Reportagem Especial
Abuso sexual - O que leva um adulto a violentar uma criança? (05'54")
27/04/2010 - 00h00
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Abuso sexual - O que leva um adulto a violentar uma criança? (05'54")
Nas últimas semanas, os brasileiros ficaram chocados com dois casos terríveis de violência sexual contra crianças.
Num deles, um pedreiro de Luziânia assumiu ter matado seis adolescentes e ter mantido relações sexuais com alguns deles. Esse homem já havia sido preso por atentado violento ao pudor e cometeu os novos crimes uma semana depois de solto.
O outro caso é o das pulseiras coloridas apelidadas de "pulseiras do sexo". Cada pulseira tem uma cor, e quem arrebenta o acessório recebe uma retribuição sexual da dona da pulseira, de acordo com a cor.
Se ela for roxa, por exemplo, vale beijo de língua; a preta, sexo. Duas meninas que usavam as pulseiras foram atacadas, estupradas e assassinadas nas duas últimas semanas.
Mas, o que leva um adulto a desejar sexualmente uma criança, a ponto de cometer um crime violento contra ela? Para Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan de Educação Sexual, o principal motivo para essa violência é uma doença psicológica, a pedofilia.
A doença faz com que a pessoa perca o controle sobre seus impulsos sexuais e ataque crianças. O pior é que normalmente as crianças do círculo social mais íntimo do agressor são as mais atingidas. E esse triste fenômeno ocorre em todas as sociedades.
"Ela acontece em qualquer sociedade, desde que haja alguém que tenha essa patologia. Então, não tem nada a ver com a questão cultural. Tem a ver mesmo com a questão de doença mental mesmo."
Ao raciocinar sobre o crime que cometeu, algumas vezes o pedófilo opta por também assassinar a vítima. Outras vezes, ao ver que não é uma opção viável, o criminoso ameaça a vítima se ela contar a alguém dos abusos.
Há quem acredite que a pedofilia não seja a única causa da violência sexual. A disputa de forças dentro da própria casa pode resultar na agressão gratuita aos integrantes mais frágeis da família: as crianças. Vicente Faleiros, professor da UnB e coordenador do CECRIA, explica que também há causas sociais que podem impulsionar esse crime.
"Não há uma causa-efeito única. Em primeiro lugar, existe uma sociedade violenta. Existe uma sociedade machista, com violência de gênero e, dentro de casa, as relações de poder e dominação do mais forte sobre o mais frágil. Então, a relação da violência sexual é uma relação de poder que pode se expressar em patologias, por exemplo, a pedofilia. Nem todo violento é pedófilo, e nem todo pedófilo é violento."
Porém, há quem não queira nem saber o que move um agressor desses, apenas quer ver a justiça ser feita: a própria vítima é a principal delas.
Uma mulher que conversou com a reportagem diz que sofreu abusos há quarenta anos, e até hoje sofre com os traumas. Ela se sente tão envergonhada que pediu para não ser identificada. Outras pessoas, como a nadadora Joana Maranhão, ainda lutam com seus problemas, mas querem tornar suas tragédias um alerta contra novos casos. Joana acusa seu treinador de a ter violentada aos nove anos. Ela levou mais de dez anos para poder se libertar do medo que sentia e denunciar o molestador.
"Tentei falar para minha mãe, mas não conseguia verbalizar isso. Eu às vezes falava: mãe, aconteceu alguma coisa, não tenho certeza, e tal, e minha mãe, acho que por ser mãe, e por medo de acreditar que um filho passou por isso, ela falou: ´Não, esquece isso e vai tocando a sua vida.´ E foi exatamente isso o que eu fiz. Eu fui tocando a minha vida, sempre que isso vinha na minha cabeça eu meio que falava para mim mesma que não tinha sido verdade, e ia vivendo. Mas chegou a um ponto, eu acho que quando você começa a amadurecer, a puberdade, namoro, beijo na boca, eu fui percebendo que tinha alguma coisa muito errada comigo e eu não sabia exatamente o que era. Todas as minhas amigas estavam namorando e eu não queria namorar de jeito nenhum, eu não queria usar brinco, eu cortava o cabelo feito menino, para não verem que eu era mulher."
Durante esse tempo, Joana viu seu desempenho cair e quase pensou em parar com a maior paixão de sua vida, que é nadar. Mas, quando resolveu, em 2008, revelar que havia sido molestada sexualmente pelo seu então treinador, conseguiu recuperar seu desempenho nas piscinas.
No ano seguinte, o Senado Federal aprovou um projeto de lei (PLS 234/2009) que estabelece que o prazo de prescrição de abuso sexual de crianças e adolescentes seja contado a partir da data em que a vítima completar dezoito anos. Este projeto encontra-se em análise na Câmara dos Deputados, e foi batizado pelos próprios parlamentares de Lei Joana Maranhão.
De Brasília, Bruno Angrisano