Reportagem Especial

Especial Gripe Aviária - Especialistas não descartam a possibilidade da gripe aviária virar uma pandemia (10' 40")

19/12/2005 - 00h00

  • Especial Gripe Aviária - Especialistas não descartam a possibilidade da gripe aviária virar uma pandemia (10' 40")

É real a possibilidade de que a gripe aviária vire uma pandemia, sendo transmitida entre humanos e alcançando proporções mundiais. Pelo menos, essa é a opinião dos especialistas, que não sabem, entretanto, precisar o período em que isso pode acontecer. É bom lembrar que pandemias de gripe são eventos freqüentes, que ocorrem a cada 20 ou 30 anos, e faz algum tempo que o mundo não vivencia uma epidemia com alcance global. Luiz Jacintho, do Grupo Regional de Observação da Gripe da Secretaria de Saúde de São Paulo, explica o que deve acontecer, uma vez desencadeada a pandemia.

"No momento em que houver um vírus pandêmico se transmitindo de pessoa para pessoa, não há sistema que impeça a chegada dele onde quer que seja. Ele vai entrar, ele vai passar. Não existe nenhuma proposta de impedir a entrada do vírus aqui ou ali. A programação é reduzir o impacto, reduzir o número de óbitos, reduzir o número de internações, e reduzir ou impedir o caos social."

Para controlar a situação, o mundo deve tomar medidas integradas de vigilância e prevenção. Uma delas diz respeito ao monitoramento de aves migratórias, que são os principais disseminadores da doença pelo globo, explica a médica infectologista Cristiana Toscano, da Organização Pan-Americana da Saúde. Ela diz que os países devem tentar fazer barreiras sanitárias adequadas. Cristiana explica que alguns países, inclusive da América Latina, já realizam a vigilância de aves migratórias. A idéia, com essas medidas, é monitorar as aves, avaliando eventuais doenças que poderiam ser disseminadas por elas, inclusive a influenza aviária."

Uma questão importante é a indenização de produtores de aves infectadas. Se o produtor não tiver a certeza da indenização, não vai dar o alerta precoce da doença, o que acaba comprometendo o combate ao vírus.

TRILHA

Outro ponto que a Organização Mundial de Saúde - OMS - vem trabalhando é no estoque do anti-viral, específico para esse tipo de vírus. Segundo Cristiana Toscano, a estratégia adotada pela OMS é fazer um estoque estratégico do medicamento.

"Existe uma proposta inicial de, caso o vírus venha a se tornar pandêmico, a OMS tem um estoque estratégico que está preparado para ser usado para ser administrado no local onde esse vírus apareça. Para tentar conter um eventual vírus pandêmico na fonte, para impedir essa transmissão internacional."

Cristiana Toscano alerta que a capacidade de produção mundial do remédio é limitada. Por isso, uma das lutas da Organização Mundial de Saúde é a negociação com produtores internacionais, discutindo a transferência voluntária de tecnologia. Ela destaca que muitos países estão produzindo estoques estratégicos do anti-viral. É o caso do Brasil. Assim que os primeiros casos começaram a surgir, em dezembro de 2003, o Brasil começou a trabalhar num plano para enfrentar a possível chegada da doença aqui. Uma das medidas foi a compra do anti-viral Tamiflu. O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, diz que o Brasil já comprou mais de 9 milhões de tratamentos, o que corresponde a 91 milhões de doses. Ele destaca que os primeiros 14 mil tratamentos chegam até 31 de dezembro e serão utilizados para treinar as pessoas nos estados.

"O Tamiflu vai ficar como estoque estratégico, para uso em duas situações: ou para tratar pessoas que tenham a forma grave da doença, ou para fazer a profilaxia. Enquanto a gente espera a fabricação da vacina, que vai levar 6 meses entre a detecção da cepa e a produção da vacina, o Tamiflu pode ser usado com eficácia para bloquear. Pessoas que tiveram contato com casos tomam 2 doses somente, num período de 48 horas, eles não têm a doença e não transmitem. Então a gente vai bloqueando a transmissão."

O Ministro da Saúde, Saraiva Felipe, diz que foram gastos 193 milhões de reais com a compra de Tamiflu, destacando que o Brasil é o único país da América do Sul que possui a droga. Ele ele considera suficientes as 91 milhões de doses adquiridas.

"91 milhões de doses corresponderiam a 9 milhões e 100 mil tratamentos. Só que você utiliza 10 doses para fazer o tratamento, você identifica a pessoa com vírus. Para fazer o bloqueio de contato, você usa apenas 2 doses. O que o Ministério está se preparando é caso isso venha a ser uma pandemia com transmissão de pessoa para pessoa, é que nós tenhamos esquemas de detecção rápida e possamos fazer não apenas o tratamento, como fazer o bloqueio. Então, inicialmente é suficiente, e nós estamos negociando Biomanguinhos com o laboratório Roche, de tal forma que o laboratório nos fornecesse a droga semi-processada ,e que fizesse um acordo que nós continuassemos o processamento. E que nós poderíamos, nesse caso, servir a outros países da região, dar segurança a outros países da região."

TRILHA -

O investimento na vacina contra a gripe aviária é outra preocupação do Brasil. O Diretor do Instituto Butantan, Otávio Mercadante, informa que, no início de 2006, será feita uma produção piloto da vacina contra a gripe avirária, com cerca de 20 mil doses, com recursos do Ministério da Saúde. Com esse teste, a eficácia da vacina poderá ser avaliada. A partir daí, explica Otávio Mercadante, se realmente acontecer uma pandemia de gripe aviária, o instituto vai produzir a vacina em escala industrial. Também para o ano que vem, no final do primeiro semestre, está prevista a conclusão de uma fábrica, com capacidade de produzir 60 milhões de doses anuais de vacinas contra a influenza. Segundo Mercadante, o Ministério da Saúde já liberou recursos para compra de equipamentos, em torno de 40 milhões de reais. Essa fábrica pode ser adequada para produzir a vacina contra a gripe aviária, explica Mercadante.

"Com certeza, nós somos um dos poucos países do mundo que vai ter capacidade de resposta rápida à demanda de vacinação. Quando você pensa numa pandemia de gripe, nós não temos experiência de numa pandemia usar vacina. Nós vamos ter que ver diferentes cenários, diferentes alternativas, se a gripe está circunscrita a uma determinada região, se se vacina inicialmente só aquela região. Nós estamos nos preparando - o Ministério da Saúde tem um grupo trabalhando nisso, a Secretaria de Saúde de São Paulo também - para fazer a vigilância e o controle da doença."

O problema é que, uma vez que o vírus muda constantemente sua estrutura, a vacina vai ter que acompanhar essa mutação. O diretor do Instituto Butantan diz que isso não é contornável e que a vacina pode se adequar facilmente a essas modificações, como ocorre anualmente na fabricação da vacina contra a gripe normal. A infectologista do Instituto Evandro Chagas, Rita Medeiros, diz que é preciso saber qual é o vírus certo que vai causar a pandemia, o que não é fácil. Ela alerta que, a partir do momento que a pandemia for declarada, a vacina não será produzida imediatamente. Otávio Mercadante considera que, sem a produção própria de vacina contra a gripe aviária, a situação do Brasil, no caso de uma pandemia ficaria muito difícil. Segundo Mercadante, existem poucos produtores, localizados basicamente na Europa.

"No caso de uma epidemia de grandes proporções, os países centrais com certeza vão produzir para suas populações. Aí que nós vamos ter o problema de ver, principalmente os países pobres da Africa, como é que eles vão ser atendidos nas suas necessidades. O cenário vai mudando, conforme o cenário, nós vamos ter a necessidade de uma mobilização internacional de grandes proporções, com a Organização Mundial da Saúde dando suporte às ações, com eventual derrubada de patentes, para que os países possam ter acesso aos medicamentos em maior escala."

Otávio Mercadante diz que a aplicação da vacina será exclusivamente por orientação das autoridades sanitárias e não será definitivamente comerciada à população.

TRILHA

Além do anti-viral e da vacina, o Brasil também está desenvolvendo um sistema de vigilância, chamado sentinelas, já instalado em 66 unidades, distribuídas em 20 estados e no DF. As sentinelas são hospitais, postos de saúde e policlínicas que recebem treinamento do Ministério da Saúde, equipamentos de informática e refrigeração, além de kits de coleta de amostras. O objetivo é verificar quais vírus estão presentes naquela região, o que permite traçar estratégias, por exemplo, de vacinação e de distribuição de remédios. A intenção do Ministério da Saúde é ter o serviço implantado em todos os estados no ano que vem. A médica infectologista Cristiana Toscano, da Organização Pan-Americana de Saúde, trabalha no monitoramento da gripe aviária há quase dois anos. Ela destaca que vem percebendo o aumento do engajamento de todos os países, que, de uns 6 meses para cá, estão tendo uma maior percepção do risco da pandemia e, conseqüentemente, detonando mais estratégias de combate.

De Brasília, Adriana Magalhães.

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