Reportagem Especial

Especial Caos Urbano 4 - Saiba como funciona o pedágio urbano ( 06' 04'' )

21/05/2007 - 00h00

  • Especial Caos Urbano 4 - Saiba como funciona o pedágio urbano ( 06' 04'' )

NA QUARTA REPORTAGEM SOBRE O TRÂNSITO URBANO, VOCÊ ACOMPANHA UMA DISCUSSÃO NOVA NO BRASIL: O PEDÁGIO URBANO. ESSE PEDÁGIO JÁ FUNCIONA EM ALGUMAS CIDADES DO MUNDO COMO LONDRES E CINGAPURA. A MATÉRIA DE HOJE TAMBÉM LANÇA UMA PERGUNTA: AS MEDIDAS DE RESTRIÇÃO AO USO DO CARRO DEVEM SER IMPLANTADAS ANTES OU DEPOIS DA MELHORIA DO TRANSPORTE COLETIVO? ACOMPANHE A REPORTAGEM DA REPÓRTER DANIELE LESSA

O aumento crescente do número de carros nas ruas está originando um debate a respeito da racionalização do uso do automóvel nas cidades. São Paulo tem um rodízio que tira 20% dos carros das ruas nos horários de pico, mas a medida já se mostra insuficiente para evitar os congestionamentos que estão na rotina do paulistano. O secretário de mobilidade urbana do Ministério das Cidades, José Carlos Xavier, fala que outros prefeitos também estão buscando medidas que restrinjam o uso do carro para desafogar o trânsito. Mas nesse momento surge a pergunta: é possível limitar o uso do carro antes de uma melhoria substancial do transporte coletivo? O secretário José Carlos Xavier discorda que os governos só possam restringir o uso do automóvel depois de oferecerem um transporte público com qualidade.

"Uma questão não espera a outra. Nós não entendemos e a política procura espelhar isso, que nós só vamos discutir o papel do automóvel ou inverter essa política que prioriza o uso do automóvel na hora que nós tivermos um sistema de transporte eficiente. Porque é justamente na raiz de não termos um transporte eficiente está a opção de investirmos voltados para o automóvel.'

O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Alexandre Gomide, concorda com o secretário. A cada ano a frota de veículos cresce 7%, e nesse ritmo, o carro irá ocupar mais e mais espaço. Para Alexandre Gomide, essa situação exige que a restrição aconteça independentemente da melhoria do transporte coletivo. Ele aponta que quando a classe média for impedida de usar o carro, a pressão pelo transporte coletivo de qualidade será muito mais forte.

"Enquanto a classe média não vê a necessidade de usar o transporte público, a gente não vai conseguir que o transporte melhore. Por isso digo que tem que ser concomitantemente. Se eu coloco uma medida de restrição do automóvel, as pessoas vão começar a exigir que o transporte público melhore. É uma questão mesmo de estratégia política."

Várias cidades do mundo já limitaram a circulação de carros, com resultados bem avaliados pela população local. Além de rodízios e estacionamentos pagos, o pedágio urbano surge como uma alternativa mais radical. Esse pedágio é uma cobrança pelo uso do carro. Se o motorista quer circular pela cidade, ele paga por isso. Em Cingapura, o pedágio existe desde 1975, e é cobrado de segunda a sexta-feira, durante o dia. Como resultado, a procura pelo transporte público cresceu 63%. A cidade de Londres, na Inglaterra, implantou seu pedágio urbano em 2003. Para entrar no centro da cidade, o motorista paga o equivalente a 21 reais. O controle é feito por 900 câmeras espalhadas pelas ruas, e a multa para quem não paga o pedágio é salgada, cerca de 350 reais. A população londrina criticou a medida no início, mas acabou se rendendo aos benefícios dela. Com o aumento da procura por táxis, ônibus e bicicletas, o tempo das viagens diminuiu 17% e houve uma redução de 8% no número de acidentes com feridos. O pesquisador Alexandre Gomide é favorável ao pedágio urbano, pois acredita que os motoristas devem arcar com parte dos custos que o uso do automóvel traz. Ele aponta ainda que a medida trouxe prestígio político ao prefeito de Londres, mostrando que a população reconhece quando medidas impopulares são benéficas.

"O prefeito, em cima do pedágio urbano, conseguiu garantir a sua reeleição porque o comércio, a população viu que melhorou muito a qualidade de vida e a eficiência da área central de Londres. Tanto é assim, que em fevereiro deste ano, a área do pedágio foi praticamente dobrada. Era uma área de vinte quilômetros quadrados, passou para cerca de quarenta quilômetros quadrados."

Pesquisa da ABRAMCET, a Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico do Trânsito mostra que o brasileiro ainda sabe pouco sobre pedágio urbano. Na cidade de São Paulo, apenas 37% das pessoas já ouviram falar a respeito. A empresária paulistana Fabiana Fevorini conta que as críticas a mais uma cobrança são intensas, mas lembra que houve a mesma reação quando o rodízio foi implantado.

"Essa medida do rodízio de veículos, no início ela também foi extremamente impopular porque as pessoas só enxergavam a restrição. Eu não posso usar, eu tenho carro, pago IPVA e não posso usar em um determinado horário porque o governo me impede? Com o tempo, principalmente nos primeiros anos, houve um benefício muito grande e há uma reflexão contrária: se não tivesse como iria ser? Ia ser bem pior."

Uma pesquisa da Associação de Monitoramento do Trânsito mostra que a cobrança pelo uso do carro é avaliada de forma negativa por 43% dos brasileiros e, entre os paulistas, este índice sobre para 48%.

De Brasília, Daniele Lessa

AMANHÃ, NA ÚLTIMA REPORTAGEM DA SÉRIE SOBRE O TRÂNSITO NAS GRANDES CIDADES, VOCÊ VAI CONHECER O DIA A DIA DE ALGUNS BRASILEIROS QUE VIVEM SEM CARRO POR OPÇÃO, PESSOAS QUE TROCARAM OS ENGARRAFAMENTOS POR UMA VIDA MAIS SIMPLES. AS MATÉRIAS SOBRE O CAOS NO TRÂNSITO DAS CIDADES BRASILEIRAS ESTÃO NA PÁGINA DA RÁDIO CÂMARA NA INTERNET. O ENDEREÇO É WWW.CAMARA.GOV.BR/RADIO.

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