Rádio Câmara

Reportagem Especial

Crise hídrica: falta d’água chega ao Sudeste; como tudo começou?

Reprodução/TV Câmara
VT crise água
Crise hídrica: cientistas ainda se dividem sobre a causa do problema

O Brasil detém 12% de toda a água doce do planeta e abriga grandes bacias hidrográficas, como as dos rios São Francisco, Paraná e Amazonas, a maior do mundo. No entanto, o grande volume das águas está concentrado na região Norte, exatamente a menos habitada. Já o semiárido e o sertão nordestino sempre estiveram associados aos cenários tórridos da seca que castigam a população.

Nos últimos anos, alterações no regime de chuva levaram as regiões mais populosas do Brasil, sobretudo o Sudeste, a também conviver com o drama da seca. Os cientistas ainda se dividem entre os que atribuem essas alterações à variabilidade climática de caráter cíclico, ou seja, que acontece naturalmente em décadas ou até em séculos; ou às chamadas "mudanças climáticas" influenciadas pela ação predatória do homem sobre o planeta, gerando o aquecimento global.

No entanto, não há dúvidas quanto aos efeitos negativos do desmatamento, da ocupação desordenada das cidades, da poluição dos rios e da falta de planejamento hídrico no país. Em São Paulo, por exemplo, a chuva até que apareceu com força no início do ano, mas caiu longe dos reservatórios: desabou em cima da cidade impermeabilizada pelo asfalto e pelo concreto dos arranha-céus.

Professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Brasília (UnB), Demétrius Christofidis critica a atual gerência dos sistemas de armazenamento de água pela falta de planejamento de médio e longo prazo. Segundo Christofidis, o quadro hoje é de crise, e grave:


"Esses projetos foram feitos há muitos anos e são projetos de sistemas de armazenamento plurianuais, baseados em médias históricas de observações. Mas, o que se vê hoje é que, nos últimos anos, houve precipitação abaixo da média. A situação atual já passou da fase de sinal amarelo e estamos em posição de vermelho. Na fase que antecede o sinal amarelo, já deveriam ter feito estudos revisando essa situação".

A passagem desse sinal amarelo para o vermelho vem sendo acompanhada pela nossa reportagem. Relembre alguns casos:

"2014 vai entrar para a história como ano dos extremos: muito calor e seca no Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste; no Norte, chuvas e enchentes. E para 2015, a previsão não é de melhora".

A seca atingiu até a principal nascente do "Velho Chico", o "rio da integração nacional", conforme constatado, no segundo semestre de 2014, pelo diretor do Parque Nacional da Serra da Canastra, Luiz Castanheira, lá em São Roque de Minas, no sudoeste mineiro:

"Devido à seca na nascente do rio São Francisco, aqui dentro do parque nacional, a água parou de correr em vários pontos. Então, a nascente, este campo hidromórfico que tem lá, está seco. Mas tem outra parte do rio que continua correndo e está normal. As pessoas ficaram admiradas porque, neste ano (2014), a seca está mais intensa e parou de correr água em uma área em que normalmente corre o ano inteiro. Agora, é esperar chover".

E o racionamento de água no estado mais rico do país: existe ou não? Com a palavra o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin:


"O racionamento já existe. Quando a ANA determina que você tem de reduzir de 33 para 17 (metros cúbicos por segundo) no (sistema) Cantareira, é óbvio que você já está em restrição. Na realidade, nós já temos a restrição de água estabelecida pela ANA."

Vânia Alves, Brasil em Debate: "O país atravessa a pior seca dos últimos 70 ou 80 anos. Isso desencadeou situações críticas, como a do estado de São Paulo, que, mesmo com o tímido início da estação das águas, assiste ao risco de ver uma região metropolitana de 20 milhões de pessoas ficar à míngua. As más notícias também afetam a produção nacional de energia, baseada majoritariamente em produção hidrelétrica.”

Noeli Nobre, reportagem: "Dados da ANA, a Agência Nacional de Águas, indicam que 55% dos municípios brasileiros podem sofrer déficit de abastecimento até 2015.”

Os reflexos também atingiram o brasileiro na pele, devido ao calor intenso com recorde de temperaturas elevadas, e no bolso, com reajustes nas contas de água e luz.

Água é assunto recorrente nas propostas legislativas. Em 1997, o Congresso Nacional aprovou a mais importante de todas elas: a chamada Lei das Águas (Lei 9.433/97), que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos.

A atual crise é discutida na Câmara dos Deputados por meio de audiências públicas com especialistas em várias comissões temáticas. Novos projetos de lei também têm sido apresentados pelos deputados. Além disso, desde 2011, a Câmara, em parceria com a Agência Nacional de Águas, desenvolve a campanha "Água é vida":

"Água é vida e vida não se desperdiça. Alguns estados brasileiros correm risco de desabastecimento temporário em períodos excessivamente secos. Para evitar ou reduzir os efeitos da seca, a Lei das Águas confere ao abastecimento humano prioridade máxima em comparação, por exemplo, com os usos agrícolas e industriais. Entre nesta corrente, participe. Uma campanha da Câmara dos Deputados e Agência Nacional de Águas."

Confira, no segundo capítulo da reportagem, as soluções apresentadas por especialistas ouvidos nas audiências públicas da câmara.

Reportagem – José Carlos Oliveira Edição – Mauro Ceccherini Trabalhos técnicos – Marinho Magalhães
  • Crise hídrica: falta d’água chega ao Sudeste; como tudo começou? (bloco 1)

  • Crise hídrica: especialistas apresentam soluções (bloco 2)

  • Crise hídrica: leis e propostas legislativas ajudam a enfrentar o problema (bloco 3)

  • Crise hídrica: o dever de cada um frente ao problema (bloco 4)

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h