Reportagem Especial

Monteiro Lobato: personagens e ideias polêmicas - bloco 2 (07'45'')

04/05/2009 - 00h00

  • Monteiro Lobato: personagens e ideias polêmicas - bloco 2 (07'45'')

Emília, a boneca de pano que tomou vida nas mãos de tia Nastácia, é espevitada. É respondona. É cheia de ideias. Emília é tudo o que as crianças e as mulheres não podiam ser no início do século passado, quando Monteiro Lobato escreveu suas primeiras histórias.

Mas, da turma do Sítio do Picapau Amarelo, não era somente Emília quem tinha ideias revolucionárias. As crianças Narizinho e Pedrinho tinham voz ativa. O Sítio era comandado por duas mulheres: Dona Benta e Tia Nastácia.

A jornalista Márcia Camargos, é doutora em história pela USP e biógrafa do Monteiro Lobato. Para ela, Emília é privilegiada, porque podia fazer coisas sem seguir os valores que uma pessoa normal seguiria.

"Ou seja, a Emília é a vanguarda do movimento feminista, em uma época que não se falava quase em feminismo. As mulheres não tinham direito a voto ainda, eram subjugadas, obedeciam aos pais e depois aos maridos, elas não tinham voz nem vez, muito poucas delas tinham. E eu vejo a Emília assim, um ser extremamente simbólico que vem colocar a mulher num lugar extremamente privilegiado da literatura brasileira, que extrapola inclusive da literatura infantil. Ela é maior do que isso."

Marisa Lajolo, Professora da Unicamp e secretária de Educação de Atibaia (SP), é uma escritora apaixonada por Monteiro Lobato. Ela destaca que os personagens de Lobato representam diferentes comportamentos das pessoas.

"A personagem que efetivamente se destaca aí é a Emília, como uma espécie de Menino Maluquinho da sua época. A Emília é irreverente, é bem-humorada, quer conhecer. Ela representa um ideal de criança extremamente crítico, que é um pouco o ideal mais do nosso tempo de hoje do que do tempo de Lobato. Mas eu acho que há um outro aspecto modelar na obra de Lobato que é a figura da Dona Benta. Aqui eu gostaria de sublinhar a figura da Dona Benta mais como educadora do que como avó. Como a obra do MOnteiro Lobato hoje tem uma circulação escolar muito grande, eu acho que vale a pena frisar esse aspecto. Como a D. Benta é uma mediadora de leitura, é a pessoa que introduz as crianças no mundo da cultura, da arte, da ciência, de tudo isso."

A atriz Isabelle Drummond tem 15 anos e interpretou Emília no Sítio do Picapau Amarelo de 2001 a 2006. Ela diz que, na época que interpretava Emília, era agitada como a boneca. Isabelle Drummond revela que se identifica muito com a sinceridade de Emília.

"Ela era franca, falava o que ela achava do mundo e das pessoas ela falava, sem medo... Hoje em dia a gente tem que levar tudo na boa pq pode ofender as pessoas, tem que controlar os pensamentos e as palavras, sempre. A Emília não controlava nada."

Já a menina Sarah Teixeira, de 12 anos, leitora de Monteiro Lobato, admira a capacidade de Emília de resolver problemas.

"Eu acho muito bacana, pq muita gente tem seus problemas e acha que estão no fundo do poço e não tem mais solução e ela mostra que sempre que você buscar, se você acreditar mesmo vc consegue, você vai conseguir achar a solução pra esse problema. Então eu acho muito legal isso, pq ela incentiva as pessoas a acreditarem em si mesmas e de que é possível fazer o que você realmente deseja e acredita".

Monteiro Lobato reiventou em suas histórias personagens do Folclore brasileiro. Quem não se lembra da gargalhada da Cuca?

Mas foi o negrinho Saci Pererê o principal personagem que Lobato resgatou das lendas brasileiras e trouxe para a realidade do século 20. Você acredita que ele é tão famoso, que existe uma Sociedade de Observadores do Saci?

O pesquisador, jornalista e especialista em saci, ou saciólogo, Vladimir Sacchetta é um integrante da Sociedade dos Observadores de Saci.

Eles se reunem para divulgar não apenas o saci, mas todo o folclore e lendas nacionais. Para Vladimir, o saci é a síntese do homem brasileiro.

Ele explica que o saci nasceu de uma lenda indígena, no sul do Brasil. Naquela época, tinha cor de índio. Com a chegada dos escravos africanos, ele tornou-se preto e ganhou o seu inseparável cachimbo, ou pito, de barro. Mais tarde vestiu o gorro vermelho que chegou na bagagem dos imigrantes europeus. E tudo o que diz respeito a saci passa longe do politicamente correto, destaca Vladimir Sacchetta.

"A gente não pode aplicar a ideia de politicamente correto numa obra que Lobato escreveu na década de 20, 30. O politicamente correto vai mudando com o passar do tempo. Outro dia a gente fez uma brincadeira no site dizendo que o fumo faz mal para os seres humanos, não para um mito como um saci. Isso para descartar a ideia que se ele pita aquele cachimbo de barro está sendo politicamente incorreto. Na brincadeira, a gente está dizendo o seguinte: o mito é o mito, o homem é o homem."

Jeca Tatu é o caipira criado por Monteiro Lobato em Urupês, livro baseado no trabalhador rural paulista. Simboliza a triste situação do caboclo abandonado pelos poderes públicos. Lobato chamava Jeca Tatu de piolho da terra, parasita, alienado e inadaptável à civilização, mas que vivia à sua sombra.

Com o tempo, depois de observar que os caipiras eram barrigudos e preguiçosos por causa de doenças e não por opção, Lobato mudou as características do Jeca Tatu. Em novas histórias, o caipira já conseguia curar sua doença e ficar rico. Mesmo assim, não deixou de ser acusado de preconceituoso. Mas isso é história para o Reportagem Especial de amanhã.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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