Reportagem Especial
Especial Mulheres - É possível estabelecer a igualdade entre homens e mulheres? (07'24'')
28/03/2011 - 00h00
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Especial Mulheres - É possível estabelecer a igualdade entre homens e mulheres? (07'24'')
TRILHA – “Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino. Se Deus é menino e menina, sou masculino e feminino”.
A igualdade entre homens e mulheres é um ideal em voga em muitas sociedades atuais. Mas de que igualdade estamos falando? Basta ter mulher presidente, mulher caminhoneira, mulher pedreira para podermos dizer que há igualdade entre os sexos? Será que igualdade significa acabar com as diferenças entre homens e mulheres?
Para a professora de História da Universidade Federal Fluminense e estudiosa da história das mulheres Rachel Soihet, mesmo a percepção de diferença em disposição física é uma construção cultural.
"Essas diferenças que são atribuídas a homens e mulheres como próprias da natureza, isso já está mais do que mostrado, provado, que isso não corresponde à verdade. São diferenças culturais. Na medida que homens e mulheres são educados de forma diferenciadas, eles passam a incorporar características que são dadas como naturais quando são culturais."
As mulheres parecem ser capazes de desenvolver capacidade física e resistência similares ou superiores às dos homens, como demonstra o exemplo levantado pelo folclorista e professor de Mitologia Comparada da Universidade de São Paulo Marcos Ferreira Santos.
Segundo ele, as “mulheres do mar” de Okinawa, no Japão, desenvolveram habilidades físicas superiores às dos homens devido à atividade de pesca de pérolas que realizam.
Mas o que chama a atenção nessa sociedade é a forma com que homens e mulheres se tratam. Segundo Marcos, não há prevalência de um sobre o outro, mas uma efetiva igualdade de tratamento.
O professor concorda que a maioria das diferenças apontadas entre homens e mulheres são culturais, mas, segundo ele, a Antropologia reconhece uma diferença em termos biológicos, que chama de princípio.
O princípio masculino estaria mais ligado a ações exteriores, como conquistas e batalhas. O feminino, mais voltado para o reconhecimento desses territórios, de maneira mais introspectiva.
Marcos Ferreira Santos analisa as construções da moda que misturam o masculino e o feminino, buscando apagar as diferenças com terninhos, tênis e mocassinos. Nas mulheres, cabelos curtos; nos homens, longos cacheados.
Para o professor, isso não representa igualdade, pois não tem nenhuma relação com a natureza, com a essência do que seria o homem e a mulher.
"Em termos míticos, nas sociedades tradicionais, a figura daquele que consegue esse equilíbrio entre as duas faces, entre o princípio masculino e o feminino, é conhecido como o casamento alquímico, o casamento entre os dois princípios. Que não apaga as diferenças, mas dialoga as diferenças entre si".
TRILHA DE PASSAGEM – “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria / Que o mundo masculino tudo me daria”
Para as democracias, Marcos defende uma igualdade de oportunidades. Assim como a advogada e professora de Direitos Humanos da Universidade de Brasília Soraia Mendes, que fala em igualdade de direitos e garantias fundamentais.
"Enquanto os corpos das mulheres continuarem dominados e cerceados pelo estado como é, e o aborto é uma questão fundamental nisso, enquanto não tivermos determinadas ações para modificações efetivamente culturais, ou seja, de uma construção de uma política de igualdade plena e não de algumas concessões que são feitas, a gente não pode falar plenamente em liberdade. Liberdade e igualdade são termos, que para serem usados no seu sentido forte, precisam ser incorporados de todos os direitos e garantias fundamentais que homens e mulheres gozam".
Por sua vez, a presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Maria Luiza Macedo, alerta para a necessidade de equivalência. Segundo ela, homens e mulheres têm corpos e cabeças diferentes, mas o mesmo valor.
"Essa igualdade está sendo mal-compreendida. Igualdade é impossível porque são pessoas diferentes, com circuitos neurocerebrais diferentes, com força muscular diferentes. Você luta pela equivalência: apesar de tudo você pode valer a mesma coisa. Eu às vezes não tenho força para suspender um peso enorme. Tem um homem que tem e que pode fazer isso. Então eu posso dividir as tarefas, mas isso não implica eu valer menos ou valer mais."
O conselho do professor Marcos Ferreira Santos para o homens é que amem mais e temam menos.
"Ainda que possa parecer um pouco simplista, mas a única maneira que, me parece, para o homem seria mais interessante lidar com essa retomada, que não é nenhuma concessão, muito pelo contrário, é busca de um equilíbrio entre os dois gêneros, é respeitar muito mais, amar muito mais e tentar compreender mais essa outra maneira de agir, de pensar, de administrar, de tocar a vida, que é um contraponto, mas que se complementa ao modo masculino."
Na cultura chinesa, o princípio yang, masculino, tem uma parcela de yin, o princípio feminino. E vice-versa. Por isso, outro conselho do professor Marcos é que homens e mulheres aprendam uns com os outros.
A aprendizagem masculina é a de organizar o ambiente doméstico com base na lógica feminina. A das mulheres, a de continuar a enfrentar os desafios do mundo externo. Para Marcos, só assim será possível realizar as mudanças que conduzirão a um efetivo equilíbrio.
TRILHA – “Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória / Mudando como um Deus o curso da história / Por causa da mulher”
De Brasília
Verônica Lima