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Reportagem Especial

Especial Marchinhas 3 - Os sucessos de João Roberto Kelly (08'50'')

08/02/2010 - 00h00

  • Especial Marchinhas 3 - Os sucessos de João Roberto Kelly (08'50'')

"Colombina, onde vai você?
Eu vou dançar o iê iê iê..."

Na lista dos grandes compositores das marchinhas de carnaval, estão mestres do porte de Lamartine Babo, Braguinha, Ary Barroso, Noel Rosa e João Roberto Kelly. O último deles ainda está vivo, lúcido e forte para contar detalhes hilariantes desse passado de ouro da música brasileira. O pianista, compositor e produtor musical João Roberto Kelly nasceu na zona portuária do Rio de Janeiro, em 1937, e cresceu embalado pelas mais famosas marchinhas da época.

"Quando eu era garoto, com meus 6 ou 7 anos, gostava muito de cantar com o meu irmão aquelas marchinhas dos anos 40, cantadas pelos Anjos do Inferno, pelos Quatro Ases e um Coringa, pela Linda Batista, pelo Orlando Silva. E eu gostava muito daquilo tudo. Depois, o tempo foi passando, eu fui me dedicando mais ao piano e fui compondo outro tipo de música, mas nunca me esqueci das marchinhas, que nasceram justamente quando eu estava dando os meus primeiros passos musicais".

Também inspirado em Lamartine, Braguinha, Haroldo Lobo e Roberto Martins, Kelly compôs dezenas de marchinhas satíricas e românticas, sempre falando sobre detalhes do cotidiano da população. Vem daí, talvez, a empatia do público com suas composições. Além da "Colombina iê iê iê", mostrada no início dessa matéria, a mulher também foi a inspiração para ele criar "Mulata iê iê iê".

"Mulata bossa nova
Caiu no hully gully
E só dá ela
Iê iê iê iê iê iê iê iê
Na passarela..."

"Foi um grande sucesso com Emilinha Borba, que justamente venceu o carnaval de 1965. ´Mulata iê iê iê´ foi uma música que fiz para uma miss Brasil, aqui no Maracanãzinho: uma negra venceu o concurso. Uma mulata muito bonita: Vera Lúcia Couto. Eu achei que aquela moça tinha um jeito diferente de pisar na passarela: estava mais perto do hully gully, quer dizer, das músicas que se usava nas discotecas, como o iê iê iê, o hully gully e o twist, do que de uma sambista".

E vocês sabiam que a clássica marchinha "Cabeleira do Zezé" é uma homenagem aos Beatles? Com a palavra, o seu autor João Roberto Kelly.

"É uma sátira à moda que os Beatles lançaram, porque os Beatles não influenciaram o povo apenas na música, influenciaram também na maneira de vestir, nas cabeleiras, no comportamento um tanto exótico demais".

"Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é
Será que ele é
Será que ele é bossa nova
Será que ele é maomé
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é..."

Um compositor sabe que sua música agradou ao público quando ela cai na boca do povo e ganha paródias ou complementos ainda mais irreverentes. Foi o caso de "Cabeleira do Zezé", cujas paródias costumam questionar a masculinidade de determinadas pessoas. João Roberto Kelly jura que não teve essa intenção.

"O pessoal é que fez essa brincadeira. A música é uma sátira aos cabeludos. Não mexe com a masculinidade de ninguém".

Kelly tinha excelente trânsito nas TVs das décadas de 1960 a 80. Com o comunicador Chacrinha, por exemplo, ele fez duas marchinhas famosas: "Bota Camisinha", usando a irreverência para chamar a atenção sobre a necessidade do uso de preservativos; e também "Maria Sapatão".

"É uma música que fala da liberação sexual e que fiz, com muita simpatia, justamente por essas bandeiras GLS, contra quem eu não tenho nada, muito pelo contrário. ´Maria Sapatão´ é uma música bastante atual. ´O sapatão está na moda / O mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / Dentro e fora do Brasil´. Então, viva ´Maria Sapatão´".

Entre os grandes sucessos de João Roberto Kelly está a marcha "Rancho da Praça 11", composta em parceria com o humorista Chico Anysio para homenagear um reduto do carnaval carioca, em 1965, quando o Rio completava 400 anos. A marcha-rancho foi gravada por Cauby Peixoto e também eternizada na voz de Dalva de Oliveira.

"Esta é a Praça Onze tão querida
Do carnaval a própria vida
Tudo é sempre carnaval
Vamos ver desta praça a poesia
E sempre em tom de alegria
Fazê-la internacional..."

Preciosidades como essa tornaram-se cada vez mais raras a partir dos anos 70 do século passado. O exuberante carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro passou a atrair mais o público, o investimento das autoridades, a atenção da mídia e a criatividade dos compositores. O lançamento de novas marchinhas ou marchas de rancho registrava queda expressiva ano a ano. O pesquisador musical Ricardo Cravo Albim explica o porquê.

"O repertório carnavalesco teve a sua opulência entre 1930 a 1960. Ele começa a se desmoralizar por duas razões. A primeira é porque chegaram os caititus, que eram compositores sem talento que compravam horários para impor as suas músicas chinfrins, verdadeiras babozeiras. E aí começou a diminuir a espontaneidade tanto dos sambas quanto das marchinhas carnavalescas. Logo depois, acontece o fenômeno das escolas de samba surgindo de uma maneira irreversível dentro do carnaval, trazendo um outro gênero musical - o samba de enredo -, que não tinha nada a ver com o samba tradicional de carnaval, muito menos com a marchinha de carnaval".

Outro pesquisador, Zuza Homem de Mello, também lamenta a mudança de repertório nos clubes durante o carnaval.

"Os bailes de carnaval não tocam mais música carnavalesca. Tocam só axé e coisas assim. E o pessoal delira. É o que eles querem ouvir. Isso não instiga a nenhum compositor a fazer marchinha".

"La-la-la-la-la-la...
Xiiiiiiiiiii..."

Esse quadro de decadência perdurou até o fim do século passado. Assim como "Ó Abre Alas" abriu o caminho para as marchinhas na virada do século XIX para o século XX, os anos 2000 chegaram, em tom nostálgico, revivendo os velhos carnavais e, ao mesmo tempo, revitalizando o repertório das marchas, em pleno século XXI.

João Roberto Kelly, obviamente, continua compondo novas marchinhas, embora em menor quantidade do que no passado. Com a irreverência de sempre, uma de suas mais recentes marchinhas imagina onde o homem mais procurado do mundo, Osama Bin Laden, poderia estar escondido.

"Bin Laden quaquaquá:
Me fala onde você está
Você tá sempre malocado
Sua casa ninguém nunca viu
Me disseram que voce esse ano
Vai passar o carnaval no Brasil..."

De Brasília, José Carlos Oliveira

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