Reportagem Especial
Especial Biopirataria - A crueldade que envolve o tráfico de animais silvestres (07'15")
02/05/2006 - 00h00
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Especial Biopirataria - A crueldade que envolve o tráfico de animais silvestres (07'15")
NA EDIÇÃO DE HOJE DA REPORTAGEM ESPECIAL DA SEMANA, VOCÊ VAI SABER OS PREJUÍZOS CAUSADOS À NATUREZA POR AQUELES QUE COMPRAM E VENDEM ANIMAIS SILVESTRES. MAS VAI SABER TAMBÉM, EM QUE CONDIÇÕES É POSSÍVEL CRIAR ALGUMAS ESPÉCIES.
TRILHA: BARULHO DE AVES, DE MACACOS
"Eu fui numa caçada, ia atirar numa asa branca, e um macaco espantou essa ave. Eu atirei no macaco. O macaco olhou para mim, com um furo no peito do projétil, encheu aquele buraquinho de folhas, como se aquilo fosse salvá-lo. Aos meus pés, as lágrimas lhe desceram aos olhos, ele cruzou os braços e no estertor da morte, olhou para mim mais uma vez, fechou os olhos e morreu. A partir daquele momento, eu, adolescente, encostei uma espingarda belga que meu avó tinha me dado de presente e nunca mais cacei. E prometi para mim mesmo que, um dia em que eu tivesse condições, teria uma grande área, não só para preservar macacos, mas toda a biodiversidade."
O depoimento que você ouviu é de Otávio Nolasco de Farias, dono da fazenda Serra Branca, na Bahia. Ele cumpriu sua promessa, abandonou as caçadas, e hoje é um dos maiores responsáveis pela preservação da rara espécie da ave arara-azul de lear. Em sua fazenda, há uma reserva ecológica, citada até pela CPI da Biopirataria como exemplo individual de preservação e reconhecida pelo governo da Bahia. Para impedir que os traficantes ameacem as aves, seu Otávio conta que a propriedade é cercada e fiscalizada por vigilantes particulares.
"Nós nos limitamos com a reserva ecológica do Raso da Catarina. E o governo federal dispõe de pouquíssima gente, e essa área é praticamente abandonada. Por mais que se faça, nada se faz. E aí eu tenho que manter a minha área preservada porque senão eu não vou ter como preservar mais, porque o tráfico é grande"
Seu Otávio diz que observa pouquíssima fiscalização para combater o crime. O relatório da CPI da Biopirataria confirma: O Escritório Regional do IBAMA da área possui apenas uma servidora, com responsabilidade sobre 35 municípios. E o próprio relatório adverte que é problemático que a preservação de uma espécie fique condicionada à atuação de apenas uma pessoa, Otávio Nolasco.
TRILHA: A ANDORINHA VOOU VOOU
O animal silvestre é aquele que foi tirado da natureza e reage à presença do ser humano. Por isso mesmo, não consegue crescer e se reproduzir adequadamente em cativeiro. Mesmo assim, muita gente cria animais silvestres em casa, de forma legal. Por exemplo, para ter certeza de que o passarinho que você tem em casa é legal, é preciso ter a comprovação do Ibama de que ele vem de criadouros comerciais devidamente legalizados. O Coordenador-Geral da Renctas, Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, Dener Giovanini, destaca que são poucas as lojas autorizadas pelo Ibama a comercializar animal silvestre, por isso é bom ter cuidado. Ele sugere que a pessoa interessada em comprar um animal entre antes em contato com a linha verde do Ibama, pelo número 0800 61 80 80, para saber se a loja é autorizada. Ou então, você pode exigir da loja a autorização do Ibama para vender animal silvestre. É bom lembrar que todo animal silvestre legal deve ser vendido com nota fiscal e número de identificação. Dener salienta que as carnes de animais silvestres, como capivara e jacaré, também devem ter autorização do Ibama, com documentação comprovada.
"Mas o mais importante é no fundo as pessoas se conscientizarem que lugar de animal silvestre é na natureza, nós temos muitas possibilidades de ter animais domésticos, que não os animais silvestres, como o caso do gato, do cachorro, que não há necessidade de querermos ter espécies silvestres como se fossem animais domésticos"
Dener alerta que uma lei de 1967 passou a incriminar aquelas pessoas que têm animal silvestre em casa, como papagaio ou periquito. Ele explica que a lei não diferencia aquele que mantém o animal do traficante. Dener destaca o papel importante do animal silvestre na natureza, e a pessoa que o leva para casa acaba com as possibilidades de descendentes do espécime.
"O brasileiro foi acostumado a enxergar um animal silvestre como um animal doméstico também, coisa que ele não é, e é um processo que a gente tem que lutar para mudar isso. Porque é um problema que atinge uma grande quantidade de espécie silvestre brasileira e que faz parte da nossa cultura, que está de norte a sul do país, as pessoas tem esse hábito de ter pelo menos o seu passarinho na gaiola. A chamada cultura da gaiola"
TRILHA: QUE O HOMEM VEM AÍ...
O delegado da Polícia Federal, chefe da Divisão de Prevenção e Repressão a crimes contra o Meio Ambiente, Jorge Barbosa Pontes, acha a legislação muito branda com o traficante de animais. A pena varia de 6 meses a um ano de detenção e a multa vai de 500 reais a 5 mil reais por exemplar apreendido. O delegado considera que é preciso incriminar com mais rigidez o tráfico internacional.
"Crimes como o tráfico de animais são crimes convidativos. O tráfico de animais convida, porque os lucros estão chegando tão altos como o tráfico de armas, de drogas, porque o bem que está sendo contrabandeado é um bem caro. O mercado no exterior - Europa, EUA, extremo Oriente, é um mercado ávido por esse tipo de item, enfim, e o grande saqueado, o grande perdedor é o Brasil, é a natureza, a sociedade brasileira"
É bom lembrar que é crime vender ou comprar artesanato com penas e pele de animais. A venda de estrelas-do-mar, tão comum em cidades litorâneas, também é proibida. Os traficantes de animais silvestres são conhecidos por sua crueldade no transporte dos bichos. Eles são escondidos em fundos de malas ou caixotes, sem ventilação, e ficam vários dias sem comer nem beber. Por isso, de cada 10 animais capturados, nove morrem no caminho. Os traficantes também usam de crueldade na hora da venda. Alguns costumam rodar os micos pelo rabo para que eles fiquem tontos e passem ao comprador a imagem de mansidão. Muitos cegam os pássaros e cortam as asas para evitar a fuga. Outros ainda arrancam os dentes e serram as garras dos animais para que eles se tornem menos perigosos. Assim, quem compra animal silvestre ilegal, está alimenta esse tipo de atitude.
De Brasília, Adriana Magalhães.
NA REPORTAGEM ESPECIAL DE AMANHÃ, SAIBA O QUE O BRASIL ESTÁ FAZENDO PARA PRESERVAR SEU PATRIMÔNIO GENÉTICO.