Reportagem Especial
Especial Clima 2 - Aquecimento global (07' 43")
17/11/2005 - 00h00
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Especial Clima 2 - Aquecimento global (07' 43")
O clima do planeta está dando reviravoltas e os cientistas apontam que o responsável é o aquecimento global. E a Terra está aquecendo por causa do aumento de gases de efeito estufa na atmosfera. Mas para começar, é bom dizer que o efeito estufa é algo fundamental para a vida na Terra como conhecemos hoje. São gases como o dióxido de carbono, o metano e também o vapor d´água que tornam a temperatura mais acolhedora. Se o efeito estufa não acontecesse, o planeta seria trinta graus mais frio.
O problema todo é o desequilíbrio. O homem passou a emitir mais gases do que o planeta é capaz de dissipar. O dióxido de carbono vem principalmente da queima de combustíveis fósseis. Isso acontece nos nossos carros e nas usinas térmicas que transformam o carvão em energia elétrica. O dióxido de carbono também aumenta na atmosfera em função das queimadas e do desmatamento. Já o metano aparece principalmente em plantações de arroz, pastagens de gado e lixões. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Carlos Nobre, explica que o homem começou a medir o nível do carbono na atmosfera em 1957. Desde então, ano após ano, a concentração aumenta. A estimativa é que desde a Revolução Industrial, que foi momento que marcou o início das emissões de gases pelo homem, o nível de dióxido de carbono aumentou 37%. Carlos Nobre aponta que na década de 70 já se sabia que o aquecimento global era uma ameaça.
Desde 1896, o famosos físico sueco Arrhenius já tinha previsto que se o CO2 subisse a temperatura ia subir, já se sabia que era um gás de feito estufa. Então, no final da década de 70, vários organismos científicos, principalmente nos Estados Unidos e Europa, começaram a se preocupar seriamente com essa questão. Por exemplo, nos Estados Unidos, data de 79 o primeiro relatório dizendo que aquilo ali era um problema, um problema sério.
Pois se os gases na atmosfera funcionam como um cobertor quentinho que torna a temperatura mais amena, o excesso de gases é como aumentar a grossura do cobertor. E chega um momento em que pode ficar quente demais. As conseqüências são os fenômenos estranhos: ondas de calor, furacões, secas e enchentes. E algo que mexe com a imaginação: o aumento do nível dos oceanos.
TRILHA
Os mares estão aumentando por duas razões. As águas estão mais quentes e isso faz com que elas se expandam. A outra razão é o derretimento das geleiras. Jefferson Simões, que é pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o brasileiro com maior experiência na Antártica, explica onde o gelo está derretendo.
"O que nós sabemos é que onde o gelo está derretendo é principalmente nas nossas montanhas. Os Andes já perderam 20% de área de gelo nos últimos 40 anos. As montanhas rochosas, os Alpes, o Himalaia, o sul da Groelândia e o extremo norte da Antártica. Isso tudo poderá ocasionar nos próximos 50, 100 anos um aumento no nível do mar entre 20 centímetros até 60, 70 centímetros, o que é muito."
O derretimento das geleiras do Himalaia, por exemplo, poderia causar enchentes na China, Nepal e Índia. Aqui pertinho do Brasil, o gelo também está derretendo. Na periferia da Antártica isso já está acontecendo, como destaca Jefferson Simões.
"As temperaturas aumentaram quase dois graus centígrados nos últimos quarenta anos. O gelo ali está rapidamente descongelando. É claro que essa é uma parte mais amena do continente antártico e também em termos de gelo do planeta terra já não é tão representativo, a maioria do gelo está dentro do continente antártico. Mas restam algumas questões importantes, tais como: qual é o papel dessa parte da Antártica no clima da América do Sul?"
Os cientistas apontam que a Antártica tem grande influência nas frentes frias que avançam pelo Brasil, e que muitas vezes chegam até a Amazônia.
Mas a preocupação maior quando o assunto é derretimento de geleiras é o aumento no nível do mar. A água invadindo as áreas litorâneas deixou de ser tema de filme a agora é uma perspectiva real. As previsões de aquecimento para o próximo século indicam um aquecimento que pode ir de 1,5 a 5,5 graus celsius. Nos níveis dos mares pode haver um aumento de 20 a 80 centímetros. Mesmo a perspectiva mais otimista já representa uma situação muito grave para muitas cidades costeiras, como enfatiza Carlos Nobre.
"Trinta centímetros significa que a água do oceano vai invadir imensas áreas, países que tem áreas muito baixas como Bangladesh, várias ilhas oceânicas, cidades costeiras. Mesmo trinta centímetros nós temos que pensar em uma nova linha costeira bastante modificada."
Ou seja, serão necessários bilhões de dólares de reais para manter as cidades costeiras da maneira como funcionam hoje. A Holanda, que já possui diques para impedir o avanço do mar, ficaria numa situação bastante complicada. Algumas simulações apontam que a cidade do Recife precisaria construir barreiras para impedir a inundação. E o mais assustador é que parte dessa mudança já é inevitável, como afirma Gylvan Meira Filho, que é especialista em astrogeofísica e professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.
"Se nós, com a urgência que o caso requer, se nós começarmos a tomar imediatamente medidas para limitar as emissões dos gases de efeito estufa, especialmente o gás carbônico, o melhor que nós conseguiremos será fazer com que neste século a temperatura não mude mais do que 2 ou 2,5 graus celsius. Evitar completamente essa mudança já é impossível hoje."
Entre as mudanças previstas também estão alterações nos regimes de chuvas que podem mudar o mapa agrícola mundial. Como norma geral, o calor prejudica a agricultura, e os países mais penalizados serão os mais pobres, que dependem mais dos cultivos agrícolas.
De Brasília, Daniele Lessa