Reportagem Especial

Câncer Hereditário 5 - Banco de Tumores do INCA (07'24'')

02/07/2007 - 00h00

  • Câncer Hereditário 5 - Banco de Tumores do INCA (07'24'')

NESSA SEMANA A SÉRIE DE REPORTAGENS ESPECIAIS ABORDOU O CÂNCER HEREDITÁRIO. NAS PRIMEIRAS QUATRO MATÉRIAS VOCÊ, OUVINTE, SOUBE COMO IDENTIFICAR ESSE TIPO DE CÂNCER, COMO FUNCIONAM OS TESTES GENÉTICOS PARA IDENTIFICAR ALTERAÇÕES QUE AUMENTAM O RISCO DE TUMORES E ALGUMAS QUESTÕES ÉTICAS. HOJE, PARA FECHAR A SÉRIE ESPECIAL, VOCÊ VAI CONHECER COMO FUNCIONA O BANCO DE TUMORES DO INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER, UMA INICIATIVA PARA ESTIMULAR PESQUISAS SOBRE A DOENÇA.

Faz alguns meses que apareceu um sinal no rosto da aposentada Isa Mattos. O diagnóstico foi de câncer de pele. Antes de retirar o melanoma, o médico do Instituto Nacional do Câncer, o Inca, pediu exames de rotina, entre eles um raio X do tórax. A chapa revelou um tumor no pulmão de Isa, que não fuma, não tem problemas respiratórios e nunca tinha sentido nenhum desconforto. Depois que a cirurgia para a retirada do tumor no pulmão foi marcada, a equipe do Banco de Tumores do Inca entrou em contato com a aposentada e pediu autorização para colher pedaços do câncer para pesquisa. Isa autorizou e sabe que a pesquisa não irá beneficiar a ela própria, mas sim pessoas que venham a ter câncer no futuro.

"Ele me explicou que não é pra já, isso é uma pesquisa que está fazendo, ainda é um estudo para mais tarde, para outras pessoas. Não será para mim nem para daqui a alguns anos a alguns anos, mas para outras pessoas, tudo bem. Tudo é pesquisa, né? As doenças todas são descobertas porque? Por causa de pesquisa, né?"

O Banco de Tumores do Instituto Nacional do Câncer funciona há um ano. Já estão estocadas cerca de mil amostras de quase setecentos pacientes que passaram pelo Inca nos últimos meses. Mas existem vários outros bancos de tumores no país, principalmente em hospitais de clínicas que oferecem atendimento oncológico. O diretor médico do banco de tumores do Inca, o oncogeneticista José Cláudio Casali, destaca que esse trabalho se faz necessário porque a composição genética da população brasileira é única, diferente das pessoas de outras nacionalidades. E por causa disso, os tipos de câncer que surgem nos brasileiros têm características próprias que precisam ser estudadas.

"Tratar a população brasileira é diferente de você tratar a população do Japão. Como as origens são diferentes, muitas vezes a resposta ao tratamento também é diferente. E mais do que isso, às vezes a toxicidade é diferente, porque a nossa carga, a nossa herança genética é diferente. A gente não pode comparar a nossa população com nenhuma outra população do mundo."

Quando um paciente vai fazer uma cirurgia no Instituto Nacional do Câncer, uma enfermeira do Banco de Tumores explica o trabalho de coleta de amostras que é realizado e pede o consentimento para a retirada de fragmentos do tumor após a cirurgia. O medico José Cláudio Casali conta que até hoje não houve nenhuma recusa dos pacientes em doar amostras dos seus tumores. Ele conta que as pessoas abordadas têm a consciência mostrada pela aposentada Isa Mattos de que esse trabalho não irá render frutos agora.

Jose Claudio 2: Eles entendem que eles podem ajudar a pesquisa, e que aquela pesquisa não vai ser imediata, que não vão ser eles que vão ser beneficiados, mas que aquele gesto de doar uma pedaço do seu tumor vai poder beneficiar pessoas no futuro que tenham a mesma situação que ele. Eu acho que é um gesto muito nobre de uma pessoa com câncer, que está num momento debilitado, chegar a pensar nisso e a gente tenta colocar isso com muito cuidado."

As amostras recolhidas são utilizadas em pesquisas que estudam o material genético e as proteínas daquele câncer. Os bancos de tumores ajudam em uma grande dificuldade de pesquisadores no Brasil: a falta de material para estudo. O pesquisador que tiver interesse em adquirir amostras do Inca pode checar na internet se o instituto tem estocado o tipo de tumor necessário para a pesquisa. Depois disso, é só fazer o pedido para usar o material. O Comitê de Ética do Instituto Nacional do Câncer tem algumas exigências para fornecer o material, como a necessidade da pesquisa ter sido aprovada por uma instituição reconhecida. Mais informações podem ser obtidas no sítio do Inca na internet, o endereço é www.inca.gov.br.

A médica Solange Bizol conta a enorme ajuda que o banco de tumores está oferendo para sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Solange é oncologista e trabalha com câncer de ovário, que é um tipo de câncer muito letal, que mata cerca de 60% das pacientes. A médica conta que as instituições estimulam os médicos a fazer pesquisa, mas a infra-estrutura precária no país desanima os candidatos a pesquisadores. Com o Banco de Tumores ela pôde guardar as amostras que precisava de maneira adequada, o que abriu outras possibilidades ao seu trabalho.

Solange 1: "Ele ofereceu toda a infra-estrutura que eu precisava para estocar esse material. Quer dizer, se eu tinha que comprar um freezer, um tanque de nitrogênio, ter que adquirir gelo seco, ter que ter pessoal, porque eu estou operando, como é que ao mesmo tempo eu estaria colhendo material? Toda essa infra-estrutura foi montada justamente pra facilitar."

Na pesquisa da doutora é feita uma relação entre as características dos tumores de ovário e a evolução da paciente. Ela destaca a importância de que o médico que acompanha diretamente os pacientes possa desenvolver pesquisas porque esse trabalho irá se refletir diretamente em melhorias no tratamento.

"Quando a gente consegue associar o conhecimento básico, a pesquisa básica, à assistência junto ao leito do paciente de modo a oferecer um melhor tratamento, uma melhor reabilitaçao dentro do contexto socio-cultural dele, isso tudo faz com que o paciente se recupere mais rápido. A pesquisa não é só pela pesquisa. É a pesquisa visando você identificar problemas e tentar contorná-los para atingir a cura.

Um dos objetivos dos pesquisadores do Banco de Tumores do Inca é contribuir para o desenvolvimento de medicações que possam ser utilizadas especialmente para cada pessoa, de acordo com as características celulares do tumor. No futuro, espera-se que esse tipo de abordagem possa otimizar os resultados da medicação e diminuir consideravelmente os efeitos colaterais.

De Brasília, Daniele Lessa

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