Reportagem Especial
Especial Clima 3 - Consequências do aquecimento global (08' 07")
17/11/2005 - 00h00
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Especial Clima 3 - Consequências do aquecimento global (08' 07")
TRILHA
Setembro foi o mês mais quente desde 1880, e os cientistas projetam que 2005 será o ano mais quente nos últimos dois séculos. E sabe quem gosta de calor? Os furacões, que se formam justamente quando as águas dos oceanos ficam mais quentes. Os prejuízos causados por eventos naturais como enchentes e furacões chegaram a 60 bilhões de dólares em 2003. Então imagine os custos que os furacões Katrina e Wilma causaram nos Estados Unidos e Caribe. As companhias de seguro já notaram o aumento das demandas em função das catástrofes naturais, e esses prejuízos são apenas o começo. E se você acha que furacão é algo muito distante da sua vida, lembre-se do Catarina, que passou por terras brasileiras em março de 2004. Os cientistas não descartam que o Brasil possa voltar a ter esse tipo de fenônemo.
O aquecimento mexe com os regimes de chuvas. O calor aumenta a evaporação da água no solo, o que causa secas como a que acompanhamos na Amazônia. Só que esse vapor que saiu do solo fica na atmosfera e pode desabar de uma só vez. O resultado? Enchentes. A previsão é que secas e enchentes fiquem mais intensas com as alterações climáticas no planeta. E o desenho agrícola mundial pode mudar com as variações nas chuvas e nas temperaturas. É claro que as plantas podem se adaptar e a tecnologia pode ajudar os cultivos a suportarem as mudanças climáticas. Mas essas adaptações são limitadas e demandam grandes investimentos. Segundo Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, os mais prejudicados serão os países mais pobres.
"O grande problema é que os maiores impactos são previstos para os países em desenvolvimento. São os países que mais diretamente dependem da produção de alimentos, a economia está mais atrelada aos produtos agrícolas. Portanto, não está claro se esses países terão a capacidade de se adaptar, buscar novas variedades."
Carlos Nobre destaca que o Brasil pode ter problemas com o aumento do calor, pois a regra é que plantas gostem de climas mais amenos. Para ele, as mudanças climáticas são uma realidade, e o trabalho de pesquisa para a adaptação de plantas ao clima mais quente já deveria ter começado, mesmo que existam incertezas sobre como será o futuro com uma temperatura mais alta.
Outra possível conseqüência do aquecimento é a disseminação de doenças tropicais, como a malária e a dengue. O pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jefferson Simões, nos dá um exemplo.
"Pode causar impactos, por exemplo, em vetores de doenças tropicais, que podem expandir de área se começar a aquecer. Sempre dou o exemplo do Rio Grande do Sul, que é o único estado junto com Santa Catarina que está livre da dengue. Em um aquecimento de 3 a 4 graus na temperatura do planeta Terra talvez o Rio Grande do Sul entrasse nessa área".
TRILHA
E o que podemos fazer em relação a esse desenho tão catastrófico para o futuro? Sabemos que o efeito estufa possivelmente é a causa do aquecimento global. Sabemos também que o efeito estufa é causado principalmente pela emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Por que não buscamos uma solução? A resposta quem dá é Jorge Nogueira, coordenador do mestrado em Gestão Econômica do Meio Ambiente da Universidade de Brasília.
"Nós sabemos soluções para as causas do aquecimento global? Sabemos. Nós temos várias alternativas. Então por que a gente não usa? Porque essas alternativas têm um custo muito elevado. Mas tudo bem, mas o custo vai compensar o benefício que vamos ter no futuro. Tudo bem, vai compensar os benefícios lá no futuro, só que quem vai pagar o custo sou eu hoje".
Infelizmente o homem vive muito no presente e esquece que seus filhos e netos estarão aqui em condições muito piores se algo não for feito. A idéia é reduzir ao máximo a emissão de gases e já iniciar um planejamento para as mudanças que são inevitáveis. O protocolo de Quioto é um passo nessa direção. O Protocolo é um compromisso internacional que estabelece algumas metas de redução na emissão de gases poluentes, que seriam de aproximadamente 5% para os países mais desenvolvidos no período de 2008 a 2012. Esses 5% são medidos em relação às emissões de 1990. O problema é que o Protocolo não será seguido por todos os países. Os Estados Unidos, que são responsáveis por 35% das emissões mundiais, simplesmente não assinaram o compromisso, assim como a Austrália, que é o maior produtor mundial de carvão. Para Ruy de Góes, diretor do programa de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, esse primeiro período de compromisso tem metas tímidas. Mas ele avalia que em alguns anos os Estados Unidos podem rever sua posição.
"Eu acho que o momento é de uma mudança dentro da opinião pública americana, e nisso o evento do Katrina teve um papel importante. Então cresce dentro da opinião pública norte americana a consciência de que é preciso tomar atitudes para deter a as mudanças climáticas. Isso eu acredito que vai trazer decorrências nos próximos anos."
O protocolo de Quioto prevê que os países têm responsabilidades comuns porém diferenciadas. Esse é o princípio do poluidor pagador. Ou seja, quem tem uma responsabilidade maior pelas emissões tem também mais responsabilidade para resolver o problema. Países em desenvolvimento, como o Brasil, não tem metas de redução de emissões, ainda que tenham se comprometido com o esforço mundial. Essa questão tem gerado uma polêmica entre os países que não assinaram o compromisso. Os Estados Unidos, por exemplo, alegam que é injusto os países desenvolvidos reduzirem suas emissões se países em desenvolvimento também não tiverem metas de redução. O professor da UFRJ e secretário geral do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa, rebate energicamente esse argumento.
"Os grandes responsáveis pelo efeito estufa são os países desenvolvidos. Não são o Brasil, a Índia nem a China, que é o trio que se resolveu apontar agora para disfarçar a irresponsabilidade dos países que assumiram em 1992, na Rio 92, o compromisso de reduzir suas emissões já no ano 2000. E agora buscaram bodes expiatórios em países que ainda têm um consumo de energia muito baixo e uma miséria muito grande na sua população."
As metas do Protocolo de Quioto serão revistas de tempos em tempos. A próxima convenção mundial sobre o Clima acontece em Montreal, no Canadá, em novembro deste ano.
De Brasília, Daniele Lessa