Reportagem Especial

Especial Forças Armadas - Carreira militar (07' 05")

03/04/2006 - 00h00

  • Especial Forças Armadas - Carreira militar (07' 05")

NA EDIÇÃO DE HOJE DO REPORTAGEM ESPECIAL VOCÊ VAI SABER UM POUCO MAIS SOBRE OS MOTIVOS QUE LEVAM OS MILITARES A TROCAREM A CARREIRA POR OUTRAS PROFISSÕES PÚBLICAS OU PRIVADAS.

Antigamente, a decisão de um filho ou de um parente em seguir a carreira militar era considerada uma ótima opção profissional. Os familiares, orgulhosos, sentiam que o jovem estava bem encaminhado. A farda causava "frisson" entre as moças. E agora, o que acontece? Principalmente devido à defasagem salarial e à dificuldade de aplicarem na prática o que aprendem nos cursos, "os milicos", como são conhecidos, passam a se sentir atraídos por outras carreiras financeiramente mais compensadoras. Problemas como orçamento reduzido, dificuldades para prover a modernização do equipamento existente e a falta de um interlocutor institucional junto à classe política, em especial depois de 64, contribuem para reforçar a opção por largar a vida de caserna.

O deputado do PP fluminense Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, participou de uma formatura em 2005 da Polícia Rodoviária Federal. Dos 120 formandos, 10 por cento eram oriundos das três forças, entre oficiais e praças.
Para o deputado, a maneira de estimular o militar a permanecer na Força passa necessariamente pela questão salarial e orçamentária.

"A satisfação pessoal você não tem mais. Você não tem mais como se realizar profissionalmente por falta de meios. Nós não podemos achar que capitães e tenentes, já próximos aos dez anos de serviço, estejam deixando a Força por uma questão de vocação. Se fosse assim, iriam embora no primeiro ou segundo ano da Academia. Então, realmente, é uma degradação muito grande e as autoridades civis e militares devem atentar para isso, porque as Forças Armadas não é deste ou daquele. É do Brasil, é do povo brasileiro e sem ela, não há soberania nacional"

A opção de largar a farda não é simples. Muitos precisam indenizar a Força por cursos realizados, mas alegam que não têm como pagar o que devem. Cria-se um impasse, por vezes resolvido somente pela via judicial. Esse é o caso de um ex-fuzileiro naval, que preferiu não se identificar, que deve cerca de 60 mil reais por ter pedido demissão.

"Fiquei oito anos nas Forças Armadas e o que mais me motivou a sair de lá foi principalmente a questão salarial. Infelizmente, o salário dos militares hoje está bem defasado em relação aos outros salários, em relação ao que a gente pode encontrar fora das Forças Armadas. E também em relação a falta de meios, falta de motivação. A maioria do pessoal não tem meio para trabalhar, não tem recursos, então acaba tendo uma tropa muito desmotivada. Há uma indenização que eles cobram pelos conhecimentos que você adquiriru lá. Você faz algum curso você tem um tempo mínimo para servir após o curso como se você fosse pagar. Mas muitas vezes acontece que, como é o meu caso também, a gente recebe o curso da União e estamos em outro órgão da União empregando o conhecimento que a gente adquiriu lá. E mesmo assim, é cobrada essa multa por esse curso que nós fizemos"

Para o ex-ministro Jarbas Passarinho, militar da reserva, a saída dos militares para a vida civil é consequência da política salarial adotada pelo governo. Jarbas Passarinho, que serviu durante 29 anos no Exército, acredita que falta uma maior isonomia entre os salários no Brasil, o que não acontecia no seu tempo.

"Até mesmo ao meu tempo de cadete, nós não discutíamos salário. Achávamos que era até constrangedor discutir salário. Para mim o problema fundamental hoje é que o país precisa crescer e para crescer economicamente, fazer o crescimento e a distribuição de renda. Isso poderia justificar em grande parte o renascimento do interesse pela carreira militar, porque eles não passariam pelas vicissitudes que estão passando hoje"

O chefe da seção de Informações Públicas do Centro de Comunicação Social do Exército, Coronel Fernando, afirma que a capacitação de seu pessoal, por intermédio das escolas de formação, especialização e aperfeiçoamento, e também o adestramento contínuo dos seus quadros profissionais é prioridade para o Exército. Segundo o militar, o número de profissionais que desistiram da carreira não cresceu nos últimos anos.

"A profissão militar tem peculiaridades que exigem da pessoa muita vocação. O militar convive com o risco de vida, está sujeito a preceitos rígidos de disciplina e hierarquia. Se exige dele também dedicação exclusiva e disponibilidade permanente. Nós possuímos uma mobilidade geográfica, isto é, pode ser movimentado a qualquer época do ano e para qualquer região do País. Temos uma formação específica e aperfeiçoamento constante e também nos é exigido elevado nível de saúde física e mental para poder cumprir nossas atribuições. Isso entre outras características. Posso afirmar, com certeza, que o Exército não registrou nos últimos anos um aumento significativo na evasão de militares de carreira"

O deputado do PFL do Distrito Federal e coronel da reserva da Polícia Militar Alberto Fraga defende a valorização do material humano e o resgate da dignidade militar por meio de um salário digno.

"Antigamente, os oficiais das Forças Armadas, normalmente eles eram originários de famílias de nome, tradicionais, da classe média alta. Hoje, os futuros oficiais das Forças Armadas já não vêm mais dessas famílias tradicionais ou de classe média alta. Hoje, já vem de um bolsão de miséria. Ou seja, é claro, sem nenhuma discriminação, que isso contribui também para uma diminuição da capacitação do nosso futuro comandante. Evidente que são pessoas altamente preparadas, que quando vêem um ascensorista ganhando mais do que um piloto de caça, é porque a pirâmide está invertida. E isso tem proporcionado uma saída em massa dos profissionais da segurança nacional, buscando uma melhor condição de vida, melhores salários, mas em decorrência da falta de atenção, da falta de zelo que o governo federal deveria ter com as Forças Armadas e que infelizmente, não tem"

Enquanto existem aqueles que deixam a carreira militar, há também os que querem muito servir e vêem no serviço militar obrigatório uma chance de ingressar nas Forças Armadas. Mas o debate sobre esse tema, nós vamos discutir na edição de amanhã.

De Brasília, Simone Salles

AMANHÃ, NA QUARTA EDIÇÃO DO REPORTAGEM ESPECIAL SOBRE AS FORÇAS ARMADAS, VAMOS FALAR SOBRE O SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO.

O programa apresenta e aprofunda temas em debate na Câmara

Sábado e domingo às 8h30, 13h e 19h30. E nas edições do programa Câmara é Notícia. Mande sua sugestão pelo WhatsApp: (61) 99978.9080.