Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Religiosidade 3 - Como a religião se relaciona com Poder, Política e Mídia (06'19")

  • Especial Religiosidade 3 - Como a religião se relaciona com Poder, Política e Mídia (06'19")

NESTA TERCEIRA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE A RELIGIOSIDADE DO BRASILEIRO, VOCÊ VAI VER COMO A RELIGIÃO SE RELACIONA COM O PODER, A POLÍTICA E A MÍDIA.

O vínculo da igreja católica com a Coroa Portuguesa fez com que religião e política mantivessem relação íntima desde o descobrimento do Brasil, em 1500. Aos poucos, as religiões indígenas perderam terreno diante da forte catequização dos jesuítas. Só a partir da proclamação da República, em 1889, Estado e igreja se separaram formalmente. A relação continuou estreita, mas alternando momentos de aproximação e de tensão. Recentemente, os evangélicos começaram a traduzir o crescimento numérico em presença política, sobretudo no Parlamento. Chegaram a contar com uma bancada de quase 60 deputados na Câmara. Atualmente, a Casa abriga a Frente Parlamentar Evangélica e a Comissão Pastoral Parlamentar Católica. O cientista político e sociólogo Joanildo Burity, da Universidade Federal de Pernambuco, associa a ascensão política dos evangélicos à necessidade de representação dos grupos sociais mais identificados com o protestantismo.

"A efervescência política dos grupos religiosos, muito puxada nos últimos anos pela presença bastante intensa dos evangélicos na política, é a expressão de um processo de intensificação política na sociedade brasileira e de grupos que historicamente estiveram à margem do processo, não foram socializados na cultura de elite do país."

"Deus (apareça na televisão)", c/ gil
"Deus, por favor, apareça na televisão
Deus, por favor, apareça na televisão"

A mídia também se transformou em alvo das religiões majoritárias. Católicos e evangélicos difundem suas crenças no rádio e na TV e ainda contam com seus próprios jornais, livrarias e gravadoras de disco. Recentemente, surgiu o GodTube, um site de vídeos que prega os ensinamentos cristãos, nos mesmos moldes do portal de internet YouTube.

O professor de sociologia da UFRJ, Alexandre Brasil, vê legitimidade nessa ocupação de espaços políticos e midiáticos por parte da religião.

"Há uma presença religiosa ativa e um espaço significativo nos meios de comunicação: é um tema que vende matéria, interessa as pessoas e traz relevância para se pensar a sociedade, tanto na política, como na mídia e na questão dos valores."

Mas tudo isso custa caro e é alimentado principalmente pelos fiéis. O estudo "Economia das Religiões", feito pela Fundação Getúlio Vargas, constatou que as igrejas católicas e evangélicas faturam 3 bilhões e 700 milhões de reais por ano com o dízimo e as doações financeiras que recebem de seus seguidores. O valor médio de contribuição de cada fiel é de pouco mais de 16 reais por mês, segundo a FGV.
O Observatório da Imprensa, veículo jornalístico de análise permanente da mídia, critica a presença ostensiva da religião na política e nos meios de comunicação. O editor do Observatório, Alberto Dines, argumenta que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas oferecidas pelo Estado, que é laico, ou seja, sem ligação oficial a qualquer credo.

"A invasão das seitas religiosas na mídia eletrônica e a politização dessas seitas agridem algumas cláusulas fundamentais da nossa Carta Magna. Numa democracia verdadeira, as questões da fé não devem se misturar com a política e a mída deve servir a todos, tanto aos crentes, como aos discrentes."

Apesar das críticas à popularização dos ritos e à proliferação das rádios e TVs de conteúdo exclusivamente religioso, o cientista político Joanildo Burity não vê problemas no uso da mídia por parte das igrejas, desde que se mantenha o poder de escolha do público em geral.

"Numa sociedade, formalmente democrática e extremamente plural do ponto de vista cultural, ideológico e político, é muito difícil imaginar que os grupos não tentem se organizar e ocupar os espaços de visibilidade que hoje têm valor e peso social. A mídia é um desses espaços."

A difusão eletrônica da religiosidade vem imprimindo fortes transformações nos ritos. Músicas sacras, como o canto gregoriano ou o gospel tradicional, já dividem espaço com outros ritmos bem mais populares, que têm ajudado católicos e evangélicos a aumentar o número de seguidores. Ninguém mais estranharia, por exemplo, ouvir um "pagode de Deus" numa missa ou num culto...

"Quem é de Deus", c/ Grupo Revelação
"Quem é de Deus, quem é de Deus
não tem inimigo
Quem é de Deus, quem é de Deus
não corre perigo
Quem é de Deus, quem é de Deus
é bem sucedido
Quem é de Deus, quem é de Deus
por ele é protegido"

Ou o som brasileiríssimo e popular do forró ditando o ritmo da fé evangélica...

"Dia de milagres", c/Fernandes Lima (RR Soares)
"Alô povo de Deus
Venha comigo se alegrar
Hoje é dia de festa
Deixe a tristeza de lado
e vamos todos cantar..."

Ou ainda o suingue das discotecas dos anos 70 para entoar o “Iê, Iê, Iê de Jesus"...

"Iê, Iê, Iê de Jesus", c/ Marcelo Rossi
"E Jesus merece o melhor
Nós vamos louvar, Iê, Iê
Iê, Iê, Iê, Iê...
Uou, Ou, Ou..."

De Brasília, José Carlos Oliveira

AMANHÃ, A QUARTA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE RELIGIOSIDADE DISCUTE OS CASOS DE INTOLERÂNCIA E DE VIOLÊNCIA LIGADOS À CRENÇA. ESPECIALISTAS DIZEM QUE OS ATEUS E OS SEGUIDORES DOS CULTOS AFROS SÃO OS MAIS PERSEGUIDOS NO BRASIL.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

facebook twitter spotify podcasts apple rss

Todas as Edições