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Eleição interna pode agravar crise no Partido dos Trabalhadores

11/07/2005 - 07h00

Na última semana, na primeira reportagem sobre a repercussão da crise que o Partido dos Trabalhadores enfrenta, em função das denúncias de irregularidades e corrupção, falou-se sobre o patrimônio ético do partido que está sendo colocado em xeque, não apenas pela sociedade, mas também por seus militantes.

Essa situação de crise pode se agravar. Nos próximos dois meses, o PT terá não apenas que se justificar à opinião pública, mas também se explicar internamente às correntes políticas e de opinião que estão abrigadas dentro do partido. É que em 18 de setembro acontece o primeiro turno do processo de eleições gerais internas do PT em todo o país.

Nesse processo de renovação política, o partido poderá se fragilizar ainda mais, pois tudo indica que haverá um forte embate entre grupos de posições ideológicas diversas. E no resultado do pleito de setembro se avaliará qual o nível de descontentamento da base em relação à cúpula do partido.

O deputado Chico Alencar, do Rio de Janeiro, da esquerda do partido, entende que as denúncias de irregularidades na cúpula do PT podem mudar as perspectivas eleitorais para a direção da legenda.

Sonora:
"Até antes desse vendaval de denúncias que nos abalam tanto, o Campo Majoritário era amplamente favorito. O então candidato José Genoíno tinha amplas chances de ser reeleito, e nós teríamos os históricos 30 a 35 por cento de composição no diretório nacional. Agora há uma rearrumação de peças".

Já o deputado Ricardo Berzoini, secretário-geral do PT, defende que o processo eleitoral poderá fortalecer o partido.

"Muitos ponderam que o partido deva adiar o processo eleitoral em função dessa crise. Eu acredito que não é preciso fazer isso. Nós temos o movimento eleitoral como forma de mobilização partidária. É óbvio que nesse momento as questões dos procedimentos da tesouraria do partido serão ponto de pauta dessas eleições e haverá críticas, reflexões e avaliações."

As eleições são gerais, incluindo a disputa pela presidência do partido. São dez chapas concorrendo para os cargos do Diretório Nacional e sete candidatos à presidência do PT, quatro deles identificados com a esquerda, que rejeita a política econômica do governo Lula e a política de alianças com partidos de centro e de direita.

Sobre essa disputa interna, que envolverá petistas de todo o país, há quem aposte num pacto interno em torno de um acordo entre as várias tendências do partido, como o professor de Filosofia e Ética da Unicamp, Roberto Romano.

"Me parece que a única maneira de se restabelecer o equilíbrio no interior do PT é uma ampla concertação interna. Me parece que o presidente Tarso Genro está pensando nisso, pensando em retomar o diálogo com as várias tendências e definir padrões para a nova ação da cúpula. Eu acho esse um bom caminho para restabelecer o que é tradicional dentro do Partido dos Trabalhadores"

Há também aqueles que acreditam que a onda de denúncias levará a rupturas definitivas. Uma dessas fraturas já atingiu o PT. No último sábado, a Corrente Alternativa Socialista decidiu desligar-se do Partido dos Trabalhadores e ingressar no PSOL, partido ainda sem registro definitvo que foi formado com saída de três deputados e de uma senadora, expulsos do PT por desafiarem a cúpula.

O ex-deputado federal, Airton Soares, um dos fundadores do PT, expulso do partido em 1984, por ter decidido com outros dois parlamentares petistas votar no Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves, acredita numa refundação do partido com a consolidação da ala majoritária e a saída das esquerdas.

"Deverá haver uma consolidação interna da ala majoritária do partido e espera-se que aqueles que têm outra visão política, que vão organizar suas próprias tendências. O que não pode é deixar dentro do PT uma tendência ideológica disputando espaço e procurando imprimir a sua linha de orientação. O partido não tem essa definição ideológica que querem esses grupos. É muito confortável para esses grupos participarem das eleições protegidos na liderança carismática de Lula. Isso é uma posição oportunista. Eu agora vejo com muita clareza que a senadora Heloísa (Helena) com seu grupo estão no caminho certo. E devem servir de exemplo para os demais grupos que no partido se digladiam".

Na divisão de forças do PT, a esquerda é minoria. Seus partidários defendem o distanciamento entre partido e Governo e o resgate ético. A esquerda entende que o crescimento eleitoral do PT se deve às bandeiras éticas que defendeu.

Por outro lado, os grupos que compõem o campo majoritário, como a tendência Articulação, do deputado José Dirceu, não desmerecem o passado do partido, mas entendem que há uma distância enorme entre o discurso partidário e a prática na política nacional.

O campo majoritário defende a política de alianças com o centro e a direita para sustentar a chamada governabilidade. A sustentação no poder, no entanto, trouxe um fato inconveniente: a velha aritmética de interesses do poder.

Os petistas do campo majoritário dominam a cúpula e a máquina burocrática do partido, além de ocupar inúmeros cargos de direção no Governo. Eles entendem que por deter a maioria dos militantes podem exercer seu direito de determinar regras. A esquerda pode expor seu pensamento, debatê-lo, mas deve aceitar o que determina a maioria, como diz o deputado Ricardo Berzoini.

"Não há nenhuma razão de supor que no PT não há democracia. Existe maioria e minoria. Eu já fui minoritário dentro do PT e respeitei a maioria. Acredito que é importante que o partido saiba pensar em conjunto, mas quando necessário saiba expressar a vontade da maioria, que é o princípio fundamental da democracia, o que também se reflete no Congresso Nacional. Quem tem a maioria consegue aprovar seus projetos e sua concepção de sociedade. Quem não tem, luta para ter".

É preciso notar que o Partido dos Trabalhadores já não é o mesmo dos anos 80 e início dos anos 90. O partido cresceu e multiplicou-se ao alcançar o poder. Tornou-se mais atrativo eleitoralmente. Moderados ganham cada vez mais espaço no partido, enquanto que militantes de esquerda perdem força. Muitos deles acabaram deixando o PT, como o deputado Fernando Gabeira, além de outros intelectuais do partido.

Nos dois anos após o presidente Lula ter sido eleito, o registro de filiados mais do que dobrou, passando de 410 mil para 840 mil. Um dos expoentes dessa nova safra, dos que são chamados de neopetistas, é o senador Delcídio Amaral, presidente da CPI dos Correios, que antes era filiado ao PSDB.

Com o pedido de licença da cúpula anterior do PT e do seu ex-presidente José Genoíno, que era candidato à reeleição, a direção provisória comandada pelo ex-ministro da Educação, Tarso Genro, assume para fazer a transição. Tarso Genro, que é do campo majoritário, mas tem uma postura crítica em relação ao relacionamento entre partido e governo, já afirmou que o modelo anterior do partido está esgotado e que dará início a uma nova etapa na história do PT. Ele ainda não definiu se concorrerá às eleições no partido.

O deputado Ricardo Berzoini fala sobre esse trabalho de resgate que está sendo realizado no PT.

"Primeiro, gerenciar as atividades partidárias e a imagem do partido nesse período de crise. Nós queremos deixar claro que a instituição partidária não tem nenhuma vinculação com as atitudes de dirigentes que possam ter extapolado de seu mandato. Em segundo lugar, regularizar a situação financeira do PT, que é muito grave. Nós temos uma dívida acumulada de 39 milhões de reais. Estamos buscando regularizar esse processo dentro das possiblidades do partido. Já estamos conversando com os credores no sentido de estabelecer um quadro de prioridades e de renegociação de prazos e valores. Em terceiro lugar, manter e garantir o processo eleitoral direto, que será no dia 18 de setembro, quando teremos a renovação de toda direção partidária, nacional, municipal e estadual. E teremos uma revitalização do partido para enfrentar essa disputa política dentro das investigações e também preparar o PT para a disputa eleitoral de 2006".

O deputado Orlando Fantazzini, da ala de esquerda do PT, não acredita em muitas dessas mudanças prometidas.

"A mudança de Tarso Genro e outros membros da Executiva do partido significa manter a política do campo majoritário. Essa política de amplas alianças, de o partido ter que ser submisso ao Governo, de ser correia de transmissão. Então o partido em si não vai avançar em mudanças de política. Nós esperamos que ao menos haja uma depuração interna, para que pessoas que estão envolvidas sejam investigadas e penalizadas. Mas no campo político não vai mudar. Até porque o campo majoritário vai continuar usando o mesmo método de impor sua vontade, como se a maioria fosse sinônimo de democracia ".

O deputado Fantazzini explica a razão de não acreditar em mudanças no PT e faz um prognóstico para as eleições de setembro.

"Acho que o campo majoritário tinha que ter a sensibilidade de fazer um debate político de como conduzir o PT para novos rumos, que pudesse se recuperar frente aos episódios. Mas sequer debate houve. O campo majoritário já veio com o o receituário pronto. E sem discussão política dificilmente você consegue implementar mudanças. Mais uma vez pela força da maioria, para fazer as mudanças que eles acham que são importantes. E precisam do campo de esquerda para dar legitimidade a esse processo que não é democrático. Se o campo majoritário não atuar de forma a ter uma vitória meramente eleitoral e for uma disputa no campo político, de construção, de resgate, a esquerda tem todas as condições. Se for apenas mais uma disputa eleitoral, o campo majoritário vai se sair vitorioso".

Serão dois duros meses até a eleição interna do PT. O mês de agosto costuma registrar dramas políticos na história brasileira e setembro é o mês das campanhas salariais das principais categorias trabalhadoras do país. Serão meses difíceis e que podem ampliar a crise já instalada no Partido dos Trabalhadores.

De Brasília, Eduardo Tramarim.

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