Reportagem Especial

Especial Beleza 5 - Como tantas pessoas conseguem ser felizes e atraentes, mesmo fora do chamado padrão de beleza ( 06' 54'' )

04/12/2006 - 00h00

  • Especial Beleza 5 - Como tantas pessoas conseguem ser felizes e atraentes, mesmo fora do chamado padrão de beleza ( 06' 54'' )

HOJE, NA ÚLTIMA REPORTAGEM DESTA SÉRIE SOBRE A BELEZA, VOCÊ ACOMPANHA AS POSSIBILIDADES QUE EXISTEM FORA DA BUSCA FRENÉTICA POR UMA APARÊNCIA BONITA

A busca pela beleza é natural no ser humano. Mas vivemos uma época em que essa corrida por um corpo perfeito extrapolou muitos limites, ameaçando a saúde física e a paz interior das pessoas. Quais os caminhos para uma aceitação do próprio corpo, com seus detalhes interessantes e também suas imperfeições? E por que algumas pessoas fora do padrão de beleza conseguem ser tão atraentes?

O psicólogo e professor do Centro Universitário de Santo André, Cláudio Bastidas, fala que uma pessoa de bem com a própria aparência fica sim com um brilho diferente. E dá o exemplo do ator Raul Cortez, que morreu recentemente depois de uma carreira de sucesso na televisão. Cláudio lembra que o ator estava longe do padrão do galã, mas ainda assim tinha um magnetismo que lhe dava um charme todo especial.

"Dependendo do olhar que a gente tem para a figura do Raul Cortez, você diz: bom, é um velhinho careca. Mas ele conseguia irradiar alguma coisa, provavelmente ele devia ser alguém que gostava muito dele e do próprio corpo, então ele irradiava um charme. Então você via moças jovens dizendo, 'nossa, mas que homem charmoso', e era alguém que estava na terceira idade".

O psicólogo explica que muitas vezes essa energia especial se perde em preocupações que surgem na infância e na adolescência e são carregadas pelo vida afora. O tamanho do pênis, o tipo de cabelo, o jeito do nariz, o menino gordinho que tem vergonha de tirar a camiseta no futebol, a menina que sofre porque as colegas já tem seios e ela não. São coisas que os adultos acham graça, mas que criam dores difíceis de lidar. Cláudio Bastidas diz que terapia ajuda, mas algo simples também pode ser eficaz: lembrar um pouco da trajetória de vida.

"A gente ficar em paz com o próprio corpo requer um esforço no sentido de entrar em contato com coisas que também são dolorosas. Uma das possibilidades, além da psicoterapia, para quem tem problemas sérios com a própria aparência no sentido de não se gostar, seria lembrar um pouco da sua história de vida e se confrontar com isso, perceber que muitas vezes uma dificuldade que você teve no passado hoje em dia não se aplica mais".

Uma mudança de foco é necessária para quem quer descobrir a própria beleza. Quem conta isso é Mônica Lion, que aos 25 anos teve uma lesão no nervo da face que lhe trouxe uma paralisia facial em um dos lados do rosto. Justo ela, uma mulher lindíssima segundo os modelos de beleza: magra, olhos claros, cabelos lisos, traços delicados. Ela recorda que durante um bom tempo tudo girava em torno do rosto imperfeito. A única preocupação era a imagem perante o outro. Hoje, aos 55 anos e com a beleza tranqüila de quem permite os cabelos grisalhos e as marcas do tempo, Mônica fala onde procurou aquilo que iria preencher o buraco que a perda da beleza tinha deixado.

"Você começa a buscar e achar coisas que você jamais podia imaginar encontrar dentro de si, porque você não buscava dentro de si, eu não buscava isso. A coisa era pra fora, as relações eram pra fora. Mas depois não, você começa a ver que tem outras coisas, que pode desenvolver coisas muito maiores e melhores, e muito mais profundas, muito mais abrangentes e muito mais duradouras do que uma simples aparência. O que é uma boca diante de um ser?"

Mônica tem três filhos e está no terceiro casamento. Como o psicólogo Cláudio Bastidas, ela também fala de uma certa postura interior que a fez atraente mesmo com traços que o lugar-comum classifica como feios.

"Minhas amigas ficavam muito impressionadas comigo porque eu nunca deixei de arranjar namorado, nunca deixei de ter paqueras, de ter gente atrás de mim, com tudo isso, nunca isso me afetou. Existe uma postura interna, acho que é isso, uma coisa de postura interna, de você estar bem contigo mesmo. E quando isso acontece, o mundo pode cair que isso não afeta você. Pelo menos aconteceu isso comigo".

A busca pela beleza, que abala principalmente as mulheres, está se transformando em uma corrida pelo inatingível. O geneticista Renato Zambora, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aponta que a indústria da beleza está vendendo coisas como sendo muito importantes, como o combate implacável às gordurinhas, quando a mulher com curvas é mais atraente para o homem desde o tempo das cavernas. Apresentando uma visão científica, ele fala de uma das armadilhas da vaidade feminina, a celulite.

"Se você for perguntar aos homens: você deixaria de namorar, de casar ou de copular com uma pessoa porque ela tem celulite? Eu aposto que um número ínfimo de homens diria que evitaria uma mulher porque ela tem celulite. Para os homens isso não é muito relevante, porque na história evolutiva das mulheres isso sempre foi um componente do corpo feminino. Então os homens não acham isso exatamente um problema. É a indústria da beleza que vende um padrão que não é biológico".

Encontrar a própria beleza não tem receita, nem existe varinha mágica que nos dê auto estima e carinho por nós mesmos, com os detalhes que fazem a diferença entre as pessoas. O que se prega hoje é que a beleza só pode ser encontrada se você tiver o corpo magro, o cabelo de modelo de comercial de xampu, o nariz e a boca da modelo famosa. Quem sabe não esteja na hora de questionar os padrões e descobrir a beleza única de cada um.

De Brasília, Daniele Lessa

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