Reportagem Especial
Especial Cinema 2 - Trajetória do cinema novo no Brasil (07'08'')
22/10/2007 - 00h00
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Especial Cinema 2 - Trajetória do cinema novo no Brasil (07'08'')
"UMA CÂMERA NA MÃO E UMA IDÉIA NA CABEÇA". O CINEMA NOVO ESTÁ EM CARTAZ, A PARTIR DE AGORA, NA SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS SOBRE O CINEMA BRASILEIRO, COM O REPÓRTER JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA.
"O filme quis dizer ´Eu sou o samba´
A voz do morro rasgou a tela do cinema
E começaram a se configurar
Visões das coisas grandes e pequenas
Que nos formaram e estão a nos formar..."
Com "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça", jovens cineastas brasileiros se inspiram no neo-realismo italiano e na "nouvelle vague" francesa em busca de uma temática mais nacionalista para o cinema, na década de 60. As mazelas do subdesenvolvimento do Brasil passam a dominar as imagens projetadas na telona. Nota-se clara rejeição aos padrões estéticos de Hollywood. As produções são relativamente baratas, realizadas ao ar livre, de preferência no interior do país.
O ator Antônio Pitanga, que trabalhou com os diretores mais expressivos do Cinema Novo, lembra como o movimento foi ganhando força, a partir do filme "Bahia de Todos os Santos", dirigido por Trigueirinho Neto em 1959.
"A partir daí é que desencadeia todo o movimento do Cinema Novo. Poucas pessoas sabem. Porque o Glauber, que era jornalista do Diário de Notícias, ficou amigo do Trigueirinho Neto. E a partir daí, o Glauber dirigiu seu primeiro longa metragem, chamado ´Barravento´, e me convidou. E o Glauber, depois desse filme ´Barravento´, pega o marketing que lança no Brasil inteiro: ´uma idéia na cabeça e uma câmera na mão´."
Os problemas socio-econômicos do Brasil explodem na tela em filmes como "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos; "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade; "O desafio", de Paulo Cezar Saraceni; "Os fuzis", de Ruy Guerra; "Pedreira de São Diogo", de Leon Hirszman; e principalmente "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "O dragão da maldade contra o santo guerreiro" e "Terra em transe", de Glauber Rocha.
"Terra em transe" (Glauber Rocha)
"Estou morrendo agora nessa hora
Estou morrendo nesse tempo
Estão correndo meu sangue e minhas lágrimas
Ah, Sara. Todos vão dizer que sempre fui um louco, um romântico, um anarquista
Que sempre... Ah, não sei, Sara."
O baiano Glauber Rocha liderou o movimento do Cinema Novo, colecionando muita polêmica com sua arte engajada e crítica. O documentarista paraibano Vladimir Carvalho fala do impacto que as idéias de Glauber causavam pelo país inteiro, sobretudo quando ganhavam a caixa de ressonância da imprensa carioca.
"Dizia-se até que o Cinema Novo era Glauber no Rio. Quando Glauber saía de Salvador e vinha para o Rio, então aconteciam entrevistas, discussões, debates e ele animava os outros companheiros dele. Mas isso teve uma repercussão cultural e ideológica. Qualquer lugar do país que ouvia falar naquilo vibrava com aquela proposta e nós, na Paraíba, nos incorporamos a esse movimento através do filme ´Aruanda´."
Aliás, "Aruanda" funcionou como um "filme-manifesto" do Cinema Novo. A produção foi concluída em 1960, com direção de Linduarte Noronha e roteiro de Vladimir Carvalho.
A temática crítica do Cinema Novo não combinaria, nem um pouco, com os anos de chumbo que viriam pela frente, a partir do golpe militar de 1964. Muitos cineastas engajados não encontraram outra alternativa, a não ser a busca do exílio. Outros tentavam reagir na base da contra-cultura.
"Cinema Novo" (Caetano e Gil)
"Aí o anjo nasceu,
Veio o bandido meterorango
Hitler Terceiro Mundo,
´Sem essa aranha´, fome de amor
E o filme disse: ´eu quero ser poema´
O filme disse: ´eu quero ser poema´..."
O especialista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema, Fernão Ramos, identifica uma outra geração de cinemanovistas, que iria suceder os precursores e os consolidadores do movimento.
"´Cinema Marginal´ é a terceira geração do Cinema Novo. É quando os jovens dos anos 60 encontram a contra-cultura norte-americana, que chega aqui e é formulada de uma maneira diferente. O que é essa contra-cultura? Drogas; uma nova visão sobre a sexualidade; a questão da música com a abertura para o Tropicalismo; a relação com a mídia, por exemplo o rádio, no ´Bandido da luz vermelha´; a chanchada com ´Sem essa aranha´; esse lado antropofágico do Cinema Marginal".
Júlio Bressane, diretor de "Matou a família e foi ao cinema", e Rogério Sganzerla, com "Bandido da luz vermelha", são os principais nomes do chamado Cinema Marginal. Aliás, "marginal" e "undergroud" são rótulos que os principais seguidores dessa forma irreverente e anárquica de fazer filmes não engoliam muito bem. Eles consideravam que esses termos eram pejorativos e só tinham a intenção de menosprezar suas obras. Em 1970, Bressane e Sganzerla se encontram casualmente no Festival de Brasília e decidem fundar, no Rio de Janeiro, a produtora Belair, com o propósito de lançar longas-metragens de baixo custo. Mulher de Bressane, a filósofa e cineasta Rosa Dias está concluindo um documentário sobre a produtora, que conseguiu pôr no mercado apenas seis filmes e enfrentou forte repressão da censura do governo militar.
"Esses filmes foram, praticamente, todos vetados pela censura. Nunca passaram na sua época porque diziam que eles tinham uma relação muito grande com o movimento político de esquerda na época, com o terrorismo. E os diretores, tanto o Rogério quanto o Júlio, tiveram no exílio: saíram do Brasil em maio de 1970. Depois de terem realizado os filmes, foram para Londres."
Rosa Dias conta que Júlio Bressane e Rogério Sganzerla foram ameaçados de prisão por suposta ligação com o líder guerrilheiro Mariguela. A Belair durou apenas quatro meses, mas deixou pérolas como "Família do barulho", de Bressane, e "Sem essa aranha", de Sganzerla.
A vanguarda do Cinema Novo deixou um legado inestimável para a cultura brasileira, tanto no conteúdo quanto na forma. As propostas temáticas e o estilo de filmar adotados por Glauber Rocha e seus companheiros ainda inspiram os cineastas contemporâneos, nesse atual momento de profusão de filmes no país.
"Cinema Novo" (Caetano e Gil)
"Quero ser velho, de novo eterno.
Quero ser novo de novo
Quero ser Ganga Bruta e Clara Gema
Eu sou o samba, viva o cinema
Viva o Cinema Novo".
De Brasília, José Carlos Oliveira
ALTOS E BAIXOS NO ESCURINHO DO CINEMA. A TERCEIRA REPORTAGEM ESPECIAL VAI MOSTRAR AMANHÃ A CRISE PROVOCADA PELO FIM DA EMBRAFILME E TAMBÉM A RETOMADA DA PRODUÇÃO NACIONAL, A PARTIR DE MEADOS DOS ANOS 90.
SE VOCÊ QUISER, ESTA SÉRIE DE MATÉRIAS TAMBÉM ESTÁ DISPONÍVEL EM NOSSA PÁGINA NA INTERNET, NO ENDEREÇO WWW.RADIO.CAMARA.GOV.BR/RADIO