Reportagem Especial
Especial Jovens 4 - Como os jovens enxergam à política brasileira? (07' 24")
02/10/2006 - 00h00
-
Especial Jovens 4 - Como os jovens enxergam à política brasileira? (07' 24")
NA QUARTA REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE A JUVENTUDE BRASILEIRA, HOJE O ASSUNTO É PARTICIPAÇÃO POLÍTICA. COMO OS JOVENS ENXERGAM A POLÍTICA BRASILEIRA? SAIBA TAMBÉM COMO ALGUNS DELES ENCONTRAM NO TRABALHO VOLUNTÁRIO UMA MANEIRA GRATIFICANTE DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL
Anderson Souza tem 17 anos, e fez questão de tirar o título de eleitor para votar nas últimas eleições. Ele faz parte da multidão de três milhões de jovens de 16 e 17 anos que puderam votar no dia primeiro de outubro. E Anderson tem clareza da razão que o levou a tirar o título: ele quer a mudança.
"O jovem de hoje em dia, a gente quer mudar. Mudar essa política de pão, de leite, de lote, do que o pessoal tá acomodado. O pessoal de Brasília tá muito acomodado, não só de Brasília, de outras cidades do país. Minha colega mesma falou que viu um cara barbado, em bar falando assim "eu vou trabalhar pra que? eu recebo pão, recebo cesta, eu vou trabalhar?". Isso é até uma vergonha para um homem que fala isso."
Nessas eleições, o maior crescimento proporcional de eleitores aconteceu na faixa entre 16 e 17 anos. O eleitorado jovem, para quem o voto é facultativo, subiu mais de 39% nos últimos quatro anos. Em 2002, nas últimas eleições presidenciais, o número de pessoas com 16 e 17 anos era estimado pelo IBGE em 7,1 milhões, dos quais cerca de 31% tinham título de eleitor. Em 2006, a estimativa é de 6,8 milhões de jovens, sendo que 45% deles estão registrados junto à Justiça Eleitoral.
Luciana das Graças, de 16 anos, não tirou o título por uma razão bem típica da juventide: deixou para ir ao cartório eleitoral no último dia e a fila estava grande. Mesmo não tendo votado, ela acompanha os últimos acontecimentos políticos do país e expressa o desencanto com a crise que trouxe tantas denúncias de corrupção.
"Muitas vezes eu sinto vergonha, porque eu acho que os nossos representantes não estão fazendo jus à confiança que as pessoas depositaram neles querendo um país melhor, querendo um mundo melhor, e eles não estão fazendo nem 10% do que deveriam. Roubando dinheiro, mensalão, sanguessugas e etc e tal, não está ajudando a sociedade, está piorando e muito."
O sociólogo Gustavo Venturi, do Instituto Juventude, coordenou a pesquisa que realizou o Retrato do Jovem brasileiro. Ele contesta o estereótipo de que o jovem é alienado, e afirma que o comportamento deles não é muito diferente do restante da sociedade. Gustavo explica que criou-se um mito de que apenas a juventude das décadas de 60 e 70 se engajou politicamente, mas lembra que a luta contra a ditadura envolveu uma parcela muito pequena dos jovens da época. Nos dias de hoje, a decepção da juventude seria muito semelhante à do conjunto da população. Gustavo acredita ainda que as recentes crises despertaram no jovem o interesse pela política.
"Essa é outra coisa que a população jovem tem consciência, quando você pergunta se esse é o governo que teve mais corrupção na história? Não, não é, sempre teve, a coisa vai nessa linha. Mas aflorar essa discussão agora é um fator de decepção que atinge também aos jovens. Paradoxalmente isso aumenta o interesse pela política no sentido que as pessoas reconhecem que participar da vida política é importante."
A pesquisa coordenada por Gustavo Venturi detectou um comportamento interessante: o jovem fica mais otimista com a realidade à medida que ela se aproxima de sua vida cotidiana. A maior parte é pessimista quando a pergunta é se o mundo e o Brasil vão melhorar, por exemplo. Mas o pessimismo diminui quando se pergunta qual a expectativa de melhoria de suas próprias vidas. O sociólogo comenta esse paradoxo.
"Você tem aí um contra-senso, porque evidentemente não é possível que as pessoas melhorem suas vidas pessoais sem que o entorno social melhore. Isso é reflexo muito da ideologia individualista que predomina no mundo hoje com a hegemonia do capitalismo, mas ao mesmo tempo você tem uma faceta de um empenho grande dos jovens para melhorar de vida, porque eles sabem que sem cada um fazer a sua parte, lutando, a vida também não vai melhorar."
Mas não é apenas através do voto que o adolescente e o jovem participam da sociedade. Eles têm se manifestado por outros meios, como a cultura, com grupos de música e teatro, igrejas e no trabalho voluntário. São pessoas como Diego Rodrigues, de 17 anos, que há um ano frequenta uma instituição para pessoas com debilidades mentais, ajudando as professoras no cuidado com os alunos.
"A gente tenta dá atenção a eles, em duas fazer com que o dia deles valha a pena. A gente traz alguma atividade para eles, conversa com eles e tal. Eu tento fazer isso porque me sinto bem. É uma coisa que me conforta, me deixa feliz em fazer. Não me sinto mal de forma alguma, na verdade me sinto recompensado."
Para a estudante de direito Carolina Passos, de 20 anos, o trabalho voluntário sempre foi uma prática em família. Hoje, ela dá continuidade ao que foi iniciado por sua avó, e diz que desde pequena seus pais mostraram a importância desse tipo de ação.
"Eu ajudo um grupo de idosos e de gestantes. Vou todo sábado nessa instituição, ajudo com alimentos, dou aulas, explico sobre doenças, é como se fosse uma aula. Eu faço porque me dá um conforto, uma paz de espírito, não sei. Acho que eu não vim aqui só para estudar e pensar em mim, acho que tenho que pensar nos outros. Me dedico, acho que é importante, sinto a necessidade de estar ajudando."
No Brasil, o número de jovens que são voluntários é muito pequeno. Segundo o Retrato da Juventude Brasileira, 20% deles tem vontade de fazer algum trabalho social, mas apenas 2% efetivamente realizam algo concreto.
De Brasília, Daniele Lessa