Reportagem Especial
50 anos da pílula - A polêmica ainda persiste (05'48'')
04/11/2010 - 00h00
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50 anos da pílula - A polêmica ainda persiste (05'48'')
Cinquenta anos depois de sua invenção, a pílula anticoncepcional continua polêmica. Só que, hoje, as críticas se concentram nos contraceptivos de emergência.
Mais conhecido como pílula do dia seguinte, esse medicamento é considerado abortivo por segmentos religiosos, como argumenta o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, dom Antônio Augusto.
"A primeira geração de pílula era realmente anticonceptiva, isto é, impedia a ovulação. Houve várias gerações e a grande maioria das pílulas hoje em dia tem efeito também anti-implantatório. chegou-se até a uma pílula fabricada pelo laboratório Roche, e proibida nos Estados Unidos e em países europeus, que é a RU-486. Essa é violentamente abortiva. A Igreja defender a vida não se restringe apenas ao aborto e à eutanasia, a Igreja busca mostrar o valor da vida em todos os seus momentos, e tanto a vida a ser concebida, uma vida a ser nascida, como a vida da própria mulher, que concebe e gesta uma criança"
A RU-486, citada por dom Antônio Augusto, ficou conhecida como pílula do mês seguinte e é proibida em vários países, inclusive aqui no Brasil.
Tomada até sete semanas após a última menstruação, ela impede a manutenção do embrião no útero, provocando um aborto. Já a pílula do dia seguinte precisa ser tomada, no máximo, em até cinco dias após a relação sexual desprotegida.
Segundo o Ministério da Saúde, ela não é abortiva, pois evita a fecundação, ao impedir o encontro do espermatozóide com o óvulo.
Mesmo com doses cada vez menores de hormônios, a pílula ainda pode provocar efeitos colaterais, mas pequenos, como ressalta o chefe do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo, Afonso Nazário.
"Efeito colateral tem, mas é discreto. Os principais são dor de cabeça, enjoo, eventualmente vômito, dor na mama e inchaço no corpo. São os principais efeitos colaterais que a gente vê no dia a dia. Pode ocorrer em geral na segunda, até terceira cartelinha. Depois do terceiro mês de uso, o organismo de adapta a esse novo ambiente hormonal e, em geral, a paciente tolera bem, sem nenhum efeito colateral importante"
Música: Odair José (... então eu quero ver você esperando um filho meu, então eu quero ver você esperando um filho meu...)
Só que além das evoluções técnicas da pílula, é necessário também discutir a responsabilidade dos homens quando se fala em planejamento familiar. Essa é a opinião da integrante do Movimento Marcha Mundial das Mulheres, Sônia Coelho.
Ela considera a pílula fundamental para a mulher poder exercer sua sexualidade livremente, ao separá-la da reprodução. Mas a preocupação com uma gravidez indesejada precisa ser dividida.
"Nos anos 80, até teve algumas pesquisas sobre a contracepção masculina, mas não foi adiante. A própria vasectomia só agora há pouco tempo que tem sido mais procurada pelos homens, mas mesmo assim ainda é baixo, no Brasil, o número de homens que decidem pela vasectomia. São sempre as mulheres que vão e fazem a laqueadura, mesmo a gente sabendo que a laqueadura é um procedimento mais invasivo, é uma operação mais complexa que a do homem. Na nossa sociedade se naturalizou e se colocou muito como responsabilidade só das mulheres a questão da contracepção. A gente tem que mudar isso. Os homens também são responsáveis, também como devem ser responsáveis pela proteção em relação às doenças"
Mesmo podendo afastar o homem da responsabilidade sobre a contracepção, não se pode negar que a pílula representou uma revolução na vida das mulheres.
Prova disso está nos números oficiais. A taxa de fertilidade das brasileiras, que no início dos anos 70 era de 5,8 filhos, caiu para uma média de 1,95 em 2009. No mesmo período, a participação feminina no mercado de trabalho passou de 28% para 45%.
Além disso, segundo pesquisa Ibope, 33% das brasileiras consideram que o contraceptivo melhora a vida sexual, e 29% têm uma frequência sexual maior devido ao remédio. A diminuição do medo de uma gravidez indesejada pode explicar os números.
Música> Odair José (... pare de tomar a pílula)
Em 1973, Odair José, ainda que fazendo este lamento sofrido, tocou em um assunto tabu e chocou os moralistas. Seus discos foram recolhidos das lojas e a música ficou censurada por 11 anos pelo governo militar.
Hoje, a sociedade comemora as conquistas alcançadas nas últimas décadas. A liberdade de expressão se consolidou, junto com a liberação sexual das mulheres. E a pílula anticoncepcional certamente teve um papel decisivo nesse processo.
De Brasília, Mônica Montenegro