Reportagem Especial

Moradores de rua - Histórias de superação (6'15'')

21/05/2010 - 00h00

  • Moradores de rua - Histórias de superação (6'15'')

SOBE SOM : FAROESTE CABOCLO: 20"
"Dizia ele: ´Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há
Tô precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar´

E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal"

A saga de João de Santo Cristo, na música do Legião Urbana, inspirou Sérgio Reis Ferreira, 31 anos, a vir para Brasília e aqui mudar seu destino de órfão e morador de rua para estudante e trabalhador, prestes a concluir o curso superior de pedagogia na Universidade de Brasília.

"Quando completei 18 anos, tive que sair do orfanato, não tinha lugar para ir, fiquei pelas ruas e vim para Brasília. Tinha uma música do Legião Urbana que dizia lugar melhor não há, aí eu vim para cá por causa dessa música e acabei concordando com a letra dessa música de que no Brasil lugar melhor não há. E me ajudou no meu processo de crescimento como ser humano, como pessoa"

Até 2006, o guarda-roupa dele era um bueiro numa quadra comercial de Brasília, até ser aprovado no vestibular após um ano em meio de bolsa de estudos num cursinho preparatório.

Depois disso, retirou os pertences do esgoto e foi para a casa dos estudantes na Unb. Hoje, Sérgio é contratado por uma empresa de serviços gráficos e não pretende parar de estudar.

"Eu tinha de preencher o tempo ocioso na rua. Na rua você tem que arrumar alguma coisa para fazer. Alguns escolhem roubar, outros, não sei o quê, mas como eu fiquei em orfanato e o local era evangélico, eu tinha um pouco de formação religiosa, então sabia que eu não poderia ir para o crime, ou para as drogas, então eu tinha que procurar alguma coisa para fazer. Então, era como se fosse o meu mundo, eu tinha que criar um mundo paralelo onde eu me sentisse protegido e dentro da escola eu estava protegido"

O estudo também foi a salvação de Anderson Miranda, 34 anos, hoje coordenador do Forum das Populações de Rua em São Paulo.

Um presente de um colega morador de rua o fez cobrar um dos direitos básicos de todo brasileiro: o artigo sexto da Constituição sobre os direitos sociais à saúde, educação, trabalho, moradia...

"Eu ganhei de um morador de rua. Um cara que não queria mais e disse: isso aqui não vale nada, aí eu pedi ele me deu e aí eu comecei a ler. Era uma Constituição já meio velhinha e aí eu comecei a acreditar nela, falando dos direitos humanos, falando do direito a moradia, que todo cidadão tem que ter assistência a moradia, saúde educação. Aí comecei a me ver como cidadão dentro da Constituição. Comecei a falar: não é minha culpa, é do Estado e do município. Aí comecei a me conscientizar politicamente"

Em Minas Gerais, outro exemplo de superação e militância. Samuel Rodrigues, membro do movimento nacional de população de rua, ficou sem casa após o fim do casamento e a perda do emprego.

O paranaense passou quatro anos entre Espírito Santo, Recife e Belo Horizonte e, na capital mineira, conheceu a organização que mudou a vida dele.

"Tâ (sic) longe das ruas há dois anos e meio. Eu morei em albergues, numa república, depois fui morar numa ocupação, numa militância com os companheiros do movimento sem-teto, e atualmente moro num bairro aqui da cidade, mas sem perder o contato, o vínculo com meus companheiros lá da rua. A rua para mim era uma rotina"

Aqui em Brasília, um anônimo personagem já faz parte do dia-a-dia dos moradores e comerciantes da quadra que ele escolheu para morar.

Cabelos compridos, barbudo, roupas limpas num traje social, o homem, conhecido como Jesus, dorme há mais de 10 anos na 202 sul e faz pequenos serviços para o comércio local.

O interesse desse morador de rua, no entanto, é outro: passar no vestibular do curso de Letras e terminar o curso de inglês; o de espanhol já foi concluído.

"Jornal é um vício diário meu. Já tô (sic)louco aqui porque ainda não tive a oportunidade de passar lá para abrir o ...eu gosto do El País, que leio na internet e os jornais que a gente tem em edição nacional eu sempre leio. Diariamente, religiosamente"

O garçom do restaurante de luxo que serve o almoço diariamente para Jesus não sabe os motivos que levaram o estudioso às ruas. João Inácio acredita que a inteligência do homem Jesus é o impulso para vencer.

"É incrível, ele é um cara incrível. Tem hora que ele me chama de papai e me dá uma vontade de perguntar: meu filho porque? Ninguém sabe. Ele é um gênio, é um cara que não merecia. Se eu tivesse condições eu ajudava com o maior prazer"

De Brasília, Keila Santana

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