Reportagem Especial

Especial Domésticas 3 - Conheça mais sobre a relação entre patrão e empregada (04'53'')

23/04/2007 - 00h00

  • Especial Domésticas 3 - Conheça mais sobre a relação entre patrão e empregada (04'53'')

HOJE, NA ÚLTIMA MATÉRIA SOBRE TRABALHO DOMÉSTICO, VAMOS ABORDAR A COMPLEXA RELAÇÃO ENTRE PATRÃO E EMPREGADA.

O tema da tese de doutorado da antropóloga Dora Porto era mulheres negras e pobres. Mas ela ficou surpresa ao constatar que todas as suas entrevistadas ou tinham sido empregadas domésticas, ou eram filhas de empregadas. Escutando os relatos dessas mulheres, Dora observou a dificuldade da vida dessas trabalhadoras. Elas têm problemas tanto físicos quanto psicológicos, tudo causado pelo excesso de trabalho e falta de reconhecimento do valor do seu serviço. Dora lembra de relatos que ouviu em que a empregada era obrigada a usar talheres e pratos separados dos utilizados pelo resto da família. Em outro caso, ela era obrigada a desinfetar a máquina depois de lavar sua própria roupa. Outro ponto que é motivo de humilhação para as empregadas é o quarto destinado a elas, destaca Dora.

"Eu vi quarto de empregada que foi desmanchado, pegaram um pedaço da área de serviço, puseram uma parede e botaram a empregada para dormir com o pé no combogó, aberto ali, em cima de um colchonete. Mesmo quando existe quarto de empregada, muitas vezes, o quarto é um despejo da família, então a pessoa tem que dormir com aquele monte de velharia, ela não tem um espaço dela que ela possa ordenar, segundo suas próprias noções estéticas."

Dora Porto diz que a relação é recheada de humilhações que muitas vezes passam despercebidas aos patrões.

"Uma empregada me relatou assim: ´minha patroa tinha mania de dar as roupas velhas dela para mim. Agora, em vez de ela me pagar direito para eu comprar o que eu queria, eu tinha que achar bom ganhar as coisas usadas dela´. Esse é um tipo de humilhação que não é visibilizado, que a patroa se sente super generosa por estar dando as coisas dela, que às vezes são até coisas que a empregada não poderia comprar, mas a empregada prefere ter o direito de escolher ela própria o que ela quer."

TRILHA -

Mas nem sempre a doação de objetos que não servem mais aos patrões é encarada como humilhação. Quando a relação é marcada pelo respeito, a oferta é bem recebida. É o que conta Noeme Pereira dos Santos, que trabalha há 13 anos na mesma casa e acha bom quando a patroa lhe dá alguma roupa que ela não usa mais.

"Quando não me serve, eu dou para minha família, que também são pessoas pobres e humildes e recebem com o maior carinho. Quando não serve em mim, eu guardo com todo carinho para minha família, uso com todo carinho, sem nenhum preconceito com isso."

O carinho e o repeito que recebe dos patrões fazem com que Noeme se sinta valorizada em seu serviço.

"Nunca esperei ela me chamar a atenção porque eu sei a minha obrigação. Eu acho que quem faz o patrão é a empregada, e quem faz a empregada é o patrão."

Entretanto, Noeme reconhece que, pelo menos 90% das empregadas domésticas não têm a mesma sorte que ela. Uma empregada doméstica que pediu para não ser identificada, e que vamos chamar de Maria, trabalha há 7 anos na mesma casa como empregada doméstica e não tem horário fixo de trabalho.

"Eu não tenho horário, tem vezes que eu chego 7 horas, aí eu saio 7h da noite, já aconteceu de eu sair até 9h da noite. As vezes até durmo lá."

Mas nem tudo são espinhos na relação entre patrão e empregado doméstico. A empregada Nadi Gomes da Silva comenta como é o seu dia-a-dia.

SONORA: Nadigomes1: "Folgo dia de domingo, folgo na terça-feira, eu não trabalho feriado, eu tenho até uma regalia. Mas tem empregada doméstica que não tem nada, eu acho que depende muito do patrão."

Nadi Gomes observa que a melhora na condição de trabalho depende mais da relação que se tem com os patrões do que das leis. De acordo com o IBGE, as mulheres são a grande maioria dos trabalhadores domésticos, representando 94%. Mais de 61% são pretas e pardas e a baixa escolarização também é evidente: 64% dos trabalhadores domésticos tem menos de 8 anos de estudo. Somente 34,4% deles têm carteira de trabalho assinada.

De Brasília, Adriana Magalhães.

TERMINA AQUI A SÉRIE SOBRE TRABALHO DOMÉSTICO. COM REPORTAGEM DE ADRIANA MAGALHÃES, PRODUÇÃO DE LUCÉLIA CRISTINA E MONICA LION, EDIÇÃO DE ANA DELMONTE E COORDENAÇÃO DE APRÍGIO NOGUEIRA. SE VOCÊ QUISER, PODE OUVIR ESSE PROGRAMA PELA INTERNET, ANOTE O ENDEREÇO: WWW.CAMARA.GOV.BR/RADIO

No dia 27 de abril comemora-se o Dia do Empregado Doméstico. A série de três reportagens vai abordar os direitos dos trabalhadores domésticos e as infrações, como o trabalho infantil doméstico e a informalidade que ronda o setor. Na última reportagem, será analisada a complexa relação entre patrões e empregados. <br /><br />

Sábado e domingo às 8h30, 13h e 19h30. E nas edições do programa Câmara é Notícia. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.