Reportagem Especial

A busca pela beleza - A polêmica em torno do sibutramina (06'37'')

22/03/2010 - 00h00

  • A busca pela beleza - A polêmica em torno do sibutramina (06'37'')

O que era uma das melhores drogas para emagrecer se transformou em polêmica.

A Agência Européia de Medicamentos recomendou a suspensão da venda de sibutramina, que é uma das drogas mais usadas para emagrecimento.

Depois disso, em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária enviou um alerta a médicos e farmacêuticos brasileiros. No Brasil, a sibutramina é uma das drogas mais negociadas no mercado ilegal.

A decisão do comitê europeu foi baseada em um estudo com 10 mil pacientes que mostrou aumento de 16% na incidência de enfarte e derrame em pessoas com histórico de problemas cardíacos e que tomaram o medicamento.

No ano passado, a Anvisa recebeu 37 notificações de eventos adversos do uso de sibutramina, sendo 14 relacionadas a problemas cardiovasculares. Mas nenhuma delas resultou em morte.

A endocrinologista Zuleika Halpern destaca que esse fato não é novo. Desde o lançamento da droga já se sabia que ela era contra indicada para pacientes com risco cardíaco elevado.

Segundo ela, o que pode ter motivado a recomendação européia é a falta de cuidado na prescrição.

"O que aconteceu é que essa droga já está no mercado há mais de dez anos e as pessoas começaram a diminuir o cuidado, como tudo na vida, né? Tem os médicos realmente sérios e tem aquelas pessoas que receitam medicamento pensando no resultado independente da saúde do paciente."

O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Ricardo Meirelles, afirma que com uma prescrição criteriosa, não há risco de que os paciente desenvolvam problemas cardíacos.

Ele descreve que os efeitos colaterais da droga são similares aos que ocorrem em outros remédios para emagrecer.

"Se a pessoa já tem uma doença cardiovascular prévia, ela tem uma contra-indicação formal para o uso desse medicamento, então ela não deve utilizá-lo. Os efeitos adversos mais comuns são os mais frequentes em tratamento para obesidade: boca seca, às vezes insônia, ansiedade, pode haver um pouco de taquicardia também, pode haver um ligeiro aumento de pressão arterial, dor de cabeça ocasionalmente."

Com a correria do cotidiano, Diana deixou de ir à academia. Mas ela queria perder um sobrepeso de seis quilos e foi a um médico, que depois de lhe pedir uma bateria de exames, prescreveu a sibutramina. Para ela, os efeitos incômodos aconteceram apenas no início do tratamento.

"A minha medicação não foi só a sibutramina, ele me passou um ansiolítico também. Nos primeiros três dias, fiquei muito agitada, parecia que eu estava ligada na tomada de 220 volts. Depois, esse quadro mudou. Três dias depois, eu estava bem mais tranquila e de lá pra cá eu não tenho sentido nada que tenha feito com que eu mude a minha rotina, que tenha me causado alguma alteração de humor."

Em três meses, Diana já perdeu os seis quilos. Ela diz que pretende seguir com a mudança de hábitos que a medicação lhe ajudou a fazer, e sabe que pode voltar a engordar se continuar a comer como antes.

No entanto, a sibutramina não é unanimidade entre as pacientes. Renata fez o tratamento com a droga e perdeu 20 quilos em três meses. Sem o remédio, engordou 25 quilos, também em três meses.

Ela conta que os médicos que procurou já tiravam a receita preenchida da gaveta.

"Cheguei a me consultar com outra médico também e não tem muita diferença. Eles vão e indicam a sibutramina junto com outro remédio que eu não lembro qual, mas é tipo um diurético e ele vira pra você e fala que em quinze dias você tem que aparecer no consultório cinco quilos mais magra."

A sibutramina aumenta a sensação de saciedade. Assim, a pessoa precisa comer bem menos do que o normal.

"É muito fácil porque a sibutramina realmente inibe seu apetite. No café da manhã, eu podia comer duas bolachas e um copo de café, e aquilo me satisfazia, até a hora que eu tivesse que comer de novo. Pra quem sofre com problema de peso, você vai emagrecendo muito rápido, pra gente é muito bom, todo mundo fala, ah você tá ficando magrinha, você tá ficando mais bonita, e isso vai te deixando melhor. Só que com o passar do tratamento eu tive muito efeito colateral."

Renata começou a ter lapsos de memória. Às vezes se perdia no meio da fala e chegou a desmaiar algumas vezes.

Então foi pesquisar sobre a substância e encontrou outros pacientes que tinham efeitos colaterais semelhantes. Mas o pior efeito foi voltar a engordar. Ela não pretende iniciar outra dieta com o uso de medicação.

O que Diana e Renata destacam é que o remédio não é tratamento para emagrecer. É apenas um auxílio, que pode funcionar para algumas pessoas, e ter efeitos ruins para outras. Por isso, é tão perigoso tomar medicação sem uma boa orientação médica.

Para o nutrólogo Marcos Sandoval, que há 30 anos trabalha com emagrecimento, nenhum médico tem condições de prescrever com segurança sem uma consulta detalhada e sem pedir exames ao paciente.

"Só depois que se junta essa anamnese, essa consulta médica, com os exames laboratoriais, que são individuais, é que se pode propor algum tratamento, saber o que essa pessoa pode usar, se deve usar, e o que é melhor para que ela possa atingir seus objetivos. Tomar remédio indiscriminadamente ou receitar indiscriminadamente é um erro."

Marcos Sandoval destaca também o que a maior parte das pessoas já sabe que o melhor emagrecimento vem da mudança de hábitos, escolhendo melhor os alimentos e fazendo atividades físicas com regularidade.

Na busca da beleza com saúde, essa é a fórmula mais indicada.

De Brasília, Daniele Lessa

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