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Reportagem Especial

Cultura 4 - O desafio de preservar a diversidade cultural no Brasil (08'40'')

  • Cultura 4 - O desafio de preservar a diversidade cultural no Brasil (08'40'')

O Brasil tem uma população de 189 milhões de pessoas, espalhadas por oito milhões de km2. Nessa imensidão de país, a cultura brasileira definitivamente não é algo homogêneo. A preservação de nossa diversidade cultural é preocupação tanto do governo quanto da Unesco. O presidente Lula promulgou em 1º de agosto a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, um tratado celebrado no âmbito da Unesco. O texto, que entrou em vigor em 18 de março deste ano depois de ratificado por mais de 50 países, reafirma a soberania dos Estados para elaborar políticas destinadas a proteger e promover a diversidade das expressões culturais. O Ministério da Cultura tem uma secretaria destinada especificamente a isso. O secretário da secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, Sérgio Mamberti, destaca que o objetivo é atender segmentos da sociedade que nunca foram contemplados com políticas públicas. Uma dessas áreas é a cultura indígena. Mamberti destaca que a secretaria realizou concurso para escolher projetos ligados aos índios.

"E a gente conseguiu um resultado surpreendente. Num total hoje em torno de 750 mil indígenas, mais da metade dessa população concorreu. Foram 504 projetos, sendo que 82 de 15 mil reais foram premiados. Foi um acontecimento histórico. A Petrobras patrocinou, e agora já estamos no 2º que já foi lançado e vai estar sendo publicado antes do fim do ano, e que estabelece prêmios um pouco maiores, são 3 milhões e meio. Serão prêmios de 24 mil reais. Também tem um projeto de campanha nacional de valorização da cultura indígena."

A coordenadora do Setor de Cultura da UNESCO no Brasil, Jurema Machado, considera que o Brasil vem apresentando vários indicativos que demonstram respeito à diversidade cultural. Mas ela acha que o tema está intimamente ligado à igualdade de renda e educação, o que está longe de ser uma realidade no Brasil.

"Muitas dessas ações estão fora do campo da cultura, estão relacionadas com educação, com distribuição de renda, e com políticas afirmativas no sentido de buscar uma presença maior dessa diversidade cultural brasileira tanto na mídia quanto na visibilidade. Nesse sentido de dar visibilidade para programas e projetos nessa área, tem boas novidades. Um outro aspecto que eu acho interessante é que a própria Convenção da Diversidade Cultural, embora o tema num primeiro momento possa parecer abstrato, nós na Unesco estamos impressionados o quanto isso vem demandando interesse por todo o país."

Os defensores da diversidade cultural brasileira se preocupam em como preservar as diferenças na mídia, quando o cenário apresentado principalmente na TV reflete somente o que acontece no eixo Rio-São Paulo. O secretario Sérgio Mamberti lembra que a diversidade prega a regionalização da cultura, o que não se vê na prática nos meios de comunicaçaõ.

"Para você ter uma idéia de como a imprensa reproduz isso, a mídia reproduz isso, esse encontro das culturas populares e grande parte dos projetos da secretaria, eles têm muito pouco interesse da imprensa no sentido da sua divulgação. Eu me lembro que um grande editor de um grande jornal me disse: ´ah, sérgio, cultura popular?´, como se fosse uma expressão de 2ª classse. Quando na verdade, a convenção consagra que não existe cultura de 1ª e de 2ª classe. Todas as expressões culturais têm uma força e uma pujança, ainda mais as culturas populares que contêm os genes da nossa identidade."

Para o consultor de políticas culturais, Leonardo Brant, só é possível promover a diversidade cultural no Brasil com um sistema de comunicação mais democrático.

"A gente precisa ter uma legislação e um sistema de controle público que garanta que um maior número de pessoas tenha capacidade de gerar conteúdos e difundi-los através desses canais todos. Isso é princípio básico de democracia nos tempos de hoje. É inaceitável um país do tamanho do Brasil ter um monopólio, como tem hoje, da radiodifusão, com um único grupo de comunicação deter mais de 80% do volume de publicidade."

Afonso Oliveira é produtor cultural pernambucano especializado em culturas populares. Ele afirma que o Brasil não sabe trabalhar sua cultura popular, porque a indústria cultural não dá o verdadeiro espaço para que esse tipo de manifestação exerça seu papel como a tradição manda. Ele critica a criação de rótulos, em apresentações que quase sempre deixam o artista popular em último plano. Afonso acha que ainda vai demorar muito para que o artista popular tenha sua visão respeitada, apesar de alguns avanços. Mas Afonso Oliveira gostaria de ver as manifestações populares tratadas com o mesmo cuidado dispensado a artistas consagrados.

"Quando se vai contratar um artista do quilate de Chico Buarque, se presta atenção a todos os detalhes da produção, do cenário que ele quer, o tipo de sonoridade, o espaço e a luz adequados. Enfim, todas as ferramentas que a indústria cultural possui. E quando vai se contratar um artista popular, não se percebe e acha que esses detalhes não são importantes. Desde o cachê, muitas vezes miserável, até os cuidados com iluminação, um local adequado, para que aquela manifestação que ele cria, ou que uma determinada comunidade cria com tanta luta, seja mostrada na sua forma mais coerente."

A secretaria da diversidade cultural vai publicar um catálogo de culturas populares no Brasil, que será um indicador para quem quiser conhecer essas manifestações culturais e contratar os artistas. A secretaria também apóia o movimento homossexual, com apoio ao projeto de criminalização da homofobia, e às paradas gays. Outro projeto da secretaria é a distribuição de prêmios de 20 mil reais para instituições que contribuem para a inclusão cultural dos idosos. Outra ação da secretaria está ligada aos ciganos, que têm uma população de quase um milhão de pessoas no Brasil, e nunca tinham sido contemplados com políticas públicas anteriormente.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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