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Reportagem Especial

Cadastrar-se como doador de medula óssea é simples - Bloco 4 (07'52'')

  • Cadastrar-se como doador de medula óssea é simples - Bloco 4 (07'52'')

Cadastrar-se no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea - REDOME - é um procedimento simples e rápido, assegura o Instituto Nacional do Câncer. Esse cadastro pode ser feito nos hemocentros, com a retirada de uma simples seringa de sangue. Como eu sempre quis ser doadora de medula óssea, a elaboração dessa reportagem foi a oportunidade perfeita para comprovar a facilidade de cadastro no Redome. Cheguei ao Hemocentro de Brasília às 9 horas da manhã de um dia de semana comum. Entrei na fila e fui chamada. Ao informar ao atendente que eu queria ser doadora de medula óssea, ele pegou uns folhetos informativos sobre o procedimento e me entregou. Perguntou dados básicos, como endereço, telefones e outros contatos pessoais. E me mandou esperar em outra sala até que me chamassem pelo nome. Depois de aguardar um tempo, com direito até a lanchinho, chamaram o meu nome e entrei na sala onde estavam deitados os doadores de sangue. O rapaz retirou uma seringa de meu sangue e falou que eu já poderia sair. O tempo que passei no hemocentro foi de 40 minutos. O procedimento é realmente simples e rápido. Mas não observei UM cartaz sequer sobre doação de medula óssea no hemocentro, enquanto havia vários outros incentivando a doação de sangue. Pelos folhetos que recebi, fiquei sabendo que, caso seja encontrado um paciente compatível comigo, serei contactada e convidada a doar a medula óssea.

O transplante de medula óssea é a única esperança de cura para vários tipos de câncer. Foi o caso de Luciana Perez da Silva que hoje tem 32 anos de idade, mas aos dez, teve o diagnóstico de que sofria de leucemia mieloide aguda. Luciana teve a sorte de não precisar recorrer a um banco de medula óssea: o irmão era compatível e doou medula óssea para ela. Hoje, Luciana leva uma vida normal e sabe que deve tudo àquela doação.

"Saber que o meu irmão pôde e podia doar, e doou a medula para mim, é como se a vida estivesse falando assim para mim: 'estou te dando uma chance para você viver'."

Luciana teve a sorte de encontrar um doador na família, mas uma amiga de infância infelizmente não teve a mesma chance. Ela conta que sua amiga não encontrou ninguém compatível no banco de medula óssea e faleceu devido à doença. Isso tudo fez de Luciana uma fervorosa defensora da doação de medula óssea.

"Sempre que eu tenho a oportunidade de dizer para as pessoas o quão é importante a pessoa se cadastrar no banco, porque se cadastrar não quer dizer que vai encontrar alguém um dia para você doar, mas você sabe que sua contribuição está ali, e que você é a vida de alguém. Você pode vir a ser o doador de vida de alguém."

Outra fervorosa defensora da doação de medula óssea é Valdília Amorim Toledo. Valdília mora em Caxambu, cidade do Sul de Minas Gerais, e é mãe de Elaine Cristina, hoje com 28 anos. No ano 2000, Elaine começou a ter dores nas pernas e sangramento nas gengivas. O diagnóstico obtido no Rio de Janeiro foi duro: leucemia mielóide crônica. Valdília diz que, na época, não havia tratamento específico e só um transplante de medula representava a salvação para sua filha. Mas eles não encontraram doador compatível nem na família, nem no REDOME, que tinha apenas 35 mil doadores cadastrados na época. Com essa realidade, Valdília arregaçou as mangas e começou uma campanha pela sua filha para conseguir mais e mais doadores de medula óssea.

"Então eu comecei a organizar as campanhas e levava os doadores de medula óssea para o Hemocentro do Rio, o HemoRio. Fazia lotação de ônibus, e aqui em Caxambu, tinha época que saía 3 ônibus para o HemoRio, para o Rio de Janeiro. E nada de achar um doador compatível com Elaine, porque a tipagem dela era muito difícil, não achava. Então foi feita uma pesquisa no exterior, e conseguimos, através do Redome, do registro de doadores, um cordão para Elaine. E na época, o cordão não era totalmente compatível, era 4 por 6, então Elaine só tinha 20% de chance do transplante dar certo."

Ao encontrar um doador no exterior, Elaine recebeu o transplante de medula em 2004, quando já estava muito debilitada. Mas deu tudo certo, Elaine se curou, e 5 anos depois, não tem nenhum vestígio da doença. Mas, desde a descoberta da doença, no ano 2000, até a doação da medula, em 2004, foram dias de muito cansaço e desespero, conta Valdília. Com a campanha que fez, Valdília comemora ter levado mais de 15 mil doadores de medula óssea para o Rio de Janeiro. Hoje, os doadores mineiros não precisam mais se deslocar ao Rio de Janeiro, podendo fazer doações através da Hemominas, presente em várias cidades do estado.

Valdília destaca que todo tratamento e busca de doadores, inclusive o sangue de cordão umbilical compatível encontrado na Inglaterra, foi custeado pelo SUS, através do Instituto Nacional do Câncer. Valdília não tem uma única crítica ao tratamento.

"Lá no Rio de Janeiro, o tratamento, a pesquisa, no Instituto do Câncer, eu não posso falar nada, porque hoje a minha filha está curada, continua indo lá no Rio para fazer tratamento ainda, tudo pelo SUS, o transplante é pelo SUS. Hoje, os doadores que são registrados pelo SUS, o SUS banca a estadia, a passagem do doador, em dezembro um doador do sul de minas foi fazer a doação em São Paulo, eles bancaram tudo, a estadia, acompanhante e a passagem."

Luís Fernando Bouzas, diretor do centro de transplante de medula óssea do Instituto Nacional do Câncer - Inca, destaca que o sistema brasileiro é um dos maiores serviços públicos de transplante de medula óssea do mundo.

"Porque toda a atividade de transplante de medula que acontece no Brasil, de toda atividade, 90% é custeada pelo SUS. Todo sistema de busca, tanto nacional, quanto internacional de doadores, é custeado pelo SUS. Todo cadastro de doadores no Redome é custeado pelo SUS. Se não existir doador no Brasil, nós temos recursos para buscar doador em qualquer parte do mundo, onde ele estiver."

São realizados no Brasil, por ano, uma média de 1.700 transplantes de medula óssea, sendo que 10% deles são feitos com doadores não-aparentados, ou seja, com busca nos bancos de medula óssea. Dr. Bouzas explica que, na rede privada, praticamente só são realizados transplantes autólogos, ou seja, quando a pessoa utiliza sua própria medula.

De Brasília, Adriana Magalhães.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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