Rádio Câmara

Reportagem Especial

Tecnologia Social: definição e histórico (10'53")

08/11/2010 - 00h00

  • Tecnologia Social: definição e histórico (10'53")

TRILHA ("Amigo é casa" // só instrumental)

Duas medidas de açúcar e uma de sal misturadas em um copo de 200 mililitros de água filtrada ou fervida. Toda mãe conhece muito bem essa receita que tem ajudado a combater a desidratação e a salvar a vida de milhares de crianças no mundo inteiro.

Pois o soro caseiro tem tudo a ver com a série de cinco matérias sobre tecnologia social que a Rádio Câmara começa a apresentar a partir de hoje.

Ninguém sabe ao certo quem inventou essa receita: pode ter sido uma avó atenta aos vômitos e diarréias do neto ou uma mãe preocupada em conter a perda de água e sais minerais do filho. Não importa muito quem seja o inventor. O que interessa mesmo é saber que o soro caseiro teve a eficácia comprovada pela medicina e pelo uso coletivo da população e, o que é mais importante, que essa receita pode ser reaplicada em várias situações e ambientes no mundo.

Música: "Amigo é casa" (de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, com Lenine e Zé Renato)

O soro caseiro é o exemplo clássico de tecnologia social. Mas existem centenas de outros exemplos capazes de oferecer soluções simples e eficazes nas áreas de saúde, educação, geração de renda, habitação, saneamento, meio ambiente, agricultura entre outras.

A tecnologia social é, portanto, qualquer técnica, método ou produto surgido da interação entre os conhecimentos popular e científico e que, aplicado a uma determinada situação, traga soluções efetivas para um grupo de pessoas ou comunidades.

Quer outro exemplo? Seu Jaci Chagas tem 65 anos de idade e cultiva mandioca em Dantilândia, distrito de Vitória da Conquista, na Bahia. Ele é um pequeno agricultor familiar, mexe com a terra há vários anos e sempre se incomodou com o mau cheiro da manipueira, aquele líquido leitoso que surge da prensagem da mandioca nas casas de farinha.

Para acabar com o problema, Seu Jaci inventou um sistema de fossas para a decantação da manipueira, que, além de reduzir o cheiro ruim, permite o aproveitamento do líquido para regar plantas e alimentar aves, porcos e gado. Modesto, Seu Jaci conta que não tinha a noção de que estava criando uma tecnologia social.

"Não foi por inteligência nem nada não. É que meu filho, na época da fábrica de farinha disse: 'Pai, não faz essa fábrica de farinha aí. Não sei se você conhece bem, mas é uma fedentina e a gente que mora aqui perto não vai suportar'. Aí eu falei: 'eu vou tentar dar um jeito aí para ver se melhora'. E aí deu certo. Aí tirando a goma - aquela parte que é tablete ali -, não enche a fossa porque vai ter condições de ela penetrar na terra. Eu nem levei ao conhecimento, não. Um sobrinho meu que esteve aqui, e ele é engenheiro, gostou e levou até para a UESB. Eles vieram trazer os meninos aqui para fazer pesquisa. Deu certo. Mas, por mim, ficava por aqui mesmo".

A técnica surgida da experiência do humilde Seu Jaci é alvo agora da análise da UESB, a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, e tem grande potencial de ser reaplicada nas casas de farinha de todas as regiões que cultivam mandioca no país.

Enquanto a tecnologia social criada pelo Seu Jaci ainda dá os primeiros passos, uma outra se difunde rapidamente pelo Brasil e tem até chance de ser adotada como política pública por algumas prefeituras.

Trata-se do PAIS, a Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, um sistema de gotejamento de água que permite o cultivo de hortaliças e a criação de aves simultaneamente em um mesmo espaço, sem agrotóxicos e com uso racional da água.

O PAIS foi aplicado pela primeira vez em 1999. A ideia surgiu da experiência do engenheiro agrônomo senegalês Aly N'daie com agricultores familiares de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro.

Hoje, essa tecnologia social e agroecológica gera renda e garante alimentação saudável para pequenos produtores rurais em mais de cinco mil chácaras e sítios brasileiros.

Assim como Seu Jaci, Aly N'daie não está preocupado em ser reconhecido como inventor de tecnologia social. O que este senegalês de 44 anos quer é a difusão da técnica para melhorar a vida da população aqui e no seu continente africano.

"O PAIS não tem patente. Isso é o que menos me importa. O que me importa hoje é perder a conta de quantos PAIS foram instalados, como estão andando e ver a felicidade desses pequenos produtores beneficiados nesses projetos, que o meio ambiente também agradece. Um projeto de agroecologia virando política pública num país dessa dimensão que tem o Brasil, isso é uma coisa que não tem preço. Eu estou tendo várias articulações para poder levar essa tecnologia simples, relativamente barata e de fácil reaplicação, que é o objetivo maior das tecnologias sociais, ao Senegal. Sobretudo nessas horas em que a gente está falando de aquecimento global e fome na África".

MÚSICA: "Amigo é casa" (de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, com Lenine e Zé Renato)

Timidamente, o conceito de tecnologia social foi sendo construído no Brasil a partir dos anos 80 e 90 do século passado, por meio dos movimentos em defesa da cidadania das populações mais pobres.

A concepção de economia solidária está impregnada dessas boas ideias. Hoje o conceito evoluiu ao ponto de colocar a tecnologia social como instrumento de inclusão social, de melhoria da qualidade de vida e até mesmo de desenvolvimento mais uniforme do país.

Várias ações têm contribuído para a difusão dessas tecnologias no Brasil. A Câmara dos Deputados, por exemplo, analisa um projeto de lei (PL 3449/08) que institui a política nacional e o programa nacional de tecnologia social.

A deputada Luíza Erundina, do PSB paulista, é uma das autoras do projeto de valorização do conhecimento popular na elitizada área de produção científica e tecnológica no Brasil.

"É revolucionário se pensar e se viabilizar a democratização da ciência e da tecnologia e o envolvimento da sociedade civil na construção de uma política de ciência e tecnologia com participação popular, incorporando o saber popular, esse conhecimento que se acumula durante os séculos e que é o saber que o povo dispõe para resolver os seus problemas dentro das condições que ele tem para resolver".

ONGs, entidades públicas, associações e cooperativas também arregaçaram as mangas e se reuniram na chamada Rede de Tecnologia Social, a RTS, para articular e integrar as diversas ações de desenvolvimento sustentável.

A Fundação Banco do Brasil lidera o apoio a essas tecnologias no país, já que promove um prêmio bianual de incentivo, financia vários dos projetos que estão em curso e mantém o chamado "Banco de Tecnologia Social", onde estão catalogados cerca de 500 projetos premiados.

O presidente da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit, conta que o investimento nessa área já superou os R$ 500 milhões nos útlimos seis anos.

"A fundação vem investindo muito fortemente não apenas no trabalho de identificação dessas tecnologias, reconhecimento, premiação e certificação através do nosso Banco de Tecnologias Sociais. E agora, mais recentemente, estamos trabalhando com o que chamamos de reaplicação, que seria a disseminação pelo potencial que elas têm de transformação nessas comunidades no Brasil todo. Temos procurado colocar um serviço de assistência, de monitoramento disso por um ano e meio ou dois anos, até que as comunidades se apropriem dessas tecnologias que estão sendo colocadas à disposição deles"

O coordenador do Observatório pelo Movimento da Tecnologia Social da América Latina, Ricardo Neder, ressalta que a reaplicação desses instrumentos de cidadania em outros lugares só tem valor efetivo quando respeita o conhecimento e os costumes das comunidades.

Como tecnologia social não tem patente, ou seja, ninguém precisa pagar nada pelo seu uso, Ricardo Neder recomenda que os interessados em usá-la se organizem em grupos comunitários ou profissionais e façam as adaptações que julgarem necessárias para garantir o desenvolvimento local.

"Esse ensino precisa ser construído com a comunidade. Não podemos chegar aqui e dizer: 'esse aqui é o sistema de horta mais adequado para vocês'. 'Está bom, ótimo, vamos usá-la'. Dali a seis, sete, dez meses, eles já vão fazer uma adaptação daquilo e converter numa outra coisa. Ou seja, a aplicação é do domínio da comunidade. Segundo, a comunidade tem que ter autogestão. É entender que o ambiente adequado para a tecnologia social não é o ambiente empresarial, é o ambiente comunitário, é o ambiente das políticas públicas. Terceiro fator: conhecimento técnico. E amarrar o ambiente adequado de comercialização, aliás, um dos princípios básicos dos empreendimentos solidários econômicos".

Nossa reportagem foi conferir de perto, em vários estados do país, algumas das tecnologias sociais mais bem sucedidas. Ao longo da semana, você vai conferir como essas experiências estão ajudando a trazer autoestima, renda e autonomia para comunidades pobres.

Essa série de matérias tem um objetivo de utilidade pública bem claro: difundir as boas iniciativas de tecnologia social para que você as conheça e avalie a possibilidade de reaplicar algumas delas no seu dia-a-dia ou na sua comunidade.

De Brasília, José Carlos Oliveira

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h20 e 23h