Reportagem Especial

Programa Espacial Brasileiro: Histórico (08'14")

07/12/2009 - 00h00

  • Programa Espacial Brasileiro: Histórico (08'14")

O presidente Jânio Quadros ficou muito impressionado com o lançamento do primeiro satélite construído pelo homem, o soviético Sputnik, em 1957. No ano seguinte, pra não ficar para trás, os Estados Unidos reagiram e lançaram o Explorer 1. Impulsionado por essa maravilha da tecnologia, o Brasil criou sua primeira estação, como explica o físico José Leonardo Ferreira.

"O Brasil começou ainda no final da década de 50 já construindo pequenas estações no ITA, no nosso Instituto Tecnológico da Aeronáutica, lá foi construída a primeira estação para captar os sinais do Sputnik e do Explorer, ainda em 1957 e 58."

As pesquisas espaciais brasileiras se iniciaram de fato na década de 60, com a fundação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e com o estudo dos foguetes de sondagem feito pela Aeronáutica. O INPE seria o braço civil, focado nas aplicações como uso de imagens da Terra, telecomunicações e previsão do tempo. Já a Aeronáutica entrou na pesquisa dos foguetes e posteriormente do projeto de um lançador que pudesse colocá-los em órbita. O veterano Jayme Boscov trabalhou na agência espacial francesa, retornando ao Brasil na década de 70 com uma grande bagagem. Ele lembra que tudo teve de ser feito do zero.

"Mas na primeira fase, era uma fase de pioneirismo, não havia absolutamente nada. Nem parafuso adequado pra fazer um foguete de sondagem. Tudo isso foi desenvolvido, um aço de média resistência, propelentes, que também não tinha nenhum combustível realmente disponível. E tivemos muito sucesso com o foguete Sonda III."

No início dos anos 80, o Brasil lançou a sua Missão Espacial Completa. O INPE ficou com a construção dos satélites e a Aeronáutica teria de administrar os centros de lançamento e um veículo para lançar os foguetes que levariam os satélites. O primeiro campo de lançamento brasileiro foi a Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte. Posteriormente, houve a transferência para Alcântara, no Maranhão. E o foguete Sonda IV, o último da série dos foguetes de sondagem, deu origem ao projeto inicial do veículo lançador que o Brasil possui hoje. No entanto, a escassez de recursos chegou quando o projeto mais precisava, como rememora Jayme Boscov, que foi diretor do campo de lançamento de Alcântara.

"Em 85, com a passagem para o governo civil, o programa espacial foi praticamente abandonado. Ao invés dele ficar politicamente a cargo do governo, ele ficou só a cargo da Aeronáutica, de uma instituição. Aí caíram as verbas, dificuldades quando mais se precisava de um esforço para fazer um lançador de satélites."

A falta de dinheiro não foi a única dificuldade do Brasil. Na área espacial, não se compartilha conhecimento. Cada país precisa andar com suas próprias pernas. E mais do que isso, muitos países claramente impedem que outros desenvolvam tecnologia espacial, como destaca o Diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia da Aeronáutica, Brigadeiro Nicácio.

"Regra geral, os países que dominam a tecnologia, entre eles os EUA, eles evitam e até procuram muitas vezes impedir que essa tecnologia seja desenvolvida por terceiros países. Por razões estratégicas domésticas de cada um desses países, mas também com a visão comercial de não ter mais um concorrente dentro de um mercado que é extremamente promissor."

Enquanto a Aeronáutica tinha dificuldades em pesquisar justamente por ser um órgão militar e despertar a desconfiança dos EUA, o INPE escreveu uma página bem sucedida na aplicação da tecnologia espacial e na construção de satélites, como aponta o atual presidente do Instituto, Gilberto Câmara.

"Os primeiros programas de pesquisa que foram feitos no INPE são de sensoriamento remoto, uso de imagem de satélite para observação de agricultura e florestas, meteorologia por satélite, teleeducação e ciências espaciais. Só depois de 20 depois da fundação do INPE, ou quase 20 anos, 18 anos, que o Brasil começa a definir a construção de satélites. Foi quando começou a Missão Espacial Completa Brasileira."

Gilberto destaca que o INPE hoje é uma autoridade respeitada no fornecimento de imagens da Amazônia e de dados climáticos. Ele diferencia o trabalho do INPE dos projetos tripulados que a Aeronáutica desenvolve. Em 2006, o Brasil levou seu primeiro astronauta à Estação Espacial Internacional, o piloto de caça e engenheiro Marcos Pontes. Mas Gilberto critica esses projetos, que segundo ele, não trazem benefícios diretos para a população.

"Então a gente divide o programa espacial entre aquele que é mostrar, que é o prestígio nacional, que são os vôos de astronautas mas que não têm benefícios, e os vôos que não têm prestígio, não têm glamour, mas são os que realmente têm benefícios pra sociedade."

O astronauta Marcos atravessou um caminho árduo até chegar ao espaço. Ele conta que veio de uma família humilde e começou como aprendiz de eletricista. Iniciou a carreira na Aeronáutica como piloto e depois cursou engenharia no ITA. A preparação para ir ao espaço durou anos e demandou a mudança da família para os Estados Unidos. Até hoje Marcos Pontes apresenta sequelas físicas dos dez dias que ficou na Estação Espacial Internacional. Para ele, o melhor resultado da missão é o incentivo para que os jovens brasileiros mirem o seu exemplo e acreditem na educação como um caminho para o sucesso.

"O resultado da missão mesmo vai ser visto daqui trinta anos, quando eu provavelmente já tenha morrido ou muitas outras pessoas tenham morrido. Mas os jovens que estão hoje aqui e que veem nessa missão uma demonstração clara de que são capazes de fazer as coisas desde que se dediquem a isso, trabalhem, estudem e se sacrifiquem o suficiente e veem lá que se um eletricista aprendiz conseguiu fazer isso, eles conseguem também, acho que a maior demonstração é isso."

Hoje, o Programa Espacial Brasileiro tem inúmeras aplicações na vida das pessoas. Ele está nas telecomunicação que permitem a TV e o celular. Está na tecnologia de imagens que ajuda a agricultura, fornece dados sobre o desmatamento e sobre as fronteiras brasileiras. Está na previsão do tempo que também atua pesquisando eventos climáticos extremos que podem desabrigar milhares de pessoas. Está também na telemedicina, na possibilidade de fazer diagnósticos à distância. Por tudo isso, o Conselho de Altos Estudos da Câmara iniciou uma pesquisa sobre o Programa. O deputado Rodrigo Rollemberg, do PSB do Distrito Federal, vai apresentar um relatório no início do ano que vem, com sugestões de melhoria para o setor. Ele aponta que a sociedade e principalmente o Congresso Nacional, nem sempre avaliam a importância social de investir em tecnologia.

"E muitas vezes por falta de uma compreensão mais aprofundada e mais disseminada, especialmente no Congresso Nacional, que tem o poder de decidir, das inúmeras aplicações do programa espacial brasileiro, que tem consequências muito fortes na inclusão social de uma grande parte dos brasileiros."

Se colocar um satélite artificial no espaço admirou as pessoas na década de 50, hoje essa tecnologia é indispensável para que a humanidade tenha uma vida melhor, entendendo mais sobre os mecanismos da Terra e mantendo o mundo conectado pelos sinais dos satélites."

De Brasília, Daniele Lessa

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