Reportagem Especial

Especial Doenças 4 - Dengue e malária, doenças transmitidas pela picada de mosquitos (07'44'')

07/04/2008 - 00h00

  • Especial Doenças 4 - Dengue e malária, doenças transmitidas pela picada de mosquitos (07'44'')

AS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS SÃO AQUELAS QUE OCORREM PRINCIPALMENTE EM PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO. NA REPORTAGEM ESPECIAL DE HOJE, VAMOS CONHECER UM POUCO MAIS SOBRE A DENGUE E A MALÁRIA, DOENÇAS TRANSMITIDAS PELA PICADA DE MOSQUITOS.

Somente nos três primeiros meses de 2008, a dengue atingiu 120 mil 570 pessoas no Brasil. Mais de 600 casos foram de dengue hemorrágica e o Ministério da Saúde confirma 48 mortes. Comparado ao mesmo período do ano passado, houve uma redução de 27 por cento no número de casos no Brasil. Mas em alguns estados, o aumento da dengue foi grande: no Amazonas, neste período do ano passado foram 282 casos. Em 2008, já foram mais de três mil. O estado do Rio de Janeiro notificou mais de 43 mil casos, 36 por cento do total de casos de dengue no Brasil. Somente na cidade do Rio de Janeiro, mais de 28 mil pessoas tiveram dengue nos primeiros três meses do ano.

Todo ano, na época de chuvas, é a mesma história: o mosquito da dengue ataca os brasileiros, as autoridades se atacam mutuamente e a população deixa de fazer sua parte, permitindo que o mosquito se multiplique em vasos de jardim e outros objetos que propiciem o acúmulo de água. Até três décadas atrás, a dengue era considerada uma doença do passado. O pesquisador do Núcleo de Medicina Tropical da UnB, Pedro Luiz Tauil, revela que o Brasil e mais alguns países das Américas conseguiram eliminar o mosquito Aedes Aegypti no início do século passado. O último episódio registrado da dengue no Brasil havia sido em 1923. Mas, como alguns países vizinhos não eliminaram o mosquito, ele reinfestou novamente toda a América, com exceção do Chile e do Canadá. Em 1976, a dengue reapareceu no Brasil, no porto de Salvador. Em 1981, voltou a ocorrer a primeira epidemia de dengue no país, em Roraima, depois de quase sessenta anos. Grandes epidemias aconteceram no Rio de Janeiro em 1986, 1990, 2002 e agora em 2008. Para o professor Pedro Tauil, a forma descentralizada com que o Brasil trata seus problemas de saúde faz com que a dengue apareça com força todos os anos. Isso porque o Ministério da Saúde é apenas um dos responsáveis pelo controle da doença, dividindo a responsabilidade com estados e municípios. O problema é que os municípios são muito diferentes uns dos outros, destaca o professor Tauil.

"Está se tratando, na verdade, coisas diferentes como se fossem iguais. Então em alguns municípios, os prefeitos mantêm o pessoal, outros quando muda prefeito, troca todo mundo, treina novamente. Tem município que não dá bola para o mosquito. Existe uma diversidade muito grande de efetividade dos programas. Alguns programas são bons, outros são ruins. Próximo do Rio temos Niterói. Niterói tem um programa já há muitos anos muito melhor do que o Rio. E não está tendo os níveis de incidência da doença iguais aos do Rio."

O professor Pedro Tauil diz que o Rio de Janeiro tem problemas que vão além das rixas administrativas, em que a prefeitura não se entende com os governos estadual e federal. Ele diz que as favelas dentro da cidade contribuem para a proliferação do mosquito, pela dificuldade de atuação dos agentes de saúde. Por isso cerca de quarenta por cento das casas não são examinadas. Além disso, o clima e a geografia do Rio de Janeiro contribuem para a disseminação da doença, como temperatura elevada e umidade alta o ano todo, muita chuva, além de estar situada ao nível do mar. Por enquanto, a dengue não tem vacina, por isso somente os sintomas dos doentes são tratados. Como a dengue tem quatro sorotipos diferentes, o professor Pedro Tauil diz que a vacina é difícil. Mas existe uma perspectiva de vacina tetravalente, que combata igualmente os quatro sorotipos.

Os centros de saúde de São José do Rio Preto, em São Paulo, e de Macaé, no Rio de Janeiro, estão receitando e distribuindo um medicamento homeopático que ajuda no combate aos sintomas da dengue. De acordo com informações das prefeituras que já utilizaram o medicamento, a febre dos doentes dura menos tempo e é mais baixa, depois do uso da medicação.

Outra doença típica de países tropicais, a malária mata uma criança a cada trinta segundos no mundo. Ela está presente em mais de cem países e ameaça quarenta por cento da população mundial. A cada ano, quinhentos milhões de pessoas são infectadas, a grande maioria delas na África, e dois milhões de pessoas morrem dessa doença. Ela é causada por protozoários transmitidos pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, que se reproduz em regiões que combinam calor, umidade e vegetação. No Brasil, a malária concentra seus casos na região amazônica, sendo que, em 2005, foram notificados aproximadamente 600 mil casos de malária, com 88 mortes. O coordenador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico de Saúde da Fiocruz, Carlos Médicis Morel, diz que o mosquito ficou resistente ao inseticida.

"Tem sido combatida, no começo, com um medicamento que no começo era supereficaz, a cloroquina. A cloroquina era um medicamento barato, custava dez centavos de dólar, era facilmente encontrado, era a grande arma contra a malária. Mas, como aconteceu com o DDT, começou a aparecer resistência do plasmódio, do parasita da malária. Que começou a não se importar mais com o remédio, o remédio começou a não fazer mais efeito. Isso levou a um recrudescimento da malária muito intenso, porque em algumas regiões a cloroquina já não faz o menor efeito."

Dessa forma, buscou-se uma alternativa ao inseticida, e hoje o tratamento se reduz a uma combinação de dois medicamentos. Existem pesquisas também na busca de uma vacina para a doença. Entretanto, o diretor geral do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais em Rondônia, Luiz Hildebrando Pereira, não acredita numa vacina contra malária a curto prazo, por causa da complexidade do parasito.

"Ao contrário, nós achamos que é possível controle de malária sem necessidade de vacina. O que não é o caso, provavelmente, da situação africana. Mas para a situação brasileira, nós temos condições de fazer o controle da malária sem ter necessidade de vacina, e eu pessoalmente não acredito muito na possibilidade de vacinas para efeito de controle de malária em áreas endêmicas, no momento atual. Acho que é um tema que ainda vai exigir muita pesquisa."

A melhor forma de controle da malária, para o professor Hildebrando, é utilizar métodos conhecidos de diagnóstico, controle vetorial e tratamento. Ele acha que é necessário aplicá-los com mais rigor e mais recursos.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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