Reportagem Especial

Câncer Hereditário 1 - Saiba o que é, e como identificá-lo (06'41'')

02/07/2007 - 00h00

Há 24 anos, o avô da estudante Alexandra Maria foi vítima de câncer no intestino. Doze anos depois, a mãe dela também teve a doença. Como existe um tipo de câncer no intestino que é transmitido nos genes passados dos pais para os filhos, Alexandra conta que a orientação médica foi que a família inteira fizesse exames para saber se outros parentes também poderiam desenvolver tumores.

"Na época só deu em mim, eu tinha 14 anos e na época eu só tinha polipose, mas como demorou para fazer cirurgia, porque pelo SUS demora mesmo, aí quando eu cheguei a operar já estava com câncer no intestino. Aí ele avisou ao resto da família que era pra fazer o exame, aí aconteceu. Uma tia minha faleceu de câncer no intestino, um outro tio meu faleceu, todos irmãos da minha mãe. Tem três irmãos dela já operaram de câncer no intestino e uma irmã que foi também câncer no útero."

Além dos tios, cinco primos de Alexandra já operaram de câncer no intestino e na última semana quem entrou na sala de cirurgias foi o seu irmão caçula. A estudante de 24 anos também desenvolveu tumores na pele, no abdômen e na tireóide. Esse é um caso de câncer hereditário, que acontece quando mutações genéticas que aumentam o risco de câncer são passadas dos pais para os filhos. Estima-se que de 10 a 15% dos tumores tenham origem hereditária, mas essa estatística pode ser ainda maior quando se considera outros fatores além da mutação genética. Quem tem pele branca, por exemplo, tem mais chance de ter câncer de pele, e a cor da pele é uma herança passada para os filhos.

A herança genética pode ser explicada como um baralho. Cada pessoa tem as suas cartas, e quando tem um filho, passa metade desse baralho. Toda criança recebe metade das cartas do pai e metade das cartas da mãe. E uma dessas cartas pode vir com um defeito genético que pode levar ao câncer. A maioria dos tumores não tem qualquer relação com a herança genética. Eles se desenvolvem quando as células do corpo envelhecem ou começam a se multiplicar de maneira anormal. Hábitos como fumar, se alimentar mal e não fazer exercícios podem aumentar o risco nesta situação. Mas quando o câncer é hereditário, mesmo que a pessoa tenha uma vida muito saudável, o risco de ter câncer pode chegar a 90%, como explica o oncogeneticista e diretor médico do Banco de Tumores do Instituto Nacional do Câncer, José Cláudio Casali.

"O fato é que quando essa carta que tem esse defeito, o defeito é muito sério, esse risco pode ser realmente alto. Ele chega às vezes a 90% de chance da pessoa ter um câncer até os 65 anos de idade ou durante a vida toda. Muitas vezes a pessoa não fuma, não bebe, tem uma alimentação regular, faz exercícios, e mesmo assim ela desenvolve câncer, porque o defeito genético prevalece."

Já se sabe que alguns tipos de específicos de câncer no intestino, na tireóide e na mama são causados por mutações passadas de pai para filho ou de mãe para filho. Mas o doutor Casali destaca que os tumores hereditários são mais freqüentes do que se imagina e podem aparecer em qualquer lugar do corpo. Dois sinais indicam que um câncer pode ser hereditário: quando várias pessoas da mesma família apresentam o mesmo tipo de tumor e quando pessoas jovens desenvolvem a doença. Isso acontece, por exemplo, quando várias mulheres da mesma família têm câncer de mama ou de ovário antes da menopausa. A coordenadora do serviço de aconselhamento genético do hospital AC Camargo, Maria Isabel Achatz, explica que quando esses sinais aparecem, o indicado é fazer uma investigação.

"O paciente nos procura, a gente faz toda uma árvore genealógica dessa família, que nós chamamos de heredograma, e vamos coletar toda informação de tumores que tenham ocorrido nessa família, benignose malignos, não só os malignos, além de outras alterações que possam ter ocorrido. A partir disso a gente chega ao diagnóstico clínico, e sempre que possível a gente faz o teste genético, mas nem sempre é possível pelo alto custo, é um teste muito caro."

Se a pessoa tem a mutação genética, isso não significa que ela obrigatoriamente terá câncer. Mas o risco de apresentar a doença em alguma fase da vida aumenta de 30 a 90%, de acordo com o tipo de defeito genético. Saber sobre esse risco é importante para que a pessoa possa ser orientada por um médico e fazer uma prevenção mais cuidadosa. O médico José Cláudio Casali aponta que médicos e pacientes precisam conhecer mais os riscos de tumores hereditários, e saber que existem alternativas de tratamento.

"Divulgar ao médico que já existem esses serviços, mas principalmente dar às famílias e a essas pessoas que têm entes com câncer uma esperança de que elas vão poder ser atendidas, que aquele problema não é a maldição da família, como às vezes eu ouço, que aquele é um problema genético e que pode ser trabalhado, que nós já conhecemos muito bem o que está acontecendo naquela família."

E Alexandra Maria, que aos 24 anos já teve de passar por quatro cirurgias para retirar tumores, acredita na união da família e no pensamento positivo para atravessar essa situação.

"Somos muito unidos, um sempre dá força pro outro e gente também procura não pensar tanto na doença, a gente procura pensar mais na cura, na saúde, a gente evita um pouco de pensar muito nela porque é um pouco triste. Infelizmente a gente sabe que é de pai de pra filho, então a gente procura não pensar muito nessa parte, mas a gente se ajuda muito, graças a Deus."

De Brasília, Daniele Lessa

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