Reportagem Especial
HIV/Aids - Capítulo 4
16/09/2019 - 07h40
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Capítulo 4: Vivendo com a Aids
Dados do final de 2017 mostram que, no mundo inteiro, havia 36 milhões e 900 mil pessoas vivendo com HIV: 35 milhões de adultos e 1 milhão e 800 mil pessoas com menos de 15 anos. A qualidade de vida de quem tem o vírus varia de país para país. Quem explica é Cleiton Euzébio, diretor interino do Unaids Brasil.
"O número de pessoas que sabe que tem HIV ou que se estima que vivem com HIV e que tem acesso ao tratamento vai ser maior nos países em desenvolvimento, especialmente naqueles que dependem de recursos internacionais para garantir o tratamento"
Unaids é o programa das Nações Unidas para combater a epidemia de HIV/Aids. A ação da ONU divide os países do mundo em duas categorias quando se fala em HIV Aids. Um grupo é o que tem a epidemia generalizada, como os países da África, onde um dos desafios principais é o acesso dos jovens aos métodos de prevenção. Nesses lugares, mulheres jovens são um dos grupos mais afetados.
O outro grupo é o de países onde a epidemia é concentrada, como o Brasil. Neles, o vírus HIV afeta grupos específicos e o trabalho é garantir o acesso dessas populações-chave, que às vezes já são marginalizadas em termos de saúde pública, à prevenção, aos testes e ao diagnóstico do HIV.
O programa brasileiro de HIV Aids é tido internacionalmente como referência. A lei que garante o tratamento no Sistema Único de Saúde desde 1996 até hoje não existe em muitos países. A profilaxia pré-exposição ao vírus, iniciada em 2017, já atende 8 mil pessoas. Globalmente, o Unaids assumiu 10 compromissos para acabar com a epidemia de HIV Aids no mundo até 2030. O diretor interino do programa no Brasil, Cleiton Euzébio, resume essas metas.
"Colocar as pessoas em tratamento, compromissos pra prevenção combinada, para que ela seja acessível a todas as pessoas; eliminação da transmissão vertical, que é de mãe pra filho; também compromissos relacionados ao orçamento, que os países invistam na epidemia, na resposta à epidemia; relacionados à lei, que os países busquem derrubar leis que são discriminatórias, também um compromisso sobre igualdade de gênero".
Outro desses compromissos assumidos pelo Unaids é colocar, até 2030, 30 milhões de pessoas em tratamento. Atualmente, são 22 milhões atendidos pelo sistema de saúde. Mas em muitos países da África, por exemplo, gays, trabalhadoras do sexo e pessoas que usam drogas sabem que têm o vírus HIV, mas não contam com acesso ao tratamento e o número de infecções acaba aumentando.
Em muitos países, poder público e sociedade civil se complementam na tarefa de acolher as pessoas infectadas pelo vírus HIV. No Brasil, não é diferente. Uma entidade atuante desde 1990 é o Grupo de Incentivo à Vida, de São Paulo. As atividades começaram em um ambulatório, como um grupo informal de ajuda a quem tinha o diagnóstico positivo para o vírus, em um período em que o tratamento ainda não existia. Com o tempo, elas se diversificaram.
Claudio Pereira, diretor do GIV, explica como é o trabalho atualmente.
"Hoje a gente trabalha com questões relacionadas a direitos das pessoas vivendo, e também direitos das pessoas mais vulneráveis contra a infecção pelo HIV, direitos reprodutivos, questões relacionadas a pesquisas anti HIV, a gente tem o suporte jurídico, de assistência social e psicológica também".
O grupo sobrevive propondo projetos para os governos federal, estadual e municipal. Participa de editais e recebe recursos para disseminar informações sobre HIV Aids. Os integrantes também fazem palestras para empresas, que custeiam outras palestras em lugares mais carentes. O grupo faz parte do Fórum das ONGs, que se reúne mensalmente para discutir questões políticas, financiamento, avanços e retrocessos na prevenção e no tratamento do HIV.
A atuação do GIV é basicamente em São Paulo, mas os integrantes já desenvolveram projetos até no Japão, onde foram levar informação sobre HIV Aids para a população brasileira e latino-americana de origem hispânica que vive no país. Claudio Pereira reconhece os avanços que os novos medicamentos trouxeram para o tratamento das pessoas vivendo com o HIV, mas recorre a dados do Ministério da Saúde para mostrar que ainda há muita gente sem acesso ao tratamento.
"12 mil pessoas morrem no país por ano; quer dizer que parte dessas pessoas de alguma maneira não tem acesso a esse tratamento, quer seja por desconhecimento, quer seja pelo preconceito, pelo estigma".
A Arquidiocese de Belo Horizonte mantém no bairro de São Cristóvão, região Noroeste da capital mineira, a Casa de Apoio à Saúde Nossa Senhora da Conceição. É uma moradia temporária, com 30 vagas para pessoas que vivem com HIV e 20 vagas para quem teve alta hospitalar recentemente. Os moradores de rua são os beneficiários principais deste abrigo.
A assistente social Christiane de Andrade explica que, na casa, os moradores têm cama, comida e participam de atividades sócio-assistenciais. Ela fala sobre os objetivos da instituição.
"Promoção de cuidados à saúde e adesão ao tratamento, conforme a proposta terapêutica individual, de cada um deles, o fortalecimento de laços sociais e familiares e a reinserção social".
Christiane conta que muitos moradores de rua que têm HIV chegam ao abrigo sem documentos. 95 por cento deles não têm nenhuma relação familiar consistente.
A instituição ajuda na burocracia para que eles consigam suportes financeiros como o Bolsa Família e o BPC, Benefício da Prestação Continuada. O Sine, Sistema Nacional de Emprego, envia por e mail os postos de trabalho disponíveis e os moradores temporários são encaminhados para os possíveis empregos de acordo com a demanda. Também há o encaminhamento para escolas e cursos profissionalizantes.
A assistente social Christiane Andrade relata um ponto positivo desta junção entre poder público e sociedade civil, que garante ao público-alvo da casa o acesso a medicamentos.
"Todo portador do vírus HIV, ele já é inserido em uma unidade, ou seja, em um hospital referenciado, onde ele faz o acompanhamento. Então lá mesmo ele tem acesso gratuitamente a todas as medicações, que seria o famoso 'coquetel'. Essas medicações, eles têm esse amparo assim 100 por cento".
A Casa de Apoio à Saúde Nossa Senhora da Conceição é a única instituição de Belo Horizonte que acolhe pessoas vivendo com HIV. Em outras cidades de Minas Gerais, há iniciativas semelhantes em Juiz de Fora, Uberlândia e Araxá.
Trabalhos técnicos – Tony Ribeiro
Produção – João Paulo Florêncio
Edição e Reportagem – Cláudio Ferreira