Reportagem Especial

O que mais afeta os portadores do vírus da Aids é o preconceito. (04'50")

21/02/2011 - 00h00

  • O que mais afeta os portadores do vírus da Aids é o preconceito. (04'50")

Nem os sintomas, nem os efeitos colaterais dos remédios. O que mais afeta o dia a dia dos portadores do vírus da Aids é mesmo o preconceito. Palavra dos próprios soropositivos. Todos os nossos entrevistados têm na ponta da língua exemplos para dar.

Na pequena Bela Vista, Mato Grosso do Sul, as pessoas saíam do rio quando José Cubila Soares, o Lambari, entrava na água. As irmãs da mulher que aqui vamos chamar de Joana não frequentam sua casa e dizem que lá não usariam nem um copo. Os olhos de Silma Araújo enchem de água ao lembrar do mau tratamento recebido de um cobrador de ônibus quando ela apresentou o documento que lhe garante passagem gratuita.

Lambari lamenta não ter tido apoio nem da família quando descobriu a doença.

"Hoje não, hoje eu levo uma vida normal, mas logo no começo, no início que eu descobri que estava com HIV o preconceito, principalmente da minha família, mandaram eu sumir de casa, me expulsaram. Lá na minha cidade onde eu fui criado as pessoas ficaram sabendo o que eu tinha e até em chegar na beira do rio pra tomar um banho o pessoal corria. Se eu chegasse em um bar, eu tinha que pedir um copo descartável. As pessoas não queriam conversar comigo..."

Olhando para trás, Lambari avalia que o preconceito diminuiu muito em relação à década de 80, quando descobriu a doença. Técnicos do Ministério da Saúde atribuem essa queda à visibilidade cada vez maior do HIV, como destaca o diretor adjunto do Departamento de DST/Aids do Ministério, Eduardo Barbosa.

"A gente vê a questão do preconceito diminuindo muito, as ações que foram realizadas e especialmente pela visibilidade, pelo se mostrar de jovens, adultos que vivem com HIV, mostrando que eles têm uma vida normal, tranquila, com desejos e sonhos como qualquer outra, isso também possibilitou quebrar essas barreiras e avançar aí em políticas que pudessem ser mais inclusivas para esta população."

Lado a lado com a Aids desde a década de 80, quando seu filho Cazuza contraiu a doença, Lucinha Araújo também vê mudanças, mas considera que ainda falta muita informação sobre o vírus.

"O preconceito diminuiu, agora preconceito vai existir mesmo é sempre, porque preconceito é fruto da desinformação e da falta de caráter. Então enquanto houver gente mal informada e gente sem caráter vai existir o preconceito. Mas eu acho que o preconceito diminuiu pelo menos em relação às minhas crianças que vivem aqui. Mas eu sei que existe, claro, porque eu também tenho pacientes adultos que eu ajudo dando cesta básica, ensinando a tomar o remédio e eu sei que eles passam. Alguns deles nem falam que são portadores do vírus. Moram em favelas, pessoas menos esclarecidas. Se bem que tem muita gente esclarecida que até hoje não sabe que doença é essa. É o cúmulo, mas enfim..."

O medo de sofrer preconceito se revela em detalhes, como no pedido de uma de nossas entrevistadas para não ser identificada. A piauiense de 54 anos é voluntária em uma entidade que presta apoio a soropositivos. Ela já namorou um portador, sabia disso, redobrou os cuidados na relação e não contraiu o vírus. Ainda assim, a mulher de sorriso largo, que aqui vamos chamar de Joana, não recebe visitas das próprias irmãs.

"Ela não fala declaradamente, mas eu sei que é por causa disso. Eu sempre vou lá, passo roupa pra ela. E tem outra que diz que Deus o livre, na minha casa não toma nem um café, não bebe nem um copo d´água. Tem preconceito demais. Eu não tenho e tenho fé em Deus que nunca vou chegar a ter"

Com toda a sua simplicidade, Joana é um exemplo do poder que a informação tem para derrubar preconceitos.

"Eu aprendi a amar eles e ver que nós tudo somos iguais. Não é por causa do vírus que a gente discrimina eles, acha que eles são diferentes, não. Do mesmo jeito que eu sou, eu acho que eles são também. Não é por causa da doença deles que a gente, não, não encoste em mim. Para mim eu sou igualmente eles. Nós somos tudo de um jeito só"

De Brasília, Mônica Montenegro

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