Reportagem Especial
Os mitos relacionados à saúde: Uma questão de fé (06'31'')
25/07/2011 - 00h00
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Os mitos relacionados à saúde: Uma questão de fé (06'31'')
A psicóloga e psicanalista Sandra Regina da Luz Inácio afirma que o cérebro é o grande responsável pela manutenção dos mitos. Em seu trabalho ela já se deparou com situações em que a crença era tão arraigada que o problema era resolvido. Segundo ela, esse mecanismo funciona em qualquer área da vida.
"Nós temos placebo na vida não só em remédios, alimentos e outras coisa mais, nós temos em relação a tudo. Se um filho sai para um baile a primeira coisa que pensa ´aconteceu alguma coisa!´. O coração despara, você passa mal, surgem sintomas. Por que? O cérebro age conforme sua crença. A mesma coisa se você pensar em coisas boas. Ele vai soltar as substâncais exatas daquela sensação. Por que? Para ele não existe verdade ou mentira."
O médico e escritor Fernando Lucchese confirma o que diz a psicanalista. E diz que uma crença arraigada pode dar até uma indigestão.
"Tem gente que diz ´não posso comer melancia com uva´ e aí fica com diarréia. Eu já vi pessoas que levam tão a sério isso que sempre que misturam esses dois alimentos têm diarréia. Isso é muito pessoal, tem pessoas suscetíveis à informação e ele passa a somatizar o que ele ouve."
A moral religiosa e familiar é responsável pelo mito de que masturbação dá espinha. A especialista e mestre em dermatologista Gladys Martins acha graça com a história.
"Masturbação não provoca espinha em ninguém, não dá acne em ninguém. Esse mito deve ter surgido porque a maioria das pessoas que confessadamente se masturba são adolescentes, uma época da vida em que as pessoas têm acne. Oitenta por cento dos adolescentes tem acne."
E sobre a crença de que a lua influencia no crescimento dos cabelos ela tem uma resposta definitiva.
"Não existe nenhum respaldo científico, mas nós vemos que as pessoas mais místicas ou voltadas para terapias naturais costumam até aconselhar os outros a cortar o cabelo numa determinada fase da lua para evitar quedas ou melhorar o ritmo de crescimento. Não tem respaldo científico, não tem nenhuma confirmação."
A odontologista cearense Sharmênia de Araújo descobriu, em sua pesquisa na cidade de Beberibe, no Ceará, que a religião e o misticismo influenciam o tratamento dentário. Uma figura tradicional no interior do Brasil é usada ainda para conseguir curas.
"É a rezadeira, uma figura que eu também entrevistei, que tem a reza para dor de dente, a santa da dor de dente onde a pessoa coloca o produto ou procura uma rezadeira para aliviar aquela dor."
A Bíblia traz preceitos que são seguidos pela população, que às vezes respeita sem saber a origem. A restrição ao consumo do porco é um dos mais comuns, como explica o antropólogo Raymundo Heraldo.
"É um sistema que tem uma certa semelhança com o que está prescrito na Bíblia, no Levítico e Deuteronômio. Lá se fala em alimentos impuros, aqui se fala em alimentos reimosos. E há uma coincidência muito grande entre o que está previsto na Bíblia e o que está sendo evitado aqui na Amazônia por essa razão."
Como se percebe, na área da saúde a influência religiosa é bastante perceptível, tanto na restrição a alimentos quanto à indicação para a cura ou para algum tipo de tratamento.
A pesquisadora Sharmênia afirma algo curioso. Muitas vezes o paciente não busca a cura, mas sim acalmar uma situação de desespero.
"Se eu acredito naquele santo, se eu acredito naquela reza, se eu acredito naquela pessoa e de alguma forma ela me acalma, ela faz com quem eu tenha controle maior sobre minha dor, sobre minha doença. Então termina de alguma forma funcionando psicologicamente."
A situação de desespero pode piorar, dependendo do que o paciente usa para aliviar uma dor. Sharmênia cita alguns absurdos.
"Eu tenho uma lista de mais de vinte produtos diferentes, de óleo de bateria, de perfume, de plantas medicinais."
A informação é responsável às vezes pela desinformação. Uma verdade dita de forma truncada faz com que a pessoa acredite no que não é verdade. Um exemplo são as propagandas sobre enxaguatórios bucais, os bochechos.
A publicidade dá a entender que ele é para uso comum, quando na verdade é indicado apenas para casos específicos e não garante, por si só, uma boa higiene bucal.
De Brasília, Luiz Cláudio Canuto