Reportagem Especial

Monteiro Lobato: personagens e ideias polêmicas - bloco 3 (06'55'')

04/05/2009 - 00h00

  • Monteiro Lobato: personagens e ideias polêmicas - bloco 3 (06'55'')

Nos Estados Unidos, uma mulher disputa a eleição para presidente da república com um homem negro. O homem negro acaba ganhando as eleições. Apesar do que você pode estar pensando, isso não é um resumo das últimas eleições norte-americanas, com a vitória de Barack Obama.

Isso é o enredo de um livro visionário de Monteiro Lobato escrito em 1926. Quem resume melhor a história do livro "O Presidente Negro" é a jornalista Márcia Camargos, doutora em história pela USP e biógrafa do Monteiro Lobato.

"O personagem, no Rio de Janeiro, na serra fluminense, sofre um acidente automobilístico e acorda num castelo do professor Benson, que no fundo era um grande laboratório onde ele tinha descoberto o porviroscópio, que era uma máquina, um aparelho de enxergar o futuro. E ali ele começa a ver vários acontecimentos que vão se desenrolar ao longo do tempo, coisas muito atuais, como por exemplo, a questão da rede de computadores, que ele diz que um dia o homem vai aposentar a roda e vai irradiar de casa o seu trabalho por uma central, como a gente faz com o computador hoje. O que mais me impressionou foi a grande luta, a grande batalha que ele viu, nos Estados Unidos, quando houve uma disputa entre uma mulher branca e um presidente negro, a exemplo do que houve entre a Hillary Clinton e o Obama."

Os Estados Unidos imaginados por Lobato no futuro continuavam a ter leis de segregação racial, que impediam, por exemplo, que negros utilizassem o transporte público ao lado de brancos. Quando o negro vence as eleições, os brancos imediatamente se unem para montar uma conspiração.

Eles inventam um alisador de cabelos que torna os negros estéreis. Por emplacar no livro algumas ideias eugenistas, contrárias à miscigenação de raças, Lobato foi, e ainda é, acusado de racista.

A jornalista e historiadora Márcia Camargos contesta essa ideia. Ela destaca que o Lobato dá voz ao negro ao longo do livro, relembrando a exploração sofrida por eles desde a época da escravidão.

E considera o livro um grito contra a aculturação dos negros, porque Lobato mostra como a comunidade negra é obrigada a assumir os valores étnicos dos brancos, em detrimento da sua ascendência africana.

No livro, os negros se submetem voluntariamente a um processo de despigmentação da pele, para se tornarem brancos.

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo lembra que o livro começou a ser comentado depois da coincidência com a eleição de Obama. Mas Toledo considera que a obra caminha numa direção oposta.

"Invés de proporcionar a ascensão do negro e uma espécie da superação da questão racial, que é o que se propõe, é o que se propunha a cadidatura Obama, o que ele faz é acirrar a disputa entre brancos e negros e terminar com o fracasso estrondoso dos negros."

Monteiro Lobato era um nacionalista. Além de escritor, ele se engajava em campanhas a favor de interesses do Brasil.

Lobato, por exemplo, defendeu o petróleo nacional tão avidamente que acabou na prisão por causa disso. Ele queria a todo o custo convencer o povo da importância de empreendimentos petrolíferos no Brasil, um país, na época rural e totalmente agrícola.

Em 1940, em plena ditadura, Lobato, escreveu uma carta ao presidente Vargas, destacando a displicência do governo com relação ao petróleo brasileiro.

Ele criticou a demora do Conselho Nacional do Petróleo em criar uma companhia petrolífera nacional, criticado o favorecimento a empresas estrangeiras.

Por esta carta, Monteiro Lobato foi julgado e condenado à pena de seis meses de prisão por crime contra a segurança do Estado e a ordem social, por injuriar os poderes públicos. Foi para a cadeia em março de 1941.

A historiadora Márcia Camargos conta que, depois de sair da prisão, Monteiro Lobato enviou uma carta para o presidente.

"Saindo da cadeia ele mandou uma carta dizendo que passou dias memoráveis ali dentro, comendo e dormindo a custa do Estado, o melhor de tudo, sem medo de ser preso, porque já estava preso, e falando que ali dentro ele conviveu com gente, fascínoras que assassinaram a família inteira, réus confessos, mas que eram seres humanos de muito maior qualidade e muito melhores do que a maioria dos políticos que estavam do lado de fora, governando o país naquele momento. Ou seja, você pode imaginar que essa carta não agradou nem um pouco os governantes daquela época."

Márcia Camargos resume o sentimento nacionalista de Lobato.

"Ele tinha certeza absoluta de que havia óleo combustivel em terras brasileiras, que nós poderíamos nos tornar autossuficientes algum dia, como de fato ocorreu. Através da Petrobras nós já somos autossuficientes, mas de fato ele estava procurando no continente, porque não havia ainda tecnologia para essas plataformas em alto mar, etc. Ele tentou criar a indústria siderúrgica. Ele se voltou para várias frentes, sempre tendo em mente que o Brasil - que na época dele era um país ainda agrário, sem grandes recursos, com uma distribuição de renda muito pior do que existe hoje - ele não se conformava com isso. Ele acima de tudo era um brasileiro que gostava demais do país dele. Então ele queria transformar isso numa nação desenvolvida e com distribuição de riqueza."

Polêmico, nacionalista, intransigente. Monteiro Lobato vai além dos rótulos. Em seus 66 anos de vida, Lobato conseguiu formar gerações de leitores. Quem resume a importância dos livros é a menina Sarah Teixeira, de 12 anos, que apresentou recentemente em sua escola um teatro sobre Monteiro Lobato.

"A gente ensinou as crianças que com os livros a gente podia viajar para vários lugares, aprender várias coisas."

Como dizia Lobato, um país se faz de homens e livros.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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