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A Transição Democrática - ( 04' 55" )
15/03/2005 - 00h00
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A Transição Democrática - ( 04' 55" )
A volta das eleições de governadores e senadores em 1982 reacendeu a fome do voto democrático no povo brasileiro. Nos dois anos seguintes, multidões saíram às ruas pedindo pelo retorno das eleições diretas para presidente da República.
A Constituição do Regime Militar impedia a eleição direta para presidente e as elites do país não se esforçavam para romper com a tese dos militares: a de realizar uma transição lenta e gradual.
Analisando aquele momento político histórico, o diretor-geral-adjunto do Senado, Luis Alexandre Gazineo, diz que o espírito da transição foi definido por um grupo de políticos que chegou ao poder.
"A tônica que acabou sendo dada pelos políticos foi de uma transição tranqüila. Eu lembro de uma frase emblemática do Sarney. Transição sim, mas sem riscos".
Frente ao anseio popular, o deputado Dante de Oliveira, do PMDB do Mato Grosso, apresenta ao Congresso Nacional em janeiro de 1983 a Proposta de Emenda à Constituição que pretende restabelecer as eleições diretas para a Presidência da República.
Um ano e três meses depois, em abril de 1984, a Emenda Dante de Oliveira não passa na Câmara ao receber 298 votos. Vinte e dois a menos que o necessário para atingir a maioria de dois terços,
A Mesa da Câmara assim se manifestou sobre o resultado:
"Sim, 298. Não 65. Abstenção 3. Os votos favoráveis embora majoritários não alcançaram o quórum constitucional necessário à aprovação da matéria. A proposta foi rejeitada pela Câmara. Deixa assim de ser submetida ao Senado".
As regras da eleição presidencial de 15 de janeiro de 1985 não puderam ser modificadas mas a demonstração de força dos comícios gigantescos e atos públicos da campanha pelas Diretas-Já, o maior movimento cívico da República brasileira, deu suporte à oposição nas negociações de bastidores no Congresso.
Em junho de 1984, nove governadores do PMDB e Leonel Brizola, do PDT, lançam a candidatura de Tancredo Neves à presidente da República., para concorrer no colégio eleitoral, contra Paulo Maluf.
Os comícios pelas diretas continuavam nas principais capitais, mesmo com a derrota da Emenda das diretas. A pressão da sociedade civil dava o capital necessário para consolidar a vitória de Tancredo Neves.
O presidente voltaria a ser civil. Fosse através do governista Paulo Maluf ou do candidato de oposição Tancredo Neves. Um racha no partido governista, o PDS, cria o Movimento da Frente Liberal, que liderado por Marco Maciel e José Sarney fecha com o candidato de oposição.
A opção por Tancredo Neves pela Frente Liberal, dissidência do PDS, seguia os anseios populares, diz o deputado Mauro Benevides.
"Foi uma articulação muito bem urdida.e teve o respaldo dos governadores do partido, principalmente os governadores do Nordeste, que entenderam que a solução Tancredo Neves é aquela que mais se ajustava aos nossos anseios de redemocratização".
Em 15 de janeiro de 1985, por 480 votos a 180, Tancredo vence Maluf no Colégio Eleitoral e é o primeiro civil eleito presidente do Brasil, após vinte anos de ditadura militar.
No mesmo dia, no Congresso Nacional, Tancredo faz seu discurso de vencedor.
"Brasileiros. Essa memorável campanha confirmou a inabalável fé que tenho em nosso povo. Nunca em nossa história tivemos tanta gente nas ruas para reclamar a recuperação dos direitos de cidadania. A nação cansada do arbítrio não admitia mais as manobras que impediam o retorno das liberdades democráticas. Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos nas praças públicas. Com a mesma emoção, A mesma dignidade e a mesma emoção. Se todos quisermos, dizia a quase duzentos anos Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança. Poderemos fazer desse país uma grande nação. Vamos fazê-la."
Embora vitorioso, Tancredo Neves jamais tomaria posse como presidente. Hospitalizado à véspera da posse, vem a falecer em 21 de abril de 1985.
De Brasília, Eduardo Tramarim.