Reportagem Especial

Álcool e outras drogas - O uso cresce no Brasil (06'53'')

30/11/2009 - 00h00

  • Álcool e outras drogas - O uso cresce no Brasil (06'53'')

O uso de drogas no Brasil atingiu proporcões de epidemia. Trata-se não apenas de um problema de saúde pública, mas também social.

Levantamento realizado pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes alerta para o elevado consumo de drogas nos países em desenvolvimento e mostra que o Brasil lidera índices preocupantes com o aumento do consumo de maconha e cocaína.

Já são mais de 4 milhões de usuários de maconha no país e cerca de 870 mil usuários de cocaína e seus derivados, como a merla e o crack.

O estudo divulgado no ano passado revela que o consumo dessas substâncias cresceu no país entre 2001 e 2005. O que mais preocupa autoridades e especialistas é que o início do consumo se dá cada vez mais cedo, em torno dos 12 anos.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, João Alberto Carvalho, adverte que quanto mais cedo o início do consumo de drogas, maiores as chances de dependência. O psiquiatra explica que os danos físicos e psicológicos nessa faixa etária são ainda mais graves.

"Na adolescência ocorre um período de transformação e maturação do sistema nervoso central e o uso de drogas nessa fase danifica sim e danifica de maneira irreversível essas áres e funções cerebrais. Além disso, esses jovens passam a ter prejuízo em suas capacidades intelectuais todas e quanto mais precoce o uso, maior o risco de dependência. Além desse elemento, é um período de formação da identidade, é um período onde o indivíduo se identifica com determinadas coisas do mundo que ele não tem acesso, é um período de altíssima vulnerabilidade social, de não estabelecimento claro de um senso crítico maduro"

David Edinger tem 35 anos e é um ex-dependente. Ele está limpo há um ano e dois meses. Sua experiência é um exemplo da vulnerabilidade na adolescência.

Sua história com a droga começou, segundo ele, por uma curiosidade, observando dois rapazes mais velhos da sua rua que usavam crack. Com a primeira experiência, veio o vício.

"Depois daqueles dias, em 1989, com 15 anos de idade, eu comecei a fumar o crack, e automaticamente eu comecei a ver a minha vida desmoronar, eu comecei a ver a minha família e meus amigos se afastarem de mim, comecei a ver meus sonhos profissionais, a minha educação, tudo indo por água abaixo"

Com a dependência, surgem outros problemas. O jovem fica mais suscetível a comportamentos violentos que começam em casa, mas podem levá-lo à criminalidade.

A juíza Maria Isabel da Silva, titular da Vara de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, afirma que em 90% dos casos de violência doméstica que ela recebe, os agressores estão sob efeito de substâncias entorpecentes.

Esse problema, segundo ela, atinge toda à população, independentemente de classe social. Ela cita um exemplo ocorrido em um bairro nobre de Brasília:

"Chegou uma senhora, do Lago Sul, com um neto que ela criou. Ela foi agredida pelo neto porque ele estava sob o efeito de substância entorpecente. Ela foi pedir que tirasse esse rapaz de casa. Tiro, coloco onde? Na rua. Não tem para onde encaminhá-lo. E, assim, são sucessivos casos de filhos mais velhos com uso de substância entorpecente que agridem a sua família, que agridem suas irmãs, sua mãe. Serão penalizados sim. Uma pena será imposta sim, mas vai resolver o problema da violência doméstica? Quer dizer, eu vou criar um problema para a sociedade. A partir do momento que eu retiro aquela pessoa que cria problema dentro de casa, a partir desse instante que eu jogo na rua, vai virar um problema social, quer dizer ele vai assaltar, ele vai matar"

A juíza observou que, quando se trata de família abastada, o caso pode ser encaminhado para tratamento numa clínica particular. Mas, quando a família é pobre, resta à Justiça uma única decisão: mandar o agressor para o cárcere.

Ela defende, como forma de prevenir o uso das drogas, a criação de creches e escolas púbicas em tempo integral para crianças e adolescentes.

Para o psiquiatra João Alberto Carvalho, além dessas medidas, a informação é ainda a principal forma de combater o problema.

"Esclarecimento em massa acerca dos riscos e dos danos e quebrar um pouco o glamour que se tem em relação a certas substâncias lícitas, o álcool, por exemplo. Quebrar certas ideias pré-concebidas de que algumas substâncias como maconha, por exemplo, são inócuas ou irrelevantes, não, é preciso esclarecer claramente e duramente e, sobretudo, promover saúde entre as famílias."

Ele lembra que a droga mais difundida no mundo ainda continua sendo o álcool. No Brasil, o consumo abusivo demonstra tendência de crescimento.

É o que apontou a pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, realizada no ano passado, pelo Ministério da Saúde, com 54 mil pessoas residentes nas capitais dos estados e no Distrito Federal.

De Brasília, Geórgia Moraes

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