulação, como o PL 2630 de 2020 e outros projetos examinados em conjunto.

A esperança dos especialistas e técnicos atentos à desinformação, aos crimes digitais e ao discurso de ódio nas redes, que afetam inclusive crianças e adolescente, é que o debate sobre a regulação seja retomado com brevidade. Seja a partir do próprio PL 2630 ou usando-o como base para um novo projeto. A demora representa uma ameaça para a infância, para as famílias, para as instituições e para a democracia brasileira.

Dê a sua opinião nas mídias digitais da Rádio Câmara e no Youtube da Câmara dos Deputados. Você também pode enviar a sua sugestão de tema, crítica ou sugestão para o WhatsApp da Rádio Câmara (61) 99978-9080 ou para o e-mail papodefuturo@camara.leg.br.

Comentário – Beth Veloso
Apresentação – Cláudio Ferreira

Coluna semanal sobre as novas tendências e desafios na comunicação no Brasil e no mundo, da telefonia até a internet, e como isso pode mudar a sua vida.

Terça-feira, às 8h. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.