Reportagem Especial

Cobaias - A validade no ser humano dos resultados alcançados nos animais (06'40")

11/04/2011 - 00h00

  • Cobaias - A validade no ser humano dos resultados alcançados nos animais (06'40")

Como regra geral, os medicamentos hoje disponíveis nas farmácias são testados em animais.

Isso é feito porque os cientistas precisam avaliar a reação de todo o organismo ao ter contato com o remédio. Via de regra, são usados mamíferos, em especial os roedores, por serem geneticamente muito similares aos seres humanos.

Membro do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, o Concea, Marcelo Morales explica o que conduz a escolha por um ou outro animal.

"Por exemplo, quando quer estudar sistema imunológico, a gente não vai estudar em rato e camundongo. Estuda em coelho, que é mais proximo do ser humano. Quando a gente quer fazer cirurgia de órgãos, que são novos procedimentos cirúrgicos, que são muito próximos ao ser humano, qual é o animal utilizado? É o porco. Rato e camundongo são muito próximos em vários aspectos fisiológicos, vários funcionamentos. E assim por diante. E por que nós utilizamos esses animais hoje? Porque nós teremos uma ideia inicial de como é o procedimento. E se aquele procedimento dá certo."

Mas e se o procedimento não dá certo em animais? O médico norte-americano Ray Greek fundou com outros médicos de seu país uma organização sem fins lucrativos para divulgar métodos alternativos ao modelo animal.

Ele rejeita o uso de animais como modelo para prever a resposta do organismo humano a remédios e doenças, pois, segundo ele, uma reação negativa ou positiva em um animal não significa necessariamente a mesma reação em humanos.

Assim como Greek, o biólogo e fundador da ONG Sociedade Vegana Sérgio Greif defende que o fato de terem sido testados e aprovados em animais não torna os medicamentos seguros para os seres humanos, porque os organismos são diferentes.

"É como se a gente fosse pesquisar remédios para idosos em crianças. A gente está tratando de organismos que pertencem à mesma espécie, mas o organismo é diferente. Uma criança responde de uma forma, e idosos, de outra. Quanto mais o que podemos dizer de cachorros e seres humanos, ratos e seres humanos?"

Nas palavras de Greif, as primeiras cobaias são as primeiras pessoas que recebem o medicamento, pois é apenas na fase de pesquisas com seres humanos que será possível conhecer o produto. E é por isso que ele rejeita o uso da pesquisa em animais como uma fase de eliminação de medicamentos não viáveis para humanos.

"Esse sistema que a gente tenta mostrar que é falho. Ele não funciona da forma como dizem. Esse é o raciocínio que a indústria realmente usa. (...) Mas esses dados não servem de forma alguma para os seres humanos. Seja lá qual for o resultado que é dado no animal, de qualquer forma vai-se precisar realizar testes em seres humanos. Então, a gente pode inferir que os testes com animais são desnecessários, pois de toda forma vai ser necessário se testar em seres humanos."

Sérgio Greif alerta ainda para os casos em que resultados negativos em animais conduzem cientistas a interromper pesquisas com medicamentos que poderiam ser bons para os humanos.

Por determinação legal, o Concea deve monitorar e avaliar a introdução de técnicas que substituam os animais em ensino e pesquisa. Portanto, segundo Marcelo Morales, o Conselho criou uma comissão permanente de discussão e incentivo à pesquisa sobre métodos alternativos.

Segundo Marcelo, o uso de animais ainda é necessário, mas a comunidade científica tem buscado reduzir o número de animais usados, refinar os métodos para evitar sofrimento e substituir a pesquisa em animais vivos por outros métodos.

"Nós cultivamos células de câncer em frascos plásticos, em garrafinhas plásticas. Então, se a gente descobre uma droga que pode matar células de câncer, a gente cresce as células de câncer dentro desses frasquinhos de plástico e coloca a droga ou medicamento dentro desses frasquinhos de plástico, no meio de cultura dessas células, e vê se essa nova droga é capaz de matar essas células cancerígenas. Mas a pergunta é: muito bem, passamos o primeiro passo em pesquisa sem utilização do animal vivo, mas será que, introduzindo essa droga no organismo vivo, ela não vai se transformar, por exemplo, no fígado, em outro tipo de composto, que vai levar um prejuízo muito grande ao organismo vivo? Então nós temos que fazer experiência com o animal vivo e saber se isso vai ocorrer ou não."

Mas o biólogo Sérgio Greif defende que os métodos alternativos já existentes são suficientes para prever a reação do organismo humano aos novos medicamentos.

"Com testes in vitro, a gente consegue ter pelo menos um caminho da forma como determinada substância iria se comportar no organismo humano. Feitos esses testes, colocados para rodar em softwares de modelos matemáticos, computacionais, a gente tem um pequeno panorama do que aconteceria com seres humanos. Aí sim se seguiriam os testes com seres humanos."

O direitor do Instituto de Ciências Farmacêuticas em Goiânia, Leonardo Teixeira, concorda que a relação entre resultados em animais e resultados em humanos não é perfeita. Por isso, ele pede cuidado com generalizações.

O importante, segundo ele, é observar se o mecanismo que se tenta explicar pela pesquisa com animais é semelhante ao que ocorre em humanos. Essa correlação é o que permitirá que a pesquisa produza reais benefícios.

De Brasília, Verônica Lima

O programa apresenta e aprofunda temas em debate na Câmara

Sábado e domingo às 8h30, 13h e 19h30. E nas edições do programa Câmara é Notícia. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.