Reportagem Especial
Especial Transplantes 2 - O que é morte encefálica (06'56")
19/11/2007 - 00h00
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Especial Transplantes 2 - O que é morte encefálica (06'56")
NA SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS DESTA SEMANA, VOCÊ ACOMPANHA CINCO MATÉRIAS SOBRE OS TRANSPLANTES NO BRASIL. NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS, O NÚMERO DE DOAÇÕES DE ÓRGÃOS FOI DIMINUINDO, LEVANDO MÉDICOS E PACIENTES NA FILA A SE MOBILIZAREM MAIS UMA VEZ EM CAMPANHAS DE ESCLARECIMENTO SOBRE O ASSUNTO. HOJE, VOCÊ ACOMPANHA QUAIS OS MITOS E VERDADES SOBRE A MORTE ENCEFÁLICA. MÉDICOS EXPLICAM COMO O PACIENTE MORRE AINDA COM O CORAÇÃO BATENDO. VOCÊ VAI CONHECER TAMBÉM A HISTÓRIA DA EMPRESÁRIA ANTONIETA KINKER, QUE AUTORIZOU A DOAÇÃO DOS ÓRGÃOS DO FILHO QUE MORREU AOS 17 ANOS.
Nos dias de hoje, muitas pessoas já ouviram falar da morte encefálica, mas algumas dúvidas ainda persistem. A grande pergunta das famílias que passam pela situação é saber se não existe uma possibilidade, ainda que mínima, daquela pessoa voltar a acordar. A morte encefálica acontece quando o cérebro morre, e nesses casos a parada cardíaca é inevitável. O paciente só continua respirando e com os órgãos em funcionamento porque está conectado a aparelhos, mas em poucas horas nem os aparelhos irão conseguir manter a pessoa viva. O coordenador da equipe de captação de órgãos do hospital de clínicas de Campinas, Hélder Zambelli, destaca que a morte encefálica é completamente diferente do coma, pois a lesão cerebral é irreversível. Ele aponta que os testes realizados nos pacientes não deixam dúvida sobre o diagnóstico.
"É um processo que o encefálo perdeu as suas funções de modo que não pode voltar mais. É diferente de um coma profundo, aonde se pode ter perdido as funções encefálicas mas de um modo que ainda se possa fazer uma reversão desse processo. E é muito claro e bastante objetivo o diagnóstico de morte encefálica, essa diferenciação é muito clara do ponto de vista técnico médico."
A presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, Maria Cristina de Castro, explica que, na média, cerca de 35% das famílias brasileiras abordadas recusam a doação. Existem países com índices melhores, como a Espanha, mas também locais aonde a rejeição à doação chega a 60%. Maria Cristina destaca que, mesmo recebendo informações, normalmente as famílias esperam por um milagre que traga o paciente de volta à vida. Para ela, o ideal é que as pessoas conversem sobre sua vontade com os familiares.
"Nenhum paciente nunca saiu de um quadro de morte encefálica, que morte encefálica é morte e que em algumas horas aqueles órgãos todos vão parar de funcionar e que só estão funcionando porque estão sendo mantidos artificialmente. O que mais incomoda as famílias é a idéia que pode acontecer um milagre. Se aquela família já tiver conversado em casa sobre esse assunto, se aquela pessoa já tiver dito que se acontecer comigo eu quero ser doador, isso ajuda muito a família a tomar a decisão. Mas a maioria das pessoas não fala sobre esse assunto, então a maioria das famílias não sabe qual era a vontade daquele doador."
Em sua experiência acompanhando pacientes e familiares, Maria Cristina conta que as equipes médicas procuram passar para as famílias que, quando a doação é autorizada, uma semente de vida da pessoa que morreu pode permanecer.
"Nós temos muitos transplantados que comemoram o aniversário duas vezes por ano, no dia em que nasceram e no dia em que foram transplantados. Realmente é a sensação de você estar dando uma nova vida para alguém. É isso que a gente tenta passar para as famílias que autorizam a doação. E as que autorizam ficam com essa sensação mesmo, de que aquela pessoa foi, mas que ela deixou uma semente, uma parte dela ainda está possibilitando a vida de alguém."
Madrugada do dia nove de novembro de 2001. Toca o telefone da empresária Antonieta Kinker. Dois dias antes, seu filho Ivan, de 17 anos, tinha tido um aneurisma cerebral que evoluiu para a morte encefálica. Naquele momento seria iniciada a cirurgia para a retirada dos órgãos do rapaz.
"Quando foi cinco e quinze da manhã, a médica me liga informando que estava iniciando a cirurgia. Foi a hora que eu realmente senti que meu filho tinha morrido, porque até o último instante você fica naquela expectativa, naquela ansiedade, ah não, não acontece, não é nada disso... é aquele sonho que a gente tem."
Antonieta conta que Ivan era o mais ativo dos seus três filhos, ele raramente adoecia. O caçula, com 1,97 de altura, loiro de olhos verdes, fazia natação, teatro, tocava teclado e estudava processamento de dados. Entre chegar do estágio com queixa de dor de cabeça no final da tarde até a parada respiratória foram apenas trinta minutos. Durante todo o dia seguinte, diversas equipes foram deslocadas para confirmar o diagnóstico de morte encefálica. Ela não esconde a dor e diz que não estamos preparados para a morte. Mas ainda assim, ela mesma tomou a iniciativa de permitir a doação dos órgãos do filho.
"A gente falava pra meninada: olha, quando eu morrer é pra doar tudo o que presta, o que não presta leva pra escola de medicina. E eles também sempre acharam que a doação era uma coisa normal, se não vai servir mais pra mim, vai servir pra alguém. Sempre foi a nossa teoria de vida: se você puder fazer alguma coisa, faça alguma coisa de bom ou então não faça nada."
Antonieta conhece dois receptores que receberam órgãos de Ivan. O primeiro é Rafael, que na época tinha 10 anos e apenas dois meses de vida em função de uma insuficiência renal. Foi Rafael quem viu o nome de Ivan na caixa de isopor e pediu para sua família procurar os parentes do doador dois anos depois da cirurgia. E algum tempo depois, em uma reunião de transplantados, Rafael conheceu Luiz, que tinha recebido um rim e o pâncreas do jovem Ivan, mas não conhecia a família do doador. Rafael e Luiz se descobriram irmãos, vivos pelo ato de doação da família de Antonieta.
De Brasília, Daniele Lessa
AMANHÃ, DENTRO DA SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS SOBRE TRANSPLANTES, VOCÊ VAI CONHECER UM POUCO DA VIDA DE OSWALDO LUIZ, TRANSPLANTADO DE FÍGADO HÁ TRÊS ANOS QUE HOJE PRESIDE A ONG AMIGOS DO TRANSPLANTE, NO RIO DE JANEIRO. AS CINCO REPORTAGENS DESTA SÉRIE TAMBÉM PODEM SER OUVIDAS NA PÁGINA DA RÁDIO CÂMARA NA INTERNET PELO ENDEREÇO WWW.RADIO.CAMARA.GOV.BR