Rádio Câmara

Reportagem Especial

Especial Luta pela Terra: O Massacre de Eldorado do Carajás (05'47")

17/04/2006 - 00h00

  • Especial Luta pela Terra: O Massacre de Eldorado do Carajás (05'47")

Em 17 de abril de 1996, 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados por policiais militares no Pará, após o bloqueio de uma rodovia naquele estado. O massacre de Eldorado dos Carajás ganhou repercussão em todo o mundo e a organização internacional que reúne movimentos sociais, Via Campesina, declarou o 17 de abril como o Dia Internacional de Luta pela Terra.

TRILHA

O coordenador do MST no Pará, Charles Trocate, tem hoje 28 anos. Aos 18, ele participou da manifestação que acabou com o massacre de Eldorado dos Carajás. Charles, que levou um tiro no pé, conta como a negociação com a polícia acabou em massacre.

"Dia 17 pela manhã a gente chega na curva do S. E nós então falamos que a gente queria 50 ônibus para chegar até a capital do estado, Belém, e mais 10 mil quilos de alimentação. Feito isso, nós desobstruímos a rodovia, e demos um prazo de até o meio dia para que o Major Oliveira viesse dar a resposta. Quando foi meio-dia ele não apareceu, então às 14h a gente voltou novamente a trancar a BR. Foi quando por volta das 16h os dois pelotões chegaram, e por volta das17h, sem que houvesse nenhuma tentativa de conversa, de negociação, começa esse processo que culminou no massacre"

Para Charles, o balanço do que foi feito nesses 10 anos desde a chacina não é positivo. Segundo o coordenador regional do MST, nenhum responsável foi preso, os parentes de vítimas não foram indenizados, e os feridos nunca receberam tratamento adequado.

TRILHA

O massacre de Eldorado dos Carajás e o dia de luta pela terra fazem lembrar de um dos grandes problemas enfrentados pelo país: a questão fundiária. O presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária, Abra, Plínio de Arruda Sampaio, afirma que a história da luta fundiária remonta ao descobrimento do Brasil.

"Essa luta fundiária, a história dela é a história do Brasil. É a história dos donos da terra sendo expulsos, a história da formação do latifúndio, a história triste de uma lei de terras de 1850, que foi feita para prevenir, impedir que quem trabalha a terra ficasse dono da terra. Ela foi feita precisamente para isso. E depois ela foi postergada na hora que se fez a abolição da escravatura. Você tem uma população escrava no campo. Você torna essa população livre, e não dá a ela o acesso a terra. Uai! Como é possível? O que quer dizer essa liberdade?"

De acordo com Plínio de Arruda Sampaio, desde 1950, no entanto, o Brasil começou a pensar mais seriamente em reforma agrária. Mas o presidente da Abra lamenta que todos os governos brasileiros desde a ditadura militar tenham gerado uma série de programas de reforma agrária, que, segundo ele, nunca significaram uma mudança profunda na estrutura fundiária brasileira.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Incra, estima que cerca de três milhões e meio de brasileiros precisem de terra. Ainda de acordo com o Incra, o Brasil enfrenta um grande problema de concentração fundiária, já que os imóveis com mais de mil hectares representam pouco mais de 1 por cento dos imóveis cadastrados, mas abrangem 46% da área total. O presidente do Incra, Rolf Hackbart, critica a concentração de terras no Brasil.

"Nós só teremos um país desenvolvido se a propriedade e uso da terra for democratizado. Isso qualquer país desenvolvido já fez. Então a concentração da propriedade da terra no Brasil ainda é muito grande. Nós só vamos resolver através do desenvolvimento rural sustentável, onde inclui a Reforma Agrária. A forma de pressão de todos os movimentos sociais por terra, por desenvolvimento rural sustentável, ela continua. E é normal, faz parte da democracia"

TRILHA

De acordo com informações da Ouvidoria Agrária Nacional, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, os movimentos de trabalhadores sem-terra fizeram 221 ocupações no ano passado. Além disso, foram constatadas 74 mortes no campo. Dessas, 14 foram decorrentes de conflitos agrários, 39 não foram causadas por conflitos, e 21 ainda estão sob investigação.

De Brasília, Paula Bittar

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