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28 de Janeiro de 1986 governo Sarney lança Plano Cruzado - ( 06' 47" )

  • 28 de Janeiro de 1986 governo Sarney lança Plano Cruzado - ( 06' 47" )

O Brasil vivia uma situação delicada no início da Nova República. A inflação pressionava, os salários estavam defasados e a dívida interna corroía as contas do Governo. Além disso, o presidente da República, José Sarney, carecia da credibilidade de um presidente eleito pelo voto popular,

Para piorar, a linha econômica monetarista e ortodoxa do ministro da Fazenda, Francisco Dorneles não agradava ao presidente, que queria mudar a forma de negociar com o FMI.

Com a situação política contrária, Dorneles pede demissão do cargo em agosto de 1985. O seu substituto foi o presidente do BNDES, Dilson Funaro.

Industrial e opositor da política econômica da ditadura militar, Dilson Funaro capitaneia uma equipe de economistas da PUC-Rio e da Unicamp que, em segredo, produzia um plano econômico de propostas heterodoxas, baseada num plano econômico aplicado em Israel e que deu certo.

Em 28 de janeiro de 1986, o Plano veio a público. O então presidente José Sarney anunciou em cadeia de Rádio e TV a mais radical mudança na economia que o país já tivera: o Plano Cruzado.

"Brasileiros e brasileiras.
Esta é uma convocação para que juntos, governo e povo, tomemos uma decisão grave e difícil. Ela marcará a sorte de nossa sociedade nos próximos anos. Venho meditando a tempos sobre sua oportunidade. Medimos conseqüências. Avaliamos riscos e pesamos os resultados. Minha consciência e meu dever para com o país não me fizeram exitar. A política tem um compromisso com a coragem. E os homens de estado não podem fugir à força do destino na hora de decisôes maiores. Determinei mudanças fundamentais na economia."

Sarney exortou o povo para que travasse uma guerra de vida ou morte contra o inimigo número 1 da economia brasileira: a inflação.

O Plano Cruzado seria aprovado pelo Congresso 46 dias depois, em 16 de abril.

Com o plano, a moeda anterior, o cruzeiro, perdeu os três zeros à direita e foi substituído por uma moeda mais forte, o cruzado. O Plano decretou o fim da correção monetária e o congelamento de preços e tarifas.

E embora o Plano Cruzado fora imposto de cima para baixo à sociedade, na forma de um decreto-lei, sem discussões, ele atendeu aos anseios imediatos da população que se engajou na cruzada econômica em uma verdadeira manifestação coletiva da defesa dos direitos do consumidor.

Verdadeiros "xerifes" do congelamento de preços, populares se auto-intitulavam "fiscais do Sarney" e chegavam a dar voz de prisão a comerciantes que burlavam o plano.

A Sunab, órgão fiscalizador dos preços, chegou a autuar 6 mil casas comerciais em 30 dias por violação do congelamento, sem contudo atender à demanda, que era muito maior. São aplicadas multas e gerentes de loja são presos no período.

O clima social ajuda e a inflação despenca, chegando a produzir até mesmo uma pequena deflação. A população vai às compras, deflagrando uma onda de consumismo. Mas a abastança não dura muito.

O aquecimento do consumo provoca escassez de produtos, especialmente de carne bovina. Os criadores, alegando preços defasados seguram o boi no pasto. O governo anuncia uma série de medidas como a importação de carne e até mesmo mobiliza a Polícia Federal para confiscar o boi no pasto.O esforço é em vão.

O Plano econômico revelou ser frágil e desvinculado da realidade econômica. A economia estava desequilibrada. O dólar desvalorizado barateava a importação de produtos.

A corrida ao consumo gerou queda na produção e fez surgir uma figura maligna, o ágio, que era cobrado dos consumidores, por fora, por industriais e comerciantes que esperavam uma eventual liberação de preços.

O Plano Cruzado necessitava de acertos fortes e imediatos. Mas em ano eleitoral, o Governo adotou apenas paliativos até o pleito. Com os dividendos políticos do enorme êxito eleitoral de novembro de 1986, o Governo adota o plano corretivo que acabava com o congelamento de preços apenas dias depois das eleições. Era o Cruzado 2 e trazia correções de preços de até 120 por cento.

Em dezembro, uma greve geral é deflagrada pelas três centrais sindicais (CVUT, CGT e USI) que pedem a revogação do Cruzado 2.

A greve reflui mas a inflação explode. Funaro pede demissão. Os dois ministros da Fazenda que se seguem no Governo Sarney não conseguem conter o desequilíbrio econômico.

O Governo Sarney segue batendo recordes de inflação e com uma dívida explosiva. A popularidade do presidente despenca.

Redação: Eduardo Tramarim.

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