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Reportagem Especial

Especial CPMI dos Correios - Como foi deflagrada a atual crise política (05' 39")

  • Especial CPMI dos Correios - Como foi deflagrada a atual crise política (05' 39")

Abril de 2005. Um chefe de departamento dos Correios é flagrado ao receber 3 mil reais de propina dentro da estatal. Seu nome: Maurício Marinho. O pacato servidor público diz ter ligações com o PTB e acaba detonando uma crise sem precedentes na história política do país. Para defender o partido, o presidente petebista, Roberto Jefferson, mira em figurões do governo Lula e acerta em cheio nos ideais de ética que o Partido dos Trabalhadores construiu ao longo de 25 anos. Surge a imagem do "mensalão", pago por um tal "carequinha mineiro" a mando do "Zé". Roberto Jefferson exibe dotes de oratória para denunciar o esquema montado pelo empresário mineiro Marcos Valério de Souza e pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para que deputados votassem a favor de matérias do interesse do governo. Jefferson poupa o presidente Lula, mas é impiedoso com a cúpula petista. Seus principais alvos são os ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Secretaria de Comunicação Social, Luiz Gushiken, além do presidente do PT, José Genoíno, acusados de levar a corrupção ao governo e à Câmara.

"Escolheu o ministro José Dirceu, assim como uma espécie de Jeane Mary Corner, o rufião do Planalto para alugar prostitutas que ele entendia poder fazer aqui na Câmara dos Deputados. Tratou essa Casa como se nós fôssemos um prostíbulo. E nós estamos numa guerra fratricida, sanguinária entre nós, quando a corrupção está na praça do lado de lá. De lá partiu a corrupção. De lá (palmas)".

As denúncias de Jefferson foram um prato cheio para a oposição, trouxeram perplexidade à população e monopolizaram o noticiário. Entidades da sociedade civil exigiram a apuração imediata dos fatos. O próprio governo e o PT admitiram "cortar na própria carne". Polícia Federal e Ministério Público foram mobilizados. E o Congresso Nacional, arranhado pelo "mensalão", não viu outra alternativa senão criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o escândalo. A CPMI dos Correios foi instalada no início de junho já com um desafio inicial bem definido: vencer a desconfiaça. Afinal de contas, a comissão era presidida pelo líder do PT no Senado, Delcídio Amaral, e tinha a relatoria nas mãos do deputado Osmar Serraglio, do PMDB governista. Para o líder do PSDB na Câmara, deputado Alberto Goldman, isso era o sinal de uma CPMI "chapa branca".

"É uma tentativa de blindagem, uma tentativa de abafar a CPI. É uma tentativa de controlar para que ela tenha os caminhos e as direções que o governo pretende. Mas eu não tenho dúvida nenhuma de que isso tudo vai ser insuficiente porque a pressão da opinião pública vai acabar orientando de forma correta."

O presidente da comissão, senador Delcídio Amaral, reagiu às insinuações.

"Eu não sou presidente para ficar abafando as coisas e para virar refém de atitudes de procrastinação. Se for isso, eu não vou cumprir meu papel de presidente até o final da CPMI porque esta carapuça eu não visto."

E, na prática, a investigação avançou de forma vertiginosa. A partir de um caso de pagamento de propina nos Correios, os parlamentares se debruçaram sobre vários casos de corrupção que chegaram à comissão em mais de cem depoimentos e em toneladas de papéis oriundos das quebras dos sigilos dos investigados. Foi necessário dividir o trabalho em cinco sub-relatorias: Contratos, Movimentação Financeira, Fundos de Pensão, Instituto de Resseguros do Brasil e Normas de Combate à Corrupção. Três empresas de auditoria tiveram de ser contratadas para auxiliar a análise dos dados. Avanços também foram conseguidos por meio do trabalho conjunto com o Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Ministério Público e órgãos do Ministério da Fazenda. Através da imprensa e dos meios de comunicação da Câmara e do Senado, a população acompanha ao vivo os momentos mais importantes da CPMI e interage com os parlamentares, oferecendo subsídios contra os depoentes e cobrando a atuação firme dos parlamentares. A vigilância é tamanha que o relator da comissão, deputado Osmar Serraglio, compara a atuação da CPMI a um júri popular.

"Qualquer um de nós, onde somos abordados, a população nos diz: ´nós estamos acompanhando, eu lhe assisti, eu vi isso, eu vi aquilo´. Coisa que eu próprio, aqui sentado, às vezes não vejo. Quando saio um pouco daqui, vejo que a população sabe mais do que eu. Então, hoje o julgamento é diferente. Há um júri popular aberto e franco."

Serraglio admite que, provavelmente, a CPMI não terá tempo de concluir todas as frentes de investigação abertas. Porém, como veremos na reportagem de amanhã, os sete/oito meses de trabalho já levaram à cassação ou à renúncia de parlamentares envolvidos nas denúncias e trouxeram à tona a necessidade urgente de uma Reforma Política para eliminar vícios, como o caixa 2 nas campanhas políticas, por exemplo.

De Brasília José Carlos Oliveira.

A abordagem em profundidade de temas relacionados ao dia a dia da sociedade e do Congresso Nacional.

De segunda a sexta, às 3h, 7h40 - dentro do programa Painel Eletrônico - e 23h

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