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Dez anos da moeda Real

01/07/2004 - 00h00

Há exatos 10 anos - em 1o. de julho de 94 - começava a entrar em circulação o Real, a moeda que trazia a esperança de estabilidade para a economia brasileira. O ano de 93 tinha terminado com uma inflação de 2.477%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo do IBGE. A remarcação de preços ocorria em alta velocidade e a população não sabia qual o valor justo de cada produto. A bancária aposentada Áurea Sepúlveda lembra que a classe média só conseguia se proteger da rápida correção de preços porque fazia aplicações no overnight. Já a população mais pobre sofria com a corrosão dos salários.

Sonora: "...pra classe média era uma situação muito boa, porque a gente mal recebia o salário e já aplicava. E com essa aplicação no over, você já conseguia pagar uma conta de gás, de luz... Então, era uma situação muito cômoda porque você vivia dos juros da aplicação. Agora, por outro lado, para as pessoas que viviam com salário muito menor, por exemplo nossas empregadas domésticas, era muito mais difícil porque elas não tinham essa disponibilidade de fazer essas aplicações. E nós tínhamos dois grandes inimigos: eram o supermercados e as farmácias, com aquelas maquininhas de remarcação, porque eram tantas etiquetas que, às vezes, tinham três ou quatro, uma em cima da outra. Então, eles tinham que correr para comprar seus alimentos e remédios, senão o dinheiro não dava, porque era todo dia mudança de preços".

O dragão da inflação freqüentava as capas das revistas semanais e parecia cada vez mais forte depois do fracasso do congelamento de preços do Plano Cruzado e do confisco das poupanças do Plano Collor. Em março de 94, o governo criou a Unidade Real de Valor, a URV, que passou a conviver com a moeda da época, o Cruzeiro Real. Pouco a pouco, a URV passou a ser a referência para contratos, salários e benefícios da Previdência, até que os brasileiros se acostumassem com uma maior estabilidade.
Só então, o Real entrou em circulação. A população mais pobre, justamente aquela que não conseguia aplicar o dinheiro para se proteger da hiperinflação, sentiu no bolso o aumento do poder de compra num primeiro momento. Produtos como iogurte e frango, considerados supérfluos pelas pessoas de baixa renda, entraram no carrinho do supermercado. O economista Roberto Padovani, da Consultoria Tendências, explica esse fenômeno, mas lamenta que o Real não tenha conseguido manter a renda das pessoas.

Sonora: "...uma característica típica dos programas de estabilização é que, assim que eles são implementados, há um aumento de renda real muito grande. A inflação cai de maneira súbita e isso faz com que o poder aquisitivo dos trabalhadores aumente rapidamente. A situação, no entanto, foi se normalizando. Esse ganho rápido, real, de renda, foi sendo neutralizado pela queda do nível de ocupação, pela taxa de desemprego elevada."

Apesar do controle da inflação trazido pelo Real, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do IBGE, já acumula uma alta de 167%, de julho de 94 até maio deste ano. A queda na renda do trabalhador, só de 98 até hoje, foi superior a 15%, segundo o Dieese. Já a cesta básica, também de acordo com o Dieese, subiu 97% em 10 anos e o desemprego na região metropolitana de São Paulo saltou de 14,2% da população economicamente ativa, em 94, para 19,9%, em 2003. Segundo o economista Roberto Padovani, é possível recuperar a renda da população e retomar o crescimento da economia, com geração de empregos, mesmo com o aperto nos gastos públicos necessário para manter a relativa estabilidade conquistada com o Plano Real. Para o economista Roberto Padovani, atrair investimentos do setor privado é a saída para que isso aconteça, e o Congresso tem papel central nessa tarefa.

Sonora: "...o papel do Congresso é decisivo e tem sido decisivo nos últimos anos. Ele tem caminhado na direção de reformas importantíssimas pro país. Fez reforma fiscal, com a Lei de Responsabilidade Fiscal. E agora caminha numa agenda da melhoria da questão regulatória. Avançando na questão da Lei de Falências, das PPPs, há um projeto de agências reguladoras, discute um projeto de regulação do setor de energia elétrica, de construção civil, a autonomia do Banco Central... São vários projetos em pauta que estão sendo discutidos e formam agenda extremamente importante para confiança no investidor privado e atrair capital".

Na avaliação do cientista político Luciano Dias, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos, se o governo do PT não reverter o quadro de baixo crescimento e altos índices de desemprego, terá dificuldades para se reeleger em 2006. Ele lembra que o cenário econômico foi decisivo para o desempenho de um dos pais do real, o ex-presidente Fernando Henrique, tanto na reeleição, em 98, como na derrota para Lula em 2002.

Sonora: "...o Presidente foi poupado de uma crise mais grave em 98, mas ela veio em 99 com a desvalorização, com aumento de endividamento público e da carga tributária e, portanto, do desemprego e da falta de crescimento. Então, na verdade, é um mesmo ciclo político, que envolve um momento de ascensão, elaboração e vitória da estabilização e de incapacidade de oferecer crescimento e emprego à sociedade brasileira. Num momento foi premiado com a reeleição e no segundo momento foi punido com a derrota eleitoral".

Segundo a última pesquisa CNI/Ibope, a preocupação dos brasileiros com a volta da inflação vem crescendo. A porcentagem de brasileiros que acreditam na volta da alta dos preços saltou de 46% em março, para 54% em junho. Enquanto isso, a popularidade de Lula está em queda. A avaliação positiva do Presidente caiu de 34%, em março, para 29% em junho.

De Brasília, Alexandre Pôrto.

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