Rádio Câmara

Reportagem Especial

Desastres naturais: a ocupação humana em áreas de risco (06'48")

  • Desastres naturais: a ocupação humana em áreas de risco (06'48")

O ciclo natural de águas tem dois momentos: primeiro a chuva infiltra no solo, escoa e aumenta o volume dos rios. Em seguida, as chuvas diminuem, os rios baixam de nível e chega a seca.

Mas basta colocar o homem nesse sistema para que alguns elementos sejam modificados, como explica o superintendente de usos múltiplos da Agência Nacional de Águas, Joaquim Gondim.

"Nas cidades, e aí as pessoas confundem, as chuvas acontecem, encontram o solo impermeabilizado pelas construções, pelas edificações, e rapidamente escoam. Aí que nós chamamos de inundações urbanas, que são as mais comuns."

A chuva que cai nas cabeceiras dos rios também pode causar problemas nas cidades. São as inundações ribeirinhas, que acontecem quando essa chuva enche os rios que atravessam grandes cidades, como Recife e São Paulo.

O problema aqui, segundo o coordenador do Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia do Itajaí, Hélio dos Santos Silva, é de simples visualização e difícil solução, pois as cidades estão dentro do leito secundário do rio.

"Onde era rio, onde o rio tem a sua cheia normal, natural, as pessoas ocuparam nesses últimos 50 anos, 60 anos. Hoje nós estamos ocupando um lugar que era do rio. Um dos planejamentos, um dos objetivos é você tirar a cidade de dentro do rio. Criar uma área de lazer, provisória, utilizar aquela área enquanto o rio não toma conta de volta. Mas não ter residências, não ter lojas, comércio, serviços nessas áreas, que periodicamente, 10, 15, 20 anos, dependendo do tempo de retorno, o rio vai retomar para ele."

Segundo Hélio, existe planejamento para deslocar o centro de Blumenau, em Santa Catarina, para fora do rio, transferindo as atividades comerciais e administrativas para a região norte do município, que é mais alta e livre de enchentes. A tendência é que até 2050 a transferência esteja concluída, deixando a região mais próxima do rio como um centro antigo, sem residências e sem as atividades fundamentais para a vida da cidade.

A mesma lógica vale para as regiões litorâneas. Hélio explica que, na região norte de Santa Catarina, os moradores se veem constantemente obrigados a refazer aterros tomados pelo mar.

"Em Santa Catarina, nós temos um exemplo bem claro, na região de Piçarras, litoral norte do estado. Se não se cuidar, volta e meia, ela vai tirando, já está chegando água nos pilotis dos prédios, na base dos prédios. Eles aterram de novo, volta de novo."

Os brasilienses sentiram recentemente um tremor de cinco pontos na escala Richter. Segundo o professor do Observatório Sismológico da UnB George Sand, esse foi um grande terremoto para o Brasil, mas os danos foram mínimos.

O evento ainda está sendo estudado, em especial para determinar se existe uma tendência de agravamento nos tremores da região, mas uma das razões para poucos estragos foi o fato de Brasília ter construções mais resistentes.

"A gente teve no Brasil em 2007 um tremor que foi de 4.9, na região de Caraíbas, e esse terremoto provocou a morte de uma criança e um distrito foi totalmente destruído. Isso porque as casas eram muito frágeis e era um local rural. "Esses tremores de 5, se você tiver uma residência bem feita, obedecendo ao código de engenharia civil, certamente, ela só vai sofrer um balanço e não vai ter muitas rachaduras ou coisas desse tipo. Se tem uma boa estrutura, uma boa residência não vai ter efeitos para esses terremotos que a gente chama de terremotos no meio de placa tectônica."

Uma mudança em infraestrutura também poderia ajudar a resolver o problema das inundações urbanas. Segundo Hélio dos Santos, o incentivo à captação e reutilização da água da chuva em residências e edifícios poderia tornar-se política pública para evitar o acúmulo de água nas ruas das cidades.

"Tem toda uma legislação para novas edificações. Na hora de colocar nessa legislação, se criar, por exemplo, a necessidade de você captar água da chuva. E fazer uma cisterna no seu terreno, onde essa água da chuva vai ser captada. Então você evita que essa água vá para o bueiro, para a canalização pluvial da cidade e do bueiro rapidamente direto para o rio, e elevar o nível do rio. Ou então gerar inundações e bolsões de água em determinados lugares da cidade, em determinadas ruas, por exemplo, atrapalhando o trânsito e gerando caos na cidade, gerando a inundação urbana."

Qualquer que seja a solução encontrada, o importante é adequar a infraestrutura urbana para permitir a ocupação de áreas propícias a grandes eventos naturais sem a ocorrência frequente de desastres. Mesmo porque a população mundial está crescendo e nem toda cidade poderá fazer como Blumenau, deslocando seu centro para regiões mais amenas.

De Brasília, Verônica Lima

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