Reportagem Especial
Os mitos relacionados à saúde: A origem (07'00'')
25/07/2011 - 00h00
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Os mitos relacionados à saúde: A origem (07'00'')
Comer manga e tomar leite não mata, do contrário muita gente teria morrido e não existiria a vitamina de manga, que é muito gostosa. Chocolate não dá espinha...ou dá? Tem gente que diz que sim, tem gente que diz que muito pelo contrário...
Afinal, onde está a verdade? Abacaxi emagrece? Margarina faz menos mal que manteiga? Beber cerveja dá barriga? O que é mito e o que é verdade? Por que tantos mitos são desmentidos e mesmo assim permanecem no imaginário?
Mitos são representações de fatos ou personagens exagerados pela imaginação das pessoas ou pela tradição. Esse tipo de crendice surge em todos os lugares do mundo e muitas vezes estão ligados à religião ou a culturas regionais.
E mesmo com o desenvolvimento da ciência e o acesso cada vez mais crescente à informação, os mitos sobrevivem. Curiosamente muitas vezes a pessoa nem acredita, mas absorve a lenda e a segue cotidianamente, sem pensar muito no assunto.
A história da manga com leite é clássica. Todo mundo conhece e ainda há quem tenha receio de misturar as duas coisas. Faz parte da nossa cultura.
A Região Norte do Brasil é um bom modelo para exemplificar alguns mitos, mais especificamente o Pará. O antropólogo Raymundo Heraldo é um estudioso de mitos alimentares na região. Ele é autor do livro "O Folclore da Alimentação". Segundo ele, a história da manga com leite se enquadra no conceito de alimentos reimosos, que é o principal tabu alimentar que existe.
"Alimentos reimosos são determinados alimentos que fazem mal às pessoas em certas situações. Por exemplo, se a pessoa está com uma certa doença, uma doença nos olhos. Ela não pode comer galinha, pois sob um ponto de vista simbólico a galinha arranha, então ela vai piorar a doença dos olhos."
Raymundo Heraldo cita um outro exemplo famoso de alimento reimoso.
"O porco também é um alimento reimoso em determinadas situações. Se a pessoa tiver com saúde, tudo bem, pode comer porco à vontade. Mas se tiver alguma doença, alguma dificuldade, algum problema, o porco deve ser evitado."
Os mitos da saúde mexem com o cotidiano das pessoas, que mudam hábitos, evitam tratamentos. A odontóloga Sharmênia de Araújo cita alguns que ela pôde conhecer onde ela atende, no Ceará. Por causa de uma crendice, o paciente muda parte de seus hábitos.
"Só pra te dar exemplo é de mulheres que quando estão menstruadas não querem ir ao dentista porque faz mal, e assim é... comer coisa quente depois beber água fria vai quebrar o dente, e aí vão outros mitos né?"
Curiosamente, um dito popular acaba tendo aplicação nesse assunto: toda mentira tem um fundo de verdade. Pois é, pode-se dizer que os mitos alimentares também têm algo de real.
O antropólogo Raymundo Heraldo acredita que, por mais que não exista uma relação direta entre algumas crenças e a ciência, em algumas situações a reação física das pessoas a alguns componentes alimentares consolida uma situação que reforça a manutenção e a perpetuação da crendice.
"Há alguns médicos, até sem uma pesquisa científica muito detalhada, que acham que há determinadas enzimas nesses alimentos, algumas coisas que provocam alergias, coisas desse tipo e que podem ser responsáveis por isso."
A psicóloga e psicanalista Sandra Regina da Luz Inácio confirma o que o antropólogo diz. Mas ela acredita que o cérebro também é responsável pela manutenção desse tipo de crendices. Em seu trabalho, ela já se deparou com situações em que a crença era tão arraigada que o problema era resolvido pela força da convicção pessoal.
" Depende muito da sua crença e das substâncias que o seu cérebro solta. Por exemplo, um senhor, chegou uma vez em um dos hospitais e ele chegou, fez exames e disseram a ele o ´senhor está com câncer no pâncreas´. Ele virou e falou ´vocês estão loucos, isso é uma loucura´ e foi embora e não voltou mais. Passados muitos anos, ele voltou ao hospital e o prontuário estava no arquivo morto. E foram levantar e viram que ele estava com câncer. Fizeram os exames e ele não tinha mais o câncer. Não porque ele tratou, mas porque acreditou que ele não tinha. Depende da pessoa, da convivência, cada ser humano é um ser humano."
A dermatologista Gladys Martins é especialista e mestre em dermatologia e coordenadora do laboratório de Psoríase no Hospital Universitário de Brasília. Ela cita um dos mitos comuns, que diz respeito à Psoríase:
"Alguns pacientes com Psoríase recebem informações equivocadas, que precisam evitar certos tipos de alimento. Já houve uma fase que saiu um modismo de que ingerir peru poderia ser benéfico. Isso está totalmente fora de cogitação, não existe qualquer influência da alimentação com a psoríase. O que existe de comprovação é que álcool piora, mas alimentos não."
O médico e escritor Fernando Lucchese responde se é verdade ou não aquela crendice popular que eu falei no início deste programa.
"Comer manga e tomar leite é um dos mitos mais comuns, é um mito nacional. Em qualquer canto do Brasil se fala a mesma coisa. Realmente não tem a menor base de verdade. E certamente isso veio de algumas pessoas que faziam restrição a seus funcionários, escravos na época, ao acesso a esses bens de consumo."
O médico Fernando Lucchese é autor de uma dezena de livros sobre alimentação, alguns deles se dedicam a desmentir mitos alimentares.
De Brasília, Luiz Cláudio Canuto